Tânia decidiu ser pescadora quando o filho completou 10 anos
Depois de o filho completar 10 anos, Tânia Graça decidiu trocar a segurança da casa pela vida no mar, não sem antes travar "uma grande discussão" com o marido, também pescador.
Ultrapassada a oposição de António Graça, mais conhecido por Toni, passaram a sair de casa juntos todos os dias, entre as 04:00 e as 06:00, para lançarem as redes ao mar, ao largo da Costa da Caparica e do Bugio até Cascais.
"Trabalhava num colégio, entretanto engravidei e, como era uma gravidez de risco, fiquei em casa", contou a pescadora à reportagem da agência Lusa, na Costa da Caparica, Almada.
Toni, que pesca desde os 6 anos, reconheceu-lhe hoje a bravura: "Não sei como ela aguenta! Já vi homens borrarem-se todos dentro do fato", disse.
Tânia confessou que, por vezes, sente medo do mar no inverno, mas vai da mesma forma. "Vou sempre", relatou a única pescadora de mar aberto em atividade na comunidade da Caparica, segundo os pescadores locais entrevistados pela Lusa.
As marcas que exibiu nas mãos atestam a dureza do trabalho. Ainda assim, não troca a liberdade que encontra no mar por outro emprego.
"É super duro. Só quem gosta mesmo, só por gosto", confirmou Toni, acrescentando que, na Caparica, há 10 anos que não entra um jovem para a pesca. "Cada vez há menos pessoas que queiram vir para a pesca, isto é um bocado doloroso", lamentou.
Ao fim de nove anos de parceria Tânia-Toni, o balanço é positivo, apesar de as tempestades do inverno terem impedido os pescadores da Caparica de saírem ao mar durante dois meses.
Tânia só lamentou ter começado tarde na pesca. "Já tenho 48 anos, se tivesse agora 20 anos, ninguém nos parava, eu e ele", riu.
Pescam robalos, linguados, chocos, douradas, sargos e corvinas, de acordo com a época do ano.
Como na Costa da Caparica não há um porto de abrigo, o casal optou por deixar o barco na Docapesca, em Lisboa, atravessando todas as manhãs a Ponte 25 de Abril de carro, depois de ter perdido uma embarcação na Cova do Vapor. "Houve um ano em que foi ao fundo, porque não havia condições", referiu Tânia.
Este ano, quando puderam regressar ao mar depois das tempestades de janeiro e fevereiro, notaram que havia menos peixe e que a água estava mais doce. "O peixe atrasou muito, acho que foi derivado ao inverno que houve, aqueles dois meses horríveis que a gente esteve sem trabalhar", relatou Tânia.
Toni, por seu lado, garantiu que este foi o pior ano. "Em 47 anos, não me lembro de uma coisa assim. Em janeiro e fevereiro, pesquei três dias. Nunca vi uma coisa assim na minha vida".
As condições meteorológicas refletiram-se também na desova do peixe, segundo Toni.
Todos os anos veem sair areia da praia, à medida que os esporões vão ficando danificados. O peixe, dizem, "cada vez vem mais tarde", o que atribuem a alterações no clima. A água está cada vez mais quente, o que atrai também outras espécies.
"A corvina devia vir mais cedo, vem mais tarde, o robalo também. Normalmente vinha em dezembro, agora vem em fevereiro", exemplificou Toni, que para a mulher é "o melhor pescador que há".
Já as operações destinadas à alimentação artificial de areia nas praias do concelho de Almada deixaram o mar "mais areoso", o que dificultou a pesca do linguado.
Para Toni, só repor areia não chega. "As maresias são cada vez são mais fortes e os esporões são pequeninos. Deviam avançar com os esporões para fora para segurar a areia", defendeu.