Seca em Espanha trava caudal do Guadiana e da Albufeira do Alqueva

Seca em Espanha trava caudal do Guadiana e da Albufeira do Alqueva

As autoridades espanholas estão a travar o caudal do rio Guadiana e a barragem do Alqueva já esteve 19 dias sem caudal afluente e outros 15 com fluxo residual, avança hoje o Diário de Notícias.

Agência LUSA /
Barragem do Alqueva DR

De acordo com o jornal, que cita dados do Instituto da Água, ainda não validados, desde Maio que tem havido cortes de água, sendo que houve 15 dias em que o caudal foi inferior a 0,5 metros cúbicos por segundo.

O ministério do Ambiente espanhol, que justifica a situação devido ao período de seca que atravessa, admite que secou o Guadiana, em Badajoz, durante a passada segunda-feira.

O Diário de Notícias recorda que os cortes totais de caudal no Guadiana contrariam o disposto no convénio dos rios internacionais, assinado entre Portugal e Espanha em Novembro de 2000.

Neste acordo, a "Espanha comprometia-se a deixar passar em Badajoz pelo menos dois metros cúbicos (dois mil litros) por segundo, apenas estando descomprometido em situações muito específicas de seca", escreve o Diário de Notícias.

O jornal recorda que esse regime de excepção tem de cumprir determinadas condicionantes meteorológicas que Espanha ainda não invocou.

De acordo com os dados citados pelo DN, a albufeira do Alqueva apresenta os níveis mais baixos dos últimos dois anos, apresentando quarta-feira 61,6 por cento, o valor mais baixo registado naquele período.

Espanha "não fechou a torneira"

O presidente do Instituto da Água negou hoje que as autoridades espanholas estejam a travar o caudal do Rio Guadiana, impedido a entrada de água na barragem do Alqueva, garantindo que "a torneira nunca esteve fechada".

"Não está a haver nenhum incumprimento por parte de Espanha do convénio luso-espanhol. Não há caudais zero. O valor que a convenção prevê passar no Guadiana é de dois metros cúbicos por segundo e o valor mínimo que passou foi de três metros cúbicos por segundo", afirmou Orlando Borges à TSF.

O responsável comentava uma notícia avançada pelo Diário de Notícias, segundo a qual as autoridades espanholas estão a travar o caudal do rio Guadiana.

Em declarações à TSF, o presidente do Instituto da Água garantiu que "em momento algum a torneira esteve fechada e todos os dias houve o cumprimento do convénio, inclusive em valores superiores aos estipulados".

Orlando Borges confirmou ainda que está armazenado no Alqueva pouco mais de 60 por cento de água, mas garantiu que se trata de uma situação normal.

"Não há nada de anormal. Trata-se de um valor normal que a albufeira tem nesta altura e está a fazer uma exploração normal", afirmou.

Autoridades espanholas negam violação dos acordos com Portugal

O caudal do Rio Guadiana esteve nos últimos meses sempre acima dos valores mínimos fixados nos acordos com Portugal, garantiu à Lusa o Director Técnico da Confederação Hidrológica do Guadiana, em Badajoz, contrariando uma notícia hoje divulgada.

Segundo o Diário de Notícias (DN), as autoridades espanholas estariam a travar o caudal do rio Guadiana, impedindo a entrada de água na barragem do Alqueva, mas José Martinez desmentiu que, em qualquer altura, tenha sido violada a Convenção Luso-Espanhola que prevê uma passagem mínima de dois metros cúbicos de água por segundo (m3/s) para Portugal.

José Martinez acrescentou que tradicionalmente o caudal do Guadiana "chega a estar mais cheio no Verão do que no Inverno".

O presidente do Instituto da Água, Orlando Borges, esclareceu, por sua vez, que a monitorização da passagem de água é feita na estação fronteiriça do Monte da Vinha.

"A Convenção determina que os caudais que vêm de Espanha sejam avaliados nesta estação que faz a monitorização em tempo real. São estes os dados que interessam", disse à Lusa Orlando Borges, acrescentando que o valor mínimo registado, em termos do caudal médio diário, foi de 3,8 metros cúbicos por segundo.

A convenção luso-espanhola sobre recursos regula as condições de gestão e partilha dos rios transfronteirços (Douro, Tejo, Guadiana, Minho e Lima) e define o respectivo regime de caudais.

Os relatórios semanais dos caudais do Guadiana disponibilizados pela entidade espanhola indicam que entre a primeira semana de Julho e o passado dia 28 de Agosto, o valor mínimo dos caudais foi de 16,82 m3/s.

Assim, na semana que terminou a 17 de Julho o caudal foi de 22,69 m3/s, na semana que terminou a 24 Julho foi de 16,82 m3/s e na semana que terminou a 31 de Julho foi de 26,50 m3/s.

Nas duas primeiras semanas de Agosto o nível do caudal foi de 26,50 m3/s, na semana de 15 a 21 de Agosto fixou-se em 64,63 m3/s e na semana que terminou a 28 de Agosto ficou em 19,75 m3/s.

Os dados divulgados à Lusa contradizem alguns dos boletins hidrológicos do Ministério do Ambiente espanhol que apresentam valores nulos ou não indicados ao longo das últimas semanas.

O responsável da Confederação Hidrográfica de Badajoz atribui esses dados a "erros" ou "falta de actualização de dados", causada porventura "pelo período de férias em Agosto" ou outro problema.

"Temos o registo diário dos valores e nunca foi violado o acordo com Portugal", frisou.

A notícia do DN relacionava ainda os "cortes de caudal no Guadiana" com a perda de água na barragem do Alqueva.

De acordo com a Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva (EDIA), a albufeira perdeu água devido à seca e à necessidade de ser mantido o caudal ecológico do Rio Guadiana, além dos consumos agrícolas e produção de energia eléctrica.

A albufeira desceu quase cinco metros desde Junho de 2004, quando atingiu o pico máximo, passando de 80 por cento da sua capacidade total para 61,6 por cento.

Com 2.554 milhões de metros cúbicos de água armazenada, a albufeira situa-se actualmente na cota 143,84 (menos 4,66 metros que a cota máxima atingida há dois anos), o que corresponde a uma perda de 766 hectómetros cúbicos de água.

O máximo que Alqueva armazenou desde que começou a encher, em Fevereiro de 2002, ocorreu em Junho de 2004 quando atingiu a cota 148,5, um total de 3.320 milhões de metros cúbicos de água (80 por cento da capacidade total).

A albufeira de Alqueva tem capacidade para armazenar, na sua cota máxima (152), um total de 4.150 milhões de metros cúbicos de água, dos quais 3.150 milhões constituem o seu volume útil.

Com o enchimento à sua cota máxima, Alqueva criará o maior lago artificial da Europa, com 250 quilómetros quadrados de área (actualmente ocupa cerca de 170 quilómetros quadrados) e perto de 1.100 quilómetros de margens.
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