Novas gerações "ameaçam" o não tradicional afirma líder cigano

Novas gerações "ameaçam" o não tradicional afirma líder cigano

O líder da principal associação cigana portuguesa, Vítor Marques, afirmou hoje que o fenómeno de aculturação tornou as novas gerações da etnia mais permissíveis à interrupção voluntária de gravidez (IVG).

Agência LUSA /

"A nossa matriz cultural não é muito favorável ao aborto. Mas ela também não pode ser imutável e já há muitos ciganos que o aceitam", disse à agência Lusa o presidente da União Romani Portuguesa, assegurando que ele próprio é adepto do sim.

Numa comunidade marcada por famílias numerosas, as crianças "não são maltratadas, não são fruto de violações ou de amores inexistentes", o que, na perspectiva do dirigente étnico, desencoraja o recurso ao aborto e mesmo a contracepção.

Entre os ciganos, as crianças "são a alegria da comunidade" e muitos casais a braços com problemas de infertilidade "acabam por recorrer à adopção", frisou.

Relativamente pacífica é a adesão à IVG em casos de malformação do feto, garantiu o responsável.

Segundo Vítor Marques, a adesão das novas gerações ciganas à contracepção e até à aceitação da IVG prende-se com as dificuldades financeiras, que desencorajam a tradição das famílias numerosas.

Nas suas declarações à agência Lusa, Vítor Marques, defendeu também a adopção de legislação que obrigue os partidos a incluírem representantes das minorias étnicas nas suas listas de candidatura a cargos políticos.

O presidente da União Romani Portuguesa explicou que pretende um sistema similar ao das quotas para mulheres nos órgãos de poder.

Justificando a proposta, Vítor Marques disse que "já há muitos ciganos inscritos em partidos, mas que nunca são chamados para as candidaturas".

O único cigano eleito para um cargo político é o presidente da Câmara de Torres Vedras, o socialista Carlos Miguel, que, de acordo com Vítor Marques, "teve de vencer muitas residências" para avançar com a candidatura.

Referindo-se ao seu caso particular, o dirigente da União Romani Portuguesa disse que um partido, que não especificou, "tudo fez" para que abandonasse cargos autárquicos que já desempenhou, "depois de saber quem era".

Nas suas declarações à Lusa, o dirigente étnico preconizou igualmente que o Estado fixe uma quota para minorias nos concursos para admissões de funcionários públicos.

"Não basta apostar na formação profissional de ciganos para depois os obrigar a voltar ao comércio de feira, por falta de alternativas", disse.

A maioria dos ciganos sobrevive da venda em feiras, num negócio ameaçado pela concorrência do comércio chinês e pela proliferação de hipermercados, e os poucos que trabalham para uma entidade patronal só o conseguem em actividades sazonais (agricultura) ou em serviços de segurança.

Os ciganos em Portugal são 80.000 a 90.000, 25 mil dos quais radicados no Norte do país, representados por uma vintena de associações, mas o seu envolvimento em associações não étnicas "é muito baixo", reconhece o presidente da União Romani Portuguesa.

Vítor Marques fez, por isso, um apelo às associações não étnicas para que alterem a sua organização interna, de modo a tornarem-se mais atractivas para as minorias.

"Mesmo associações que lutam contra o racismo e a xenobofia não atraem as minorias, porque, embora trabalhem para elas, não trabalham com elas, faltando a interacção", criticou.

Ao nível da educação, o dirigente saudou a integração da generalidade das crianças ciganas no sistema de ensino, estimulada, em parte, pelas regras associadas à atribuição do Rendimento Social de Inserção, que cessa caso os filhos dos beneficiários deixem o sistema escolar.

Numa comunidade onde há apenas uma dezena de licenciados e uma estudante no ensino superior, os níveis de escolaridade da comunidade são muito baixos, oscilando entre o analfabetismo e a frequência do ensino básico, assinalou.

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