Políticas do Governo marcadas por "défice de informação", "obsessão com a imigração" e "pouca redução da pobreza"

Políticas do Governo marcadas por "défice de informação", "obsessão com a imigração" e "pouca redução da pobreza"

O relatório, feito como base em 16 ensaios realizados por investigadores do ISCTE, conclui que faltam bases sólidas às políticas que os governos da AD lançaram entre 2024 e 2026. "Os resultados estão aquém dos definidos pelo próprio Governo", lê-se no documento.

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
José Pinto Dias - RTP

Vários investigadores do ISCTE analisaram as políticas públicas dos governos de Montenegro nos últimos dois anos e concluíram, por exemplo, que o aumento do Complemento Solidário para Idosos (CSI) subiu de forma relevante a despesa social para 1.280 milhões de euros por ano, “mas não diminuiu a pobreza entre os mais velhos.”

É uma das conclusões que pode ser lida no “O Estado da Nação e as Políticas 2026: Governar com um Parlamento Fragmentado”, promovido pelo ISCTE, com base em 16 ensaios escritos por investigadores daquela instituição.

Amílcar Moreira e Armindo Reis assinam o ensaio “Eficácia e eficiência no combate à pobreza” e concluem que se Luís Montenegro equiparasse o CSI ao limiar de pobreza, o Estado gastaria 953 milhões, ou seja, menos 327 milhões do que gastou, no entanto “teria tido resultados mais eficazes na prevalência e na intensidade da pobreza entre os idosos.”
CCDR e a “captura política”
O documento dá a conhecer, também, a análise de investigadores sobre as alterações que foram feitas às Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regiona (CCDR).

David Teles Pereira faz uma reflexão sobre as consequências destes organismos passarem a ter cinco vice-presidentes, nomeados diretamente pelo Governo.

Tais mudanças provocaram “mecanismos de ingerência direta e de controlo político por parte da tutela governamental, quer sobre a composição orgânica dos conselhos diretivos, quer sobre a condução política destes órgãos”. Tal decisão contribui para “uma (re)centralização administrativa, correspondente a uma contra-reforma com contornos de captura política.”, escreve David Teles Pereira.
Governo com “obsessão pela imigração”
Já no capítulo dedicado à demografia, Cláudia Pereira, José Leitão e Rui Pena Pires concluíram que as alterações à lei não têm impactos nas entradas e saídas de imigrantes a Portugal. Correspondem a uma “obsessão com a imigração” e não à “construção de soluções para o problema da irregularidade migratória”.

Os investigadores alertam que os maiores aumentos da imigração não aconteceram entre 2021 e 2025, nesta altura Portugal recebeu mais de 700 mil estrangeiros, mas sim nas décadas de 80 e 90, quando o número de imigrantes quase que duplicou.2% do PIB para a defesa à custa de outras áreas governativas
O relatório reserva também um capítulo ao investimento que Portugal fez na área da defesa. 

Pedro Seabra conclui que a” verba reportada por Portugal à NATO equivalente a 2% do PIB, ou seja, 6.118 milhões de euros, apenas 4.114 milhões (67,2%) foram executados pelo Ministério da Defesa Nacional em despesa tradicionalmente associada às Forças Armadas. Os restantes 2.004 milhões (32,8%) foram executados por outras áreas governativas.”

O documento, tornado público no mesmo dia em que o Parlamento discute o Estado da Nação, também revela as consequências da recém criada Agência para a Investigação e Inovação (AI2), anterior Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Maria de Lurdes Rodrigues e Jorge Costa fazem uma análise crítica e concluem que a “rutura radical” seguida nos últimos 30 anos pode provocar “paralisia administrativa” e “asfixia burocrática tendo como resultado um retrocesso severo na produção científica.”
“Défice de informação” nas políticas adotadas
Na introdução do relatório do Estado da Nação do Iscte de 2026, o presidente do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS-Iscte), Pedro Adão e Silva, escreve que “a variável contextual mais relevante para compreender o sentido das decisões governativas é, no momento atual, a ausência de uma maioria política”.

Adão e Silva defende que faltam bases sólidas às políticas cujos resultados estão aquém dos definidos pelo próprio Governo. “O conjunto de políticas discutidas neste relatório caracteriza‑se por assentar em défices de informação – ou, pelo menos, de informação pública partilhada, e por não partir de análises e avaliações sustentadas do impacto das decisões anteriores”, afirma Pedro Adão e Silva.
Tópicos
PUB