mulher de 68 anos é coveira de serviço há cinco décadas
Monção, 31 Out (Lusa) - Uma mulher com 68 anos é há cinco décadas a coveira de serviço em Merufe, Monção, uma "arte" que pode estar em vias de extinção, já que, afirma, "todos fogem dela como o diabo foge da cruz".
"As pessoas parece que têm medo dos mortos, não sei. Mesmo os homens têm a mania que são muito corajosos mas pelam-se de medo quando têm que abrir uma cova ou pegar numa ossada. Pois olhe, eu tenho medo é dos vivos, não dos mortos", sentencia a coveira de Merufe.
Maria Cerqueira, localmente conhecida por "Maria coveira", já perdeu a conta às pessoas que enterrou, desde que, há 55 anos, começou a dar os primeiros passos na actividade, como ajudante do pai.
"Depois do meu pai morrer, fiquei eu sozinha com o serviço de coveira. Os meus filhos ainda me ajudavam um bocado, mas o meu marido, das poucas vezes que me acompanhava, ficava sempre em cima, nunca entrava na cova. Fazia-lhe impressão estar ali dentro, não sei porquê", acrescenta.
Autêntica mulher de armas, a "Maria coveira" pega na sachola, na pá e numa escada e em meio-dia abre uma cova com a sua altura.
Confessa que já apanhou alguns sustos, não por causa das ossadas que encontrou, mas sim pelos deslizamentos de terras, que por várias vezes a cobriram até à cintura.
Hoje, pode levar até 110 euros pela abertura de uma cova. "As pessoas acham muito, mas, se é assim tão bom, por que é que são cada vez menos os que pegam nisto?", questiona.
No cemitério, Maria Cerqueira "está por tudo": limpa o recinto, abre covas, desenterra e traslada sepulturas, levanta ossadas. E tem sempre solução para os problemas mais intrincados que se lhe deparam.
Numa ocasião, teve que ir desenterrar uma urna a uma freguesia vizinha, já que o coveiro que lá havia "não tinha coragem".
"Eu tenho coragem para tudo, os mortos nunca fizeram mal a ninguém. Os vivos sim, os vivos às vezes são levados do diabo", repete.
A "Maria coveira" diz que não quer mal a ninguém mas não esconde que, se tiver oportunidade, enterrará com um cuidado especial umas certas pessoas que ainda há pouco tempo foram ao seu quintal e lhe roubaram as espigas de milho e um toldo de plástico "com 20 metros" que as cobria.
"A algumas pessoas, até as enterrava vivas, se pudesse", atira.
Em relatos meio a sério, meio a brincar, Maria Cerqueira garante que continuará a enterrar até que as forças lhe faltem.
"Enquanto for eu a enterrar os outros, é bom sinal. O pior vai ser quando forem outros a enterrarem-me a mim", diz.
VCP.