Suicídios estão a aumentar em Portugal desde 2000, sobretudo no sul do país

Suicídios estão a aumentar em Portugal desde 2000, sobretudo no sul do país

O número de suicídios tem vindo a aumentar em Portugal desde a viragem do milénio, atingindo taxas especialmente altas no sul do país, mas a média nacional permanece uma das mais baixas da Europa.

Agência LUSA /

"Portugal apresentou durante vários anos taxas bastante baixas, mas, desde o ano 2000, tem-se vindo a registar um aumento das taxas de suicídio", afirmou Bessa Peixoto, presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), em declarações à Lusa.

As últimas estatísticas disponíveis da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre este tema referem que a taxa de suicídios em Portugal era de 11,7 por cada 100 mil habitantes em 2002, ou seja, mais do dobro da taxa que se verificava em 2000, que era de apenas 5,1 por 100 mil habitantes.

Bessa Peixoto admitiu que este aumento possa ser explicado por novos critérios metodológicos, como o facto da morte por overdose ser agora considerada suicídio, mas frisou que a existência de melhores estatísticas "não explica tudo".

"Trata-se de uma realidade muito recente, que é necessário estudar para se perceber e interpretar melhor os dados", frisou o especialista, salientando que "não há uma causa específica apontada para este aumento".

A análise desta nova realidade dos suicídios em Portugal é o principal objectivo do VII Simpósio da Sociedade Portuguesa da Suicidologia, que decorre entre quinta-feira e sábado na Universidade do Minho, em Braga.

O encontro, subordinado ao tema `Emoções, Afectos e Suicidios`, contará com mais de 500 participantes, estando prevista a apresentação de cerca de sete dezenas de comunicações.

"Os temas a tratar têm uma grande abrangência e são muito diversificados, incluindo a análise de questões como as perturbações de humores e as depressões bipolares, mas também a realidade dos suicídios em Portugal, os aspectos médico-legais ou a contribuição da neurociência para explicar as depressões e as ansiedades", salientou Bessa Peixoto.

Os dados estatísticos relativos a Portugal indicam que a taxa de suicídios é muito superior nos homens do que nas mulheres, o que Bessa Peixoto considerou ser "uma realidade comum a quase todos os países europeus".

Em 2002, a taxa de suicídios entre os homens portugueses foi de 18,9 por cada 100 mil habitantes, enquanto nas mulheres esse valor foi apenas de 4,9 por 100 mil habitantes.

"A razão para esta situação parece estar relacionada com o facto dos homens utilizarem métodos mais violentos", afirmou o presidente da SPS, admitindo que os dados indicam que "parece haver mais determinação nos homens (que decidem suicidar-se)".

Este raciocínio também explica que as taxas de tentativas falhadas de suicídio sejam superiores nas mulheres do que nos homens.

Relativamente ao território português, as mais altas taxas de suicídio ocorrem no Alentejo: litoral (28,4), central (19,8), baixo (19,4) e alto (17,1).

O Algarve é a segunda região do país com taxas mais elevadas, tendo registado 14,4 por cada 100 mil habitantes, enquanto o valor mais baixo ocorreu no Grande Porto, com uma taxa de apenas 0,5 por cada 100 mil habitantes.

"Os dados nacionais relevam uma questão curiosa, já que, a nível europeu, as taxas vão diminuindo de norte para sul, enquanto em Portugal é precisamente ao contrário", salientou Bessa Peixoto.

Para o especialista, o elevado número de suicídios registados na região sul do país, especialmente no Alentejo, pode estar ligado a questões como o isolamento e a menor religiosidade.

Apesar destes dados, Bessa Peixoto salientou que "Portugal não está muito mal" nesta área, já que, apesar dos aumentos verificados desde 2000, a taxa de suicídios "mantém-se de acordo com os países da orla mediterrânica, muito distante dos valores registados nos países do norte".

Numa tabela de 45 países, elaborada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Portugal surge na 30/a posição, com uma taxa de 11,7 por cada 100 mil habitantes, muito abaixo da Lituânia, que ocupa o primeiro lugar com uma taxa de 42,1 por cada 100 mil habitantes.

O suicídio é um grave problema de saúde pública a nível mundial, tendo adquirido uma especial relevância na Europa nas últimas décadas, onde tem ocorrido um aumento das taxas de suicídio entre os adolescentes e os jovens adultos.

A OMS estima que se suicidem todos os anos cerca de um milhão de pessoas no mundo.

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