Portugal tem falhado rastreio do cancro do colo do útero
A Associação para o Planeamento da Família (APF) considerou hoje que Portugal tem estado a falhar no rastreio ao cancro do colo do útero, com excepção da zona Centro do país, que tem conseguido bons resultados.
Maria João Trindade, responsável da APF, lembrou que todas as mulheres portuguesas podem exigir fazer o rastreio, que é totalmente gratuito: "Só não faz quem não quer".
Lembrando que o rastreio se faz com um simples exame ginecológico, a médica reconheceu que, à excepção da zona Centro, outras zonas do país estão a falhar nesta forma de prevenção do cancro do colo do útero, doença que pode ser provocada pelo vírus do papiloma humano (HPV).
Maria João Trindade atribuiu estas falhas ao "mau funcionamento dos serviços", nomeadamente porque há falta de recursos humanos na área dos cuidados primários de saúde.
Como bom exemplo do funcionamento dos serviços na zona Centro, nomeou o facto de actualmente ser muito raro surgir no IPO (Instituto Português de Oncologia) de Coimbra um carcinoma invasivo.
O rastreio do cancro do colo do útero, aconselhado a todas as mulheres entre os 25 e os 64 anos, pode ser feito no centro de saúde, mas é um exame (citologia) que "sai muito caro ao Serviço Nacional de Saúde".
"Mas, pela parte da comunidade médica, não é por este motivo que não se faz o rastreio", considerou a responsável da APF.
Apesar de apresentar custos elevados para o Serviço Nacional de Saúde, o tipo de análise de rastreio ao cancro do colo do útero em Portugal é, ainda assim, mais barato do que outra técnica mais avançada já em utilização noutros países - o teste do HPV.
A principal diferença é que a citologia usada em Portugal tem uma "taxa de sensibilidade mais baixa" do que o teste do HPV, como precisou Daniela Pinto, investigadora do IPO do Porto que está também em Monte Carlo a participar no Eurogin - congresso europeu sobre cancro do colo do útero.
Em relação à vacinação, Maria João Trindade é uma defensora da inclusão da vacina no Programa Nacional de Vacinação, mas admite que o país não tenha capacidade financeira para o fazer.
"Uma taxa de 37 por cento de comparticipação da vacina (que no total das três tomas custa 480 euros) já seria razoável", disse.
Embora concorde plenamente com a vacinação, teme que a protecção dada pela vacina faça com que as pessoas se esqueçam de fazer o rastreio, que deve ser realizado anualmente nos primeiros dois anos e, caso não sejam detectados problemas, pode passar a ser feito com intervalos de três anos.
"E com a vacina os rastreios podem ser alargados para um intervalo de cinco anos, o que também poupa dinheiro ao Serviço Nacional de Saúde", argumentou.
O vírus do papiloma humano, que pode desencadear cancro do colo do útero, infecta cerca de 70 por cento das pessoas em qualquer altura da vida, mas a maior parte das infecções acaba por regredir espontaneamente.
Associações de doentes e organizações não governamentais que participam no Eurogin, que hoje começou em Monte Carlo, estão a sublinhar a ideia de que a doença pode ser eliminada, havendo "conhecimentos e ferramentas disponíveis para isso".
"Mas ainda subsistem muitos problemas: muitas mulheres desconhecem o que necessitam para se protegerem contra a doença e muitas não têm acesso a programas de prevenção", concluiu Magdalena Grce, da Associação Europeia do Cancro do Colo do Útero.
Para esta responsável, o caminho passa também por levar os políticos a perceber que "têm uma obrigação ética para implementar efectivos programas de prevenção".
Segundo dados da Associação Europeia de Cancro do Colo do Útero, só na Europa são detectados anualmente 50 mil novos casos de cancro do colo do útero e 25 mil pessoas por ano morrem da doença.
Em Portugal, este cancro, que aniquila a vida sexual e familiar das sobreviventes, mata em média uma mulher por dia.