Toxicodependentes têm dificuldade em perceber as emoções dos outros - Estudo

Toxicodependentes têm dificuldade em perceber as emoções dos outros - Estudo

Os toxicodependentes em período de abstinência têm dificuldade em identificar nas expressões faciais das outras pessoas emoções básicas como a alegria ou a tristeza, revela um estudo científico português.

Agência LUSA /

Designado "Expressão facial: o reconhecimento das emoções básicas em toxicodependentes - estudo empírico com portugueses", este trabalho visou perceber até que ponto os dependentes de heroína, em período de abstinência, conseguiam identificar emoções básicas.

Segundo o director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção (FEELab), Freitas-Magalhães, responsável pelo estudo que decorreu entre 2004 e 2006, "os heroinómanos têm défices cognitivos na identificação das emoções básicas" - a alegria, a tristeza, a surpresa, o medo, a cólera e a aversão.

O estudo incidiu sobre o período mais grave de abstinência, que ocorre entre as 24 e as 72 horas sem consumo de droga, e revelou que os toxicodependentes nessas condições apresentam confusão mental e pouca capacidade de reconhecer emoções.

De acordo com Freitas-Magalhães, esta descoberta tem "implicações ao nível dos profissionais de saúde que lidam com estes doentes", uma vez que "muitas vezes utilizam determinadas expressões para os motivar, quando na realidade os doentes não estão a perceber nada".

Para este trabalho foram estudados 60 dependentes de heroína (25 mulheres e 35 homens) com idades entre os 18 e os 40 anos.

Contudo, a linha de investigação no total aborda outros tipos de dependências como cocaína, álcool ou canabis, explicou o investigador, adiantando que já existem alguns dados, mas que ainda não estão trabalhados.

Relativamente aos heroinómanos, os resultados do estudo confirmam que as mulheres são mais espontâneas na identificação e caracterização das emoções básicas do que os homens.

Segundo Freitas-Magalhães, este é um padrão que se verifica sempre: independentemente de consumirem ou não drogas, as mulheres têm sempre mais facilidade em identificar as emoções dos outros.

No caso das heroinómanas, têm menos capacidade de fazer essa análise do que uma mulher "normal", mas continuam a conseguir fazê-lo com mais facilidade do que os homens heroinómanos.

Freitas-Magalhães explicou ainda que as mulheres têm mais facilidade em identificar as emoções positivas e que os homens conseguem perceber melhor as negativas.

O estudo indicou também que a partir das 72 horas de abstinência, os toxicodependentes "começam a conseguir identificar de forma lenta e gradual as emoções, recuperando praticamente toda a capacidade de juízo e de reconhecimento".

Os resultados deste estudo serão publicados no "Journal of Consulting and Clinical Psychology", da Associação Americana de Psicologia.

Freitas-Magalhães, o único psicólogo português que estuda as funções e repercussões do sorriso no desenvolvimento das emoções e das relações interpessoais, já investigou os efeitos do sorriso na percepção psicológica da afectividade, dos delinquentes, dos estereótipos, e nas diferenças de género, idade e cor de pele.

Estudou também o reconhecimento das emoções básicas através da expressão facial em diferentes grupos etários e em deficientes mentais, sendo autor de uma base de dados portuguesa sobre expressão facial da emoção e do livro "A Psicologia do Sorriso Humano", lançado recentemente pelas Edições Universidade Fernando Pessoa.

O cientista é professor das Faculdades de Ciências Humanas e Sociais e de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, sendo fundador e director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção (FEELab).

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