Marques Mendes entre as vitórias eleitorais e as criticas internas
A vitória do PSD nas eleições autárquicas e a chegada de Cavaco Silva a Belém marcaram os primeiros onze meses da liderança de Marques Mendes, em que não conseguiu evitar as críticas internas.
Em Abril de 2005, no discurso de vitória no congresso de Pombal, Marques Mendes prometeu uma "oposição firme e exigente", garantindo que o PSD nunca seria "uma muleta do Governo".
Um PSD que teria a sua própria agenda política, "com um programa de iniciativas e propostas", prometeu ainda Marques Mendes, que sexta-feira e sábado, em Lisboa, enfrenta o seu segundo congresso, desta vez estatutário, para decidir a eleição directa do líder.
Contudo, ao longo dos últimos meses, várias vozes dentro do partido, como Luís Filipe Menezes, seu adversário em Pombal, não pouparam a direcção de Marques Mendes, criticando a "letargia" dos sociais-democratas e a falta de estratégia de oposição.
"O PSD manteve-se numa atitude de hibernação, que ainda não se percebeu se decorre de uma estratégia muito elaborada ou se é tão só a tradução da falta de estratégia", escreveu há duas semanas Luís Filipe Menezes no seu blogue.
Três meses antes, tinha sido a ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite a "agitar" internamente o PSD ao afirmar que, se estivesse no Parlamento, não teria votado contra o Orçamento de Estado para 2006 apresentado pelo executivo socialista de José Sócrates.
"Se o orçamento vai ser cumprido tal como ele está apresentado não merecia o voto contra. Não merecia porque faz um esforço claro no sentido de controlar a despesa", disse Ferreira Leite, uma semana depois do PSD ter votado contra o Orçamento de Estado.
Críticas que Marques Mendes nunca comentou, preferindo insistir numa outra promessa feita em Pombal de "avançar com uma nova forma de fazer política" e reiterando por várias vezes os desafios ao Governo para estabelecer pactos de regime em matérias como as finanças, justiça e reforma da administração pública.
Nas autárquicas de Outubro de 2005, em nome da "credibilização da política", Marques Mendes optou por não apoiar as candidaturas de dois militantes que estavam sob investigação judicial - Isaltino Morais em Oeiras e Valentim Loureiro em Gondomar.
A estratégia deu frutos em Outubro, já que o PSD acabou por conquistar 159 autarquias, mantendo as duas principais (Lisboa e Porto), contra as 109 câmaras socialistas.
Pelo caminho, contudo, ficaram as câmaras de Oeiras e Gondomar, ganhas por Isaltino Morais e Valentim Loureiro, que, entretanto, saíram do partido.
Depois das autárquicas, a agenda politica passou a ser dominada pelas eleições presidenciais de Janeiro.
Tal como o PSD ansiava, o ex-líder Cavaco Silva entrou na corrida a Belém, com o apoio do seu partido, embora fazendo sempre questão de sublinhar a natureza supra-partidária da sua candidatura.
Mas foram poucas as figuras social-democratas convidadas a aparecer junto a Cavaco Silva na campanha eleitoral, com o líder social-democrata a surgir apenas num jantar-comício.
Já depois das eleições, e minutos antes de Cavaco Silva tomar posse como chefe de Estado, Marques Mendes confessou-se a sua felicidade por ver o antigo primeiro-ministro chegar a Belém. "Ajudei um bocadinho a lutar por isto", disse à entrada para a Assembleia da República.
A poucas semanas do congresso deste fim-de-semana, Marques Mendes assistiu ainda às primeiras demissões na sua comissão política:
primeiro Pedro Passos Coelho, Vasco Rato depois.
E se o primeiro disse apenas que saia por "razões de ordem política", Vasco Rato chegou a criticar abertamente a direcção, reclamando uma "oposição mais robusta" ao Governo socialista de José Sócrates.
A próxima prova de fogo de Marques Mendes ocorrerá este fim-de- semana, com o debate da sua alteração de estatutos, que entre outras, prevê a eleição directa do próximo líder social-democrata.
Caso a proposta seja aprovada, resta saber se Marques Mendes quer ir já a votos, ou se prefere esperar pelo próximo ano.
Uma decisão que terá de tomar escassas semanas depois de conhecer os resultados do barómetro de Fevereiro da Marktest para o DN e a TSF, onde surge em terceiro lugar nas preferência para a liderança do PSD, com Marcelo Rebelo de Sousa à frente com 29,1 por centro e Manuela Ferreira Leite com 15 por cento.
Marques Mendes surge em terceiro lugar, com 7,9 por cento das preferências, praticamente com o mesmo desempenho de Luís Filipe Menezes, que recolheu 7,8 por cento. No último lugar, ficou Santana Lopes com apenas 6,8% dos votos dos inquiridos.