Na colocação de professores "houve incompetência e negligência" diz David Justino
O ex-ministro da Educação David Justino quebrou hoje o silêncio sobre os problemas relacionados com a colocação de professores considerando que houve incompetência e negligência por parte do Ministério.
Numa entrevista publicada no semanário Expresso, David Justino considera que houve "um bocadinho de tudo": "Negligencia, desorganização e incompetência" na colocação de professores.
Considera ainda que "houve uma falha de coordenação entre quem sabe de concursos e quem tinha de fazer programação".
O ex-titular da pasta da Educação confessa que "não gostaria de estar na pela da ministra" e reconhece ter recebido "informações incorrectas" dos seus serviços sobre os problemas do sistema informático, após o "apagão" de Setembro de 2003, quando os professores ficaram impedidos de aceder ao site do Ministério para consultar as listas de colocação.
"Prestaram-me informações incorrectas sobre o tempo e a capacidade de suportar um número inusitado de acessos ao sistema informático. Manifestei então ao secretário de Estado as minhas reservas sobre a continuidade desses dirigentes e ele assumiu a sua defesa", considera.
Diz ainda que após o "apagão" de Setembro de 2003 a confiança que tinha na equipa do Ministério da Educação "foi abalada", que avisou o então primeiro-ministro, Durão Barroso, e que defendeu mexidas na equipa.
David Justino conta que quando saiu do Ministério da Educação informou a actual ministra sobre as suas dúvidas quanto aos serviços.
"Passei-lhe um memorando e coloquei as minhas dúvidas quanto aos serviços. Fiz uma lista completa dos dirigentes do Ministério da Educação, falando dos que mereciam a minha confiança e tinham demonstrado competência e dos que não", explica.
O ex-ministro diz ainda que informou a actual titular da pasta que, terminado o processo de concurso, a equipa dos Recursos Humanos não deveria ser reconduzida.
Contudo, David Justino considera que não estava à espera do caos no processo de colocação de professores porque, quando saiu do Ministério da Educação, "tinha indicação de que as coisas estavam em condições de sair bem".
"Fiquei surpreendido e, sobretudo, não gostaria de estar na pele da ministra. Já passei por isso e sei o que se sofre", afirma.
O ex-ministro critica ainda a recusa pelo PSD de uma comissão de inquérito para investigar o problema.
"Devo dizer que não me sinto nada à vontade [com a recusa].
Porque disse que estava disponível para falar em sede própria e depois descubro que a sede própria não existe", afirma.
Numa entrevista à Rádio Renascença e ao Público que será publicada na íntegra na edição de domingo deste jornal, David Justino diz que o concurso de professores foi sempre da responsabilidade do ex- secretário de estado da Administração Educativa Abílio Morgado e que, mesmo depois dos problemas começarem a aparecer, não podia chamar a si a responsabilidade na condução do processo.
"Não podia chamar a mim uma competência que eu tinha delegado no secretário de Estado. Fazer isso era dizer +vá-se embora+. Só o primeiro-ministro [Durão Barroso] é que o podia fazer Quem nomeia o ministro e o secretário de Estado é o primeiro-ministro", afirma David Justino, citado hoje pelo Público.
Sobre alegadas ligações entre Compta, a empresa que ganhou o concurso público para a concessão de um programa informático de colocação de professores, o PSD e ele próprio, David Justino garante que não tem participações na firma, que nem sequer acompanhou o processo de adjudicação e que só posteriormente veio a saber quem tinha ficado de fazer a programação. Diz mesmo que desconhece o teor do contrato celebrado entre as duas partes.