Rabelos perpetuados em passeios turísticos

Rabelos perpetuados em passeios turísticos

"Toninho da praia", 71 anos de vida e 30 de navegação em barcos rabelos pelas águas nada mansas do Douro, regressou agora ao comando do leme para transportar turistas ao longo do rio.

Agência LUSA /

Muitos anos depois do barco rabelo ter praticamente deixado de navegar no Douro, o marinheiro António Oliveira, natural do Pinhão, Alijó, regressou ao passado que nunca esqueceu.

Durante 30 anos, o "Toninho da praia", como António Oliveira é conhecido no Pinhão, dirigiu um rabelo de mercadorias, que transportava areia recolhida no leito do rio que vendia a 15 escudos o metro cúbico.

Estes rabelos de mercadorias eram de dimensões mais pequenas, comparativamente com as embarcações especialmente concebidas para o transporte de pipas de vinho do Porto.

Porque o Douro era um rio "de mau navegar", foi necessário criar um barco com características adequadas à "fúria" do rio e ao transporte de vinho do Porto, aparecendo então o rabelo, embarcação com características que lhe permitiam navegar com mais facilidade e menos risco, por entre as águas rápidas e violentas do rio.

Os "duros" anos ao leme dos rabelos levam António Oliveira a afirmar que conhece o Douro "como poucos".

O marinheiro recorda que este era um "rio muito difícil de domar", devido à existência de grandes fragas ao longo do seu leito que, por diversas vezes, causaram naufrágios.

Segundo disse, cada rabelo tinha que levar dois tripulantes, já que a viagem rio acima tinha que ser puxada por cordas a partir da margem do Douro.

"Para baixo éramos trazidos pela corrente", disse.

Tal como o "Toninho da Praia", também Manuel Alegria, 51 anos, começou a trabalhar num rabelo de mercadorias.

"Era uma vida muito difícil. Subíamos e descíamos o rio diversas vezes para carregar e descarregar a areia, um trabalho que era feito apenas com a força das nossas mãos", frisou.

Em 1964, iniciou-se a construção da Barragem do Carrapatelo (1964- 1971), a primeira do Douro português, e por causa dela quase desapareceram os rabelos.

"Vendi o barco porque não tinha dinheiro para comprar um batelão e fui trabalhar para uma fábrica", disse "Toninho da praia".

Actualmente o rio é navegável em toda a sua extensão, desde o Porto a Barca d`Alva, quer por navios de carga quer por embarcações turísticas.

Apesar de já não serem utilizados para transportar o vinho, os rabelos transformaram-se em pólos de atracção turística no Douro e muitas empresas organizam cruzeiros de curta duração nestas embarcações, a maior parte das quais foram adaptadas e mecanizadas.

Hoje, António Oliveira dirige uma embarcação turística que, a partir do Pinhão e numa viagem à velocidade de 20 nós, leva os turistas até ao Tua ou à barragem de Bagaúste.

"É uma forma de me manter perto do rio", salientou.

Como recordação das embarcações que cruzaram o rio durante anos a fio, a reprodução em miniaturas de barcos rabelos e dos pipos de vinho do Porto tornou-se numa das formas de artesanato mais procuradas pelos turistas que visitam a região duriense.

Fernando Ribeiro, 51 anos, residente no Peso da Régua, passa os seus tempos livres a construir reproduções daquelas embarcações.

O artesão começou a dedicar-se à arte, há cerca de cinco anos, mas hoje todos os seus tempos livres são passados a montar, peça por peça, as tábuas de pinho, os pipos e as velas que dão forma ao mais tradicional dos barcos do Douro.

"Nasci junto ao rio Douro e queria um barco rabelo para mim, mas como achei que eram muito caros decidi tentar fazer um", confessou.

Fernando Ribeiro quer que as reproduções sejam o "mais perfeitas possível" e por isso utiliza o material original, nomeadamente a madeira de pinho, tendo já vendido embarcações miniatura para a Suiça, Bélgica, Áustria ou França.

Normalmente os seus barcos têm cerca de 70 centímetros de comprimento no casco e custam 120 euros.

Aos rabelos associa ainda as juntas de bois, que puxavam as embarcações rio acima quando o vento ou a corrente não eram suficientes, as carroças e os pipos de vinho.

António Mesquita, com 53 anos, dedica-se à tanoaria, arte que aprendeu com o seu pai aos 10 anos de idade.

O artesão também faz pipos em miniatura, mas continua a produzir vasilhames para o vinho pois, segundo diz, a "qualidade dos vinhos é superior quando estes amadurecem nas tradicionais pipas de carvalho".

"Quando começaram a surgir as cubas de inox os pipos deixaram de ter tanta procura, mas hoje ainda há muitas quintas e produtores a encomendar este tipo de vasilhames", acrescenta.

Os trabalhos são normalmente feitos por encomenda, mas actualmente o artesão dedica a maior parte do seu tempo a dar formação sobre tanoaria no Centro de Formação Profissional de Vila Real, numa iniciativa que vê como uma forma de "perpetuar a arte".

É que, segundo referiu, são cada vez menos as pessoas que se dedicam à tanoaria.


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