Sócrates subscreve críticas de Lula aos subsídios agrícolas europeus e norte-americanos

Sócrates subscreve críticas de Lula aos subsídios agrícolas europeus e norte-americanos

O primeiro-ministro português subscreveu as críticas do presidente brasileiro ao peso dos subsídios da União Europeia e Estados Unidos no sector agrícola e apoiou o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

As referências de José Sócrates e de Inácio Lula da Silva às negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e ao mercado energético dos biocombustíveis foram feitas numa entrevista conjunta à RTP, conduzida pela jornalista Fátima Campos Ferreira no Museu de Arte Moderna e Contemporânea - Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém.

A entrevista antecedeu a primeira cimeira entre União Europeia e Brasil - uma das principais prioridades da presidência portuguesa - no Parque das Nações.

"Portugal percebeu que faltava à política europeia a existência de um pilar com o Brasil. Não era possível a Europa ter um papel relevante mundial no domínio da regulação sem ter uma relação especial com o Brasil, que é um grandes dos actores mundiais", sustentou o primeiro-ministro.

No ponto sobre o actual bloqueio das negociações da OMC, tal como José Sócrates, o presidente brasileiro manifestou-se optimista em relação ao futuro, partindo da ideia de que a Europa tem novos líderes políticos, como Nicolas Sarkozy (França) e Gordon Brown (Reino Unido).

"Tenho mais de 62 anos de idade e mais de 40 de negociações e nunca esperei uma negociação fácil na ronda de Doha. Do ponto de vista técnico o trabalho está encerrado, mas falta a decisão política dos primeiros-ministros e dos presidentes da República", observou Lula.

"Queremos que os Estados Unidos baixem os seus subsídios agrícolas para 12 mil milhões de dólares e que a União Europeia flexibilize os seus mercados no sector da agricultura. Mas, tanto a União Europeia, como os Estados Unidos, querem que o Brasil flexibilize os seus mercados ao nível da indústria e dos serviços", apontou o chefe de Estado brasileiro, defendendo, depois, "uma proporcionalidade que leve em conta o produto interno bruto de cada país".

Sócrates concordou com Lula de que o trabalho técnico da ronda de Doha, que as principais questões estão identificadas e que resta a decisão política.

"Procuramos uma regulação da globalização e um equilíbrio entre liberalização e incentivos ao desenvolvimento", disse o primeiro-ministro, referindo depois que um acordo está muito dependente "da redução dos subsídios agrícolas por parte dos países desenvolvidos".

Na perspectiva do chefe do Governo português, a redução dos subsídios deverá permitir "um acesso aos mercados dos países mais desenvolvidos por parte dos menos desenvolvidos".

"Isso é absolutamente justo. Há um excesso de ajudas estatais no sector agrícola dos Estados Unidos e de alguns países europeus. A compensação será uma maior abertura dos mercados dos países menos desenvolvidos aos produtos industriais", declarou, antes de deixar uma mensagem:

"As negociações ainda não acabaram e a minha convicção é que um acordo comercial pode estar perto, porque é bom para todas as partes", advogou o chefe do Governo português.

Na questão dos biocombustíveis, o presidente do Brasil referiu a importância do acordo alcançado terça-feira entre a Petrobrás e Galp Energia para a produção de 300 milhões de litros (150 milhões para cada país), manifestando a sua convicção de que "o mundo irá curvar-se ao mercado dos biocombustíveis".

De acordo com Lula, a utilização dos biocombustíveis será uma poderosa arma no combate à pobreza em África ou na América Central.

A este respeito, disse que um emprego criado numa indústria brasileira de biocombustíveis corresponde a mil empregos no campo.

Por sua vez, Sócrates afirmou que os biocombustíveis "são a resposta inteligente para reduzir as emissões de CO2", sobretudo no sector dos transportes".

"A meta da União Europeia é usar 10 por cento de energia com base em combustíveis até 2020, sendo a meta de Portugal mais ambiciosa, porque queremos atingir este valor até 2010", apontou.

Ao nível dos investimentos externos, José Sócrates disse ver com "bons olhos" a possibilidade de a Portugal Telecom e a brasileira Telemar fazerem uma parceria no mercado das telecomunicações e referiu-se à presença de algumas das melhores empresas brasileiras em Portugal (como a Embraear).

"As relações empresariais têm crescido nos últimos anos em benefício de Portugal e do Brasil", advogou o primeiro-ministro, numa perspectiva também partilhada por Lula.

"É importantes mais investimentos brasileiros em Portugal e mais empresários portugueses no Brasil", disse, deixando no entanto uma advertência a Portugal, embora usando um estilo de humor.

"Só peço que os portugueses não comprem todas as terras boas das praias brasileiras, porque os portugueses estão comprando tudo", observou.

Na entrevista, o primeiro-ministro, José Sócrates, voltou a defender que o Brasil se torne em breve membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, embora sublinhando que a União Europeia não tem posição definida sobre esta matéria.

Contudo, para Sócrates, " como a ordem mundial está mudar com uma velocidade vertiginosa, as instituições mundiais também têm que mudar".

"Penso que a nossa entrada vai acontecer com uma reforma das Nações Unidas, para que seja uma instituição multilateral e equilibrada", sustentou o presidente do Brasil.


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