Rui Rio quer voltar a mudar estátua de D. António Ferreira Gomes
O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, assumiu hoje, na inauguração da nova localização da estátua do ex-bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, o seu "empenho pessoal" na mudança da escultura para um terceiro local.
"Em minha opinião pessoal, este não é ainda o lugar que merece a belíssima peça de arte e a figura que representa", afirmou o autarca, garantindo que se empenhará na análise da possibilidade de transferência da estátua do ex-bispo do Porto para a "principal sala de visitas da cidade", a Avenida dos Aliados.
A estátua de D. António Ferreira Gomes tinha sido colocada pela sociedade promotora do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura no topo da Rua da Assunção, tendo agora sido transferida para o cimo da Rua S. Filipe Nery, um local de mais visibilidade.
Esta mudança foi pedida insistentemente pela Fundação Engenheiro António de Almeida à Câmara do Porto, que nunca concretizou o pedido, pelo que a própria fundação assumiu as despesas da deslocação.
A inauguração desta segunda localização foi marcada simbolicamente para hoje, data em que D. António completaria 99 anos, como forma de assinalar o início das comemorações do centenário do nascimento do bispo que se opôs a Salazar, o que lhe valeu um exílio de 10 anos em Itália, Espanha, França e Alemanha.
"Nada melhor para dar início a estas comemorações do que emendar um erro, transferindo a estátua de D. António para um local mais digno e mais visível", referiu Rui Rio.
O actual bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, elogiou a actual localização da estátua, por se encontrar "entre a Igreja e a cultura", representadas pela Torre dos Clérigos e pelo antigo edifício da Reitoria da Universidade do Porto.
D. Armindo classificou o exílio do ex-bispo como "umas férias de 10 anos que constituíram uma autêntica fraude para D. António", impedido de reentrar em Portugal pela "influência que estava a ter na sociedade".
D. António Gomes Ferreira nasceu a 10 de Maio de 1906, em São Martinho de Milhundos, Penafiel, tendo-se doutorado em Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma, após o que se tornou professor no Seminário do Porto.
Foi nomeado bispo de Portalegre e depois bispo do Porto, em 1949 e 1952, respectivamente.
A 13 de Agosto de 1958, D. António escreveu uma carta a Salazar, na qual, mantendo-se fiel à doutrina da Igreja, exprimia a sua preocupação acerca de alguns aspectos negativos do regime então vigente, principalmente por razões sociais.
Por pressão de Salazar, o bispo viu-se constrangido ao exílio, em 1959, só regressando a Portugal 10 anos depois, altura em que retomou as suas funções clericais, das quais resignou em 1982, ao atingir o limite de idade, vindo a falecer em 1989.
As comemorações hoje iniciadas vão prolongar-se por um ano, numa organização conjunta da Diocese do Porto e Fundação Spes (criada por testamento de D. António), a que se associaram a Fundação Engenheiro António de Almeida e o Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes.
Hoje à noite, a companhia Seiva Trupe promove no Teatro do Campo Alegre um "Jornal Falado", moderado pelo bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, a que se segue a apresentação do espectáculo "António, Bispo do Porto", de Margarida Fonseca Santos.
A publicação de uma fotobiografia e um congresso sobre a vida e obra do bispo são algumas das iniciativas previstas para comemorar o centenário.
Fonte da Diocese do Porto disse à Lusa que o centenário ficará também marcado pela publicação, em francês e italiano, da obra de D. António "Cartas ao Papa", considerada como uma espécie de testamento espiritual.