Moradores querem mais segurança, escolas e saúde, mas gostam de "viver na Expo"
Lisboa, 07 Mai (Lusa) - O rio é a jóia do Parque das Nações, mesmo que a maioria dos habitantes não o veja das suas casas. Mas quase todos gostam de "viver na Expo", apesar de reivindicarem mais segurança, escolas e unidades de saúde. Como qualquer português.
Dez anos depois da Exposição Internacional de Lisboa, os 330 hectares que compõem o Parque das Nações estão hoje preenchidos por milhares de fogos - 8.244 estão já licenciados - e são habitados por entre 20 a 22 mil pessoas. No espaço existem 920 espaços comerciais.
O crescimento populacional foi rápido. "Viver na Expo" passou a ser uma verdadeira moda, facto a que os agentes imobiliários não têm sido alheios, sendo esta uma das zonas mais caras de Lisboa.
De acordo com a Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), o preço médio do metro quadrado no Parque das Nações varia entre os 2.058 euros (tipologia T5) e os 2.572 euros (tipologia T0).
A mesma associação reconhece que, antes da Expo-98, este era um território "pouco apetecível do ponto de vista imobiliário".
"Era uma zona industrial de fraca cotação residencial", mas a realização da Expo-98 "potenciou a reconversão urbana daquela zona ribeirinha".
Actualmente, para manter o Parque das Nações a funcionar, a Parque Expo recorre ao serviço de cerca de 15 empresas. São elas que asseguram serviços como a limpeza urbana, a higiene sanitária, a manutenção dos pavimentos, sistemas de drenagem, espaços verdes, iluminação pública, o sistema semafórico, o mobiliário urbano, o abastecimento de água, controlo de pragas, vigilância, entre outros.
Alguns aspectos inovadores do Parque das Nações - como as infra-estruturas para a racionalização do consumo energético dos edifícios ou o sistema de recolha automática de resíduos sólidos - merecem as melhores críticas dos moradores.
De acordo com a Parque Expo, empresa que gere o Parque das Nações, os moradores avaliam ainda positivamente "a manutenção dos espaços públicos e demais equipamentos urbanos que se encontram a eles associados".
A empresa reconhece a existência de algumas críticas, nomeadamente a reivindicação de um centro de saúde, de mais e melhor equipamento escolar e novos transportes públicos, principalmente na área norte do parque.
Segundo a Associação dos Moradores e Comerciantes do Parque das Nações (AMCPN), "dos quatro equipamentos escolares públicos prometidos, apenas existe a Escola Vasco da Gama, construída pela Parque Expo e inaugurada em 1999, para +vender+ o projecto urbano".
"A Escola Vasco da Gama, então apresentada como a melhor do país e uma das melhores do mundo, encontra-se com a sua lotação duplicada e, em grande parte como consequência dessa situação, desceu substancialmente, no ranking da qualidade", refere a associação.
O presidente da Parque Expo, Rolando Borges Martins, disse à Lusa que tem conhecimento destas queixas e, sobre a reivindicação de mais uma escola, revela que já há um lote de terreno, cabendo agora à Direcção Regional de Educação de Lisboa (DREL) a sua construção.
Também o novo centro de saúde já tem um terreno adstrito, estando a sua construção dependente da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, adiantou.
Actualmente, os moradores do Parque das Nações são atendidos no Centro de Saúde dos Olivais.
Na zona sul, os residentes defendem um reforço do policiamento, a regulação do trânsito e a melhoria de transporte interno.
O actual presidente da AMCPN, José Manuel Moreno, foi o primeiro a habitar o Parque das Nações, a 30 de Abril de 1998, menos de um mês antes da Exposição Internacional de Lisboa.
Dez anos depois do projecto urbanístico do Parque das Nações, José Manuel Moreno reconhece que "a desilusão começa a instalar-se" e adianta que "muitos dos que acreditaram no que ouviram dos responsáveis pelo projecto, dos governantes e dos autarcas, se consideram hoje enganados".
A desilusão terá levado mesmo alguns moradores a venderem as suas casas, pois contavam com infra-estruturas, como uma rede de transportes para se deslocarem, ou escolas para os filhos estudarem.
As queixas estendem-se ainda ao estado da Marina, que a associação classifica de "um lodo ma cheiroso e viveiro de mosquitos".
Os moradores reclamam ainda três promessas por cumprir: um centro equestre, um campo de golfe e um parque temático sobre os Oceanos (tema da Expo-98).
Em relação aos equipamentos desportivos públicos, José Manuel Moreno afirma que, dos vários que estavam previstos, apenas existe um campo de futebol, construído pela Parque Expo, antes da Expo`98.
Mas os moradores não podem utilizar este campo porque "a Parque Expo cedeu, gratuitamente, a sua utilização ao Clube Desportivo de Olivais e Moscavide".
"Quando foi entregue pela Parque Expo ao Clube Desportivo de Olivais e Moscavide, este era um campo magnífico, mas hoje está transformado num dos espaços mais degradados do Parque das Nações, frequentado por tóxico-dependentes, que por ali pernoitam", segundo a associação.
As críticas estendem-se ainda à Gare do Oriente, que a AMCPN classifica de um "mero apeadeiro de caminho de ferro".
"Apesar de ter sido concebida na perspectiva de ser a Grande Estação Intermodal de Lisboa (GIL), reunindo todas as condições para o efeito, nomeadamente a possibilidade de ser realizado "check-in" para passageiros do Aeroporto de Lisboa, é um mero apeadeiro de luxo".
Ainda na área dos transportes, os moradores consideram que a oferta nas zonas residenciais melhorou, mas "continua a ser insuficiente".
"A própria circulação automóvel deveria fazer-se perpendicularmente ao rio, para evitar que a Avenida Dom João II e a Alameda dos Oceanos se tivessem transformado em vias distribuidoras de tráfego de mero atravessamento, na entrada e saída de Lisboa, em alternativa à Avenida Infante Dom Henrique".
Sobre a segurança, os moradores reclamam mais uma esquadra da PSP, existindo apenas uma na zona norte do Parque das Nações.
Reivindicações que não retiram totalmente o prazer a quem mora no Parque das Nações. José Manuel Moreno não hesita em considerar que escolher morar "na Expo" foi uma boa aposta.
A mais valia desta zona é o rio, embora este seja uma autêntica miragem para muitas das muitas habitações que foram construídas naquela zona.
Junto ao rio, as casas são mais caras, diminuindo o seu custo à medida que se afastam dele. Moradores e visitantes consideram que a construção é excessiva, embora a Parque Expo garanta que tudo estava previsto.
A diferença entre o Parque das Nações de hoje e quando estava a decorrer a Expo-98 é total. E maior se comparada com aquela zona antes da exposição.
Poucos ou nenhuns são os sinais do que existia antes do trabalho de requalificação daquela zona, que era ocupada por companhias petrolíferas, e que implicou a descontaminação dos solos e das águas subterrâneas, a selagem do Aterro Sanitário de Beirolas e o saneamento, despoluição e regularização da parte terminal do rio Trancão.