Teodora Cardoso acusa Cavaco e Guterres de "miopia governativa"
A economista Teodora Cardoso acusa os ex-primeiros-ministros Cavaco Silva e António Guterres de "miopia governativa" por terem prosseguido políticas económicas sem "uma óptica de sustentabilidade", num texto elaborado para a candidatura presidencial de Mário Soares.
No documento, intitulado "Cavaco Silva, a ciência económica e a polític a", datado de Dezembro de 2005 e hoje distribuído aos jornalistas pela candidatu ra de Mário Soares, Teodora Cardoso acusa ainda o ex-líder do PSD de ter utiliza do "a política económica na conquista do poder", enquanto ministro das Finanças, em 1980.
A economista - que integrou o Conselho Económico e Social do PS e faz p arte do fórum socialista Novas Fronteiras como independente - argumenta que Cava co Silva e o primeiro-ministro, José Sócrates, dificilmente chegarão às mesmas c onclusões, a avaliar pelas respectivas políticas.
Teodora Cardoso define o candidato apoiado pelo PSD e CDS como "um caso de cegueira", imputando várias "falhas" à sua governação, como ter dado priorid ade à adesão à moeda única descuidando "os aspectos estruturais" e "a reformulaç ão que se impunha em matéria de política e de processo orçamental".
"Os resultados de curto prazo foram negativos, culminando na crise de 1 993 e na queda do Governo do PSD. A miopia governativa na gestão da conjuntura e da nova leva de fundos europeus iria, porém, manter-se na fase António Guterres , com os resultados que se conhecem", acrescenta.
"O que tem sido muito menos sublinhado é que os erros tão clamorosament e apontados a este [António Guterres] não foram mais que a continuação dos que v inham de trás", sublinha Teodora Cardoso na sua "análise crítica".
De acordo com a economista, "o principal erro - que haveria de repetir- se nos governos Guterres e que ainda surge em algumas análises - consistiu em co ncentrar atenções no défice contabilístico e em esquecer as suas determinantes f undamentais, sobretudo numa óptica de sustentabilidade".
Para Teodora Cardoso, a política económica de Cavaco Silva acentuou "um a modalidade de crescimento económico e de consenso social sobretudo ligados à c onquista e permanência no poder" e aumentou "os factores de rigidez" e os chamad os direitos adquiridos.
Segundo a economista, Cavaco Silva protagonizou "a primeira grande tent ativa de usar a política económica na conquista do poder", enquanto ministro das Finanças, através da "redução temporária e/ou aparente da taxa de inflação e do défice orçamental, com vista a aumentar o poder de compra dos eleitores e a mar gem de manobra do Governo em matéria de despesas públicas".
"Como resultado, o país mergulhou, no início de 1983, na crise mais gra ve da história económica recente", declara, acrescentando que "a sua resolução c oube ao Governo do Bloco Central", chefiado por Mário Soares.
No texto que escreveu para o Movimento de Apoio Soares à Presidência (M ASP), Teodora Cardoso frisa a "mestria" de Cavaco Silva "em gerir os desfasament os entre as medidas de política e os seus resultados", escolhendo o momento da " estabilização da economia", em 1985, "para voltar à política".
A economista acusa Cavaco de ter ganho a liderança do PSD e feito cair o Governo do Bloco Central "antes que os resultados favoráveis da sua política s e tornassem perceptíveis para a generalidade dos cidadãos".
"Cavaco diz apoiar as medidas do Governo, desde que este concorde com a s suas ideias, segundo o princípio que tão limpidamente enunciou de que `pessoas inteligentes, com a mesma informação, chegam às mesmas conclusões`", lembra, de pois, Teodora Cardoso.
De acordo com a economista, que elogia "a liderança política" da maiori a socialista no poder, "avaliando a experiência anterior de Cavaco e a actual po lítica de Sócrates, as conclusões a que chegam serão provavelmente diferentes".