último engraxador "puxa o lustro" ao sonho de ganhar o Euromilhões para abrir uma sapataria
Viana do Castelo, 11 Mai (Lusa) - Enquanto espera pelo Euromilhões, para concretizar o sonho de abrir uma sapataria, o último engraxador de Viana do Castelo ganha a vida na rua, a "puxar o lustro" a sapatos e botas dos clientes.
"A mão-de-obra qualificada paga-se", graceja António Maria Teixeira, 43 anos e engraxador desde 1992.
"Por dia, faço entre 25 a 30 euros. Sempre vai dando para viver. Não me posso queixar, até porque tenho ainda a vantagem de fazer aquilo de que gosto. O calçado é a minha paixão e a minha vida", confessa.
Uma engraxadela leva-lhe uns cinco a sete minutos e rende-lhe dois euros. Se se tratar de botas de cano alto, a "parada" pode subir até aos três, para compensar o que gasta a mais em tinta rápida e pomada.
"Todos os clientes me deixam uma gorjeta, alguns chegam até a deixar uma nota de cinco euros, sinal de que ficam satisfeitos com o meu serviço", refere.
Feitas as contas, isto significa que, para amealhar 30 euros por dia, o "graxas" de Viana, como é conhecido, precisará de atenxder pouco mais de uma dezena de clientes.
Se cada engraxadela demorar cinco minutos, António Maria ganha o dia numa hora.
Natural de Matosinhos, António Maria trabalhou durante 16 anos na fábrica de calçado "Sanjo", em S. João da Madeira, que fechou em 1992. Desde o corte-e-cose ao acondicionamento, fez de tudo.
"Quando comecei, ganhava 26 contos [130 euros], mas no final já tirava 46 [230 euros]. Senti uma grande tristeza quando aquilo fechou, ainda hoje tenho saudades daquele tempo", afirma.
Então, pegou numa caixa, meteu lá dentro escovas, pomadas e tinta rápida, além de pano de mesas de bilhar, e foi para a rua, ganhar a vida a engraxar sapatos.
"O pano de mesas de bilhar é o grande segredo para deixar os sapatos a brilhar. Para puxar o lustro, não há nada melhor", explica.
Por isso, está "sempre à coca", para não perder a oportunidade de renovar o seu stock sempre que os donos dos salões de bilhar decidem mudar o pano das mesas.
Recorda, no entanto, que quando andava na tropa era com cascas de banana que puxava o lustro às botas.
"Só entrávamos no quartel se tivéssemos as botas a brilhar. Por isso, no comboio, eu lá comia uma banana e aproveitava as cascas, a parte de dentro, para puxar o lustro. E resultava que era uma maravilha", lembra.
Depois de ter andado a "saltitar" por diversas localidades do Norte, assentou definitivamente o negócio em Viana do Castelo, "aproveitando" o abandono daquele que, até então, era o "engraxador oficial" da cidade.
O seu local de trabalho é frente a uma entidade bancária, cujos funcionários são alguns dos seus "vinte e poucos" clientes habituais.
"É por causa deles que decidi ir almoçar apenas às 13:30. Por volta do meio-dia, começam a sair para o intervalo e alguns aproveitam para engraxar os sapatos. E eu tenho que aproveitar, não é?", diz.
António garante que gosta daquilo que faz e que continuará a engraxar até que as mãos lhe doam.
A não ser que lhe saia o Euromilhões...
"Aí, era capaz de deixar isto e concretizar o meu sonho: abrir uma sapataria. Claro que teria empregados a trabalhar para mim, mas nunca me afastaria dos `meus` sapatos. Isso nunca, eles são a minha vida", confessa.