Monte Redondo descobre "sensibilidade" de Junta no feminino

Monte Redondo descobre "sensibilidade" de Junta no feminino

Quando se chega ao edifício da Junta de Freguesia de Monte Redondo, no norte do concelho de Leiria, um pormenor salta à vista: onde há seis meses havia apenas passeio, agora pequenas floreiras dão um ar diferente ao espaço.

Agência LUSA /

Pormenor insignificante, dirão uns. "Sensibilidade diferente", atira Maria Espadinha, 57 anos, empresária da construção civil e da pecuária, presidente da Junta desde as últimas autárquicas.

As flores são só uma das pequenas diferenças que fazem o dia-a-dia daquela Junta de Freguesia, cujo executivo é apenas formado por mulheres. Tudo assume um "toque mais delicado", admitem as autarcas locais.

A ajudar Maria Espadinha na tarefa de desenvolver uma das principais freguesias do concelho, estão a tesoureira Lúcia Patrício, 47 anos, proprietária de uma imobiliária, e a secretária Isabel Pinto, 28 anos, empregada de escritório.

São todas casadas, as duas primeiras têm filhos, mas já independentes, e maridos "compreensivos", que "apoiam" o sacrifício da vida privada que a tarefa autárquica implica.

Quase trinta anos depois da instauração do Poder Local Democrático, na freguesia de Monte Redondo - a pouco mais de 20 quilómetros de Leiria - eram poucos os que se atreviam a afirmar que a "lista das mulheres" que o CDS-PP apresentava para a Junta vencia as eleições.

Agora, todos sabem que dentro de três anos a imagem da líder da Concelhia de Leiria do CDS-PP vai ser a primeira de uma mulher na galeria de fotografias dos presidentes da Junta de Monte Redondo, bem visível por cima do balcão do atendimento ao público.

Segundo Maria Espadinha, a constituição de uma lista inteiramente feminina não começou por ser propositada.

"Mas, depois de vermos que já tínhamos 15 nomes de mulheres para lista, decidimos que não iríamos buscar alguns homens só para compor", referiu à agência Lusa.

O trabalho apenas com mulheres já tinha sido experimentado por Maria Espadinha e Lúcia Patrício, quase uma década atrás, quando no Grupo Desportivo do Casal Novo a primeira liderou a Assembleia Geral e a segunda a direcção.

"Fizemos daquele um dos clubes melhores em termos de infra-estruturas e tínhamos quatro equipas federadas", envaidece-se Lúcia Patrício.

E, mais de seis meses depois das eleições autárquicas, o que mudou na gestão da freguesia? "Desde logo, somos afáveis", diz Isabel Pinto, secundada pela presidente, que garante estar-se a "humanizar um pouco a Junta de Freguesia".

Mas - e aqui poderá residir grande parte do segredo -, as mulheres da Junta de Monte Redondo não se limitam a ser afáveis. Arregaçam as mangas, conduzem a camioneta da Junta, carregam o carro de mão com terra ou vão para a cantina escolar servir refeições aos alunos.

"A Junta tem um passivo muito grande, à volta de 750 mil euros, e o nosso orçamento anual é de um décimo.

Por isso, temos de poupar, e fazendo nós o serviço não temos que ir chamar tarefeiras", diz Maria Espadinha.

"Não temos barreiras. O trabalho não nos mete medo, temos brio naquilo que fazemos e sabemos pedir", acrescenta, reconhecendo, no entanto, que "nenhuma mulher consegue fazer algumas coisas sem a colaboração dos homens", também na vida autárquica.

Na Junta, o ambiente permanente é descontraído. Ao balcão de atendimento, tanto tratam de questões sociais, como ajudam a preencher as declarações de posse de aves, como recebem as queixas pelo mau estado de um determinado caminho.

A capacidade de persuasão é "a qualidade" que evocam por excelência, avisando que será difícil verem-nas desistir perante as dificuldades.

Apesar de mulheres, de uma coisa não se gabam: de terem as portas mais abertas que os outros presidentes de Junta do concelho só porque a presidente da Câmara é mulher também.

"Somos tratadas como os outros", assegura a presidente da Junta.

Então, e a vereadora do CDS-PP no executivo, Isabel Gonçalves, não dá uma ajudinha? "Na Câmara também trato de problemas com vereadores masculinos e noto que têm a mesma consideração para connosco que para com os outros. O que deve haver entre a Junta e a Câmara é um entendimento franco e aberto, e esse existe", acrescenta.

Quanto aos projectos para a freguesia, engana-se quem pensar que os jardins ou os centros de dia ocupam as principais preocupações de um executivo feminino.

O Centro de Estágios da União de Leira é a grande bandeira que Maria Espadinha quer erguer dentro de pouco mais de três anos, quando as contas do mandato forem prestadas.

Mas, também o alargamento do pólo industrial, a revisão do PDM, a construção de piscinas ou a resolução dos problemas do saneamento ocupam as três mulheres no dia-a- dia, a ponto de quase as fazerem abdicar da vida pessoal.

"Ao fim-de-semana, quase nunca tenho uma refeição com o meu marido e o meu filho", lamenta Maria Espadinha, enquanto Isabel Pinto admite que seria difícil manter o emprego caso não trabalhasse na empresa do marido.

A cada momento, porém, há aspectos que denunciam a sensibilidade feminina no exercício do cargo.

Enquanto Isabel Pinto carrega areia para o carro de mão no pequeno estaleiro da Junta e Lúcia Patrício se prepara para levar a camioneta para a oficina, Maria Espadinha não resiste: "olhe, quando cá chegámos, encontrámos os lavadouros todos degradados. No fim-de- semana acabámos de recuperar um. Está lindo de se visitar".

Também as mulheres da freguesia se sentem mais à vontade quando têm problemas para resolver na Junta.

Quanto aos homens, Espadinha não tem dúvidas.

"Depois de já terem visto trabalho feito por uma mulher, renderam-se".

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