Viver longe das instituições impede mais pobres de ter um curso superior
Os alunos do interior do país têm mais dificuldades em frequentar o ensino superior, segundo um estudo, que mostra que quanto mais distantes vivem das instituições mais dificil é o acesso, especialmente para os estudantes mais desfavorecidos.
Um grupo de investigadores acompanhou durante uma década o percurso académico de mais de 724 mil diplomados do ensino secundário e concluiu que viver numa terra do interior onde não existem universidades ou institutos politécnicos pode ditar os seus destinos, especialmente se tiverem nascido em famílias mais desfavorecidas.
"A distância continua a ser um dos principais entraves à frequência do ensino superior, sobretudo para os estudantes do interior, para quem a mobilidade é praticamente inevitável", lê-se no estudo "Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior", coordenado por Pedro Luís Silva e divulgado hoje pelo Edulog.
Quando não há oferta perto de casa, as famílias têm de procurar outras soluções. Mas os investigadores perceberam que ao aumentar a distância em que se encontra a instituição de ensino superior, os fluxos de mobilidade diminuem, especialmente quando tal opção implica arrendar um quarto.
"O aumento de 10% na distância (ou de 20 km face à distância média observada) reduz os fluxos de mobilidade em aproximadamente 3,4%", concluíram os investigadores após analisarem o percurso dos alunos entre os anos letivos de 2013/14 e 2022/23.
"A distância continua a ser um obstáculo determinante e, em muitas regiões, estudar fora permanece financeiramente incomportável", corroborou Alberto Amaral, membro do conselho consultivo do Edulog, o laboratório de ideias da Fundação Belmiro de Azevedo.
Os mais afetados são os jovens mais carenciados, que continuam muito menos presentes no ensino superior, "sobretudo nos cursos e instituições de maior prestígio", acrescentam os investigadores que identificaram um padrão associado à situação socioeconómica.
Enquanto os alunos de colégios privados têm muito mais facilidade em continuar a estudar longe de casa, os mais carenciados acabam, muitas vezes, por ter de desistir do sonho de uma formação superior.
Os investigadores perceberam também que a presença de instituições de ensino superior no município cria condições mais favoráveis à progressão, não só pela proximidade física mas também porque aumenta a exposição dos estudantes à informação e às oportunidades do ensino superior, potenciando os fluxos de entrada.
O estudo conclui assim que as condições socioeconómicas e a presença de ensino superior no município de origem são determinantes.
No entanto, os alunos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são mais avessos a ir estudar para longe, porque beneficiam de uma ampla rede de instituições, que tornam menos atrativos os destinos mais distantes. Já os estudantes do interior parecem já estar mentalizados para a necessidade de se deslocarem ou mudarem de casa, acabando por percorrer maiores distâncias.
O estudo mostra ainda que dos 278 municípios, existem 19 onde não houve um único diplomado do ensino secundário no período em análise.
Os mapas mostram municípios maioritariamente localizados junto à fronteira com Espanha e os investigadores explicam que são regiões sem escolas secundárias públicas ou privadas, sublinhando que esta situação também acaba por limitar "de forma estrutural as oportunidades de prosseguimento de estudos dos jovens".
A concentração mais baixa de diplomados nas regiões do Alentejo e do Algarve estará possivelmente associada ao envelhecimento da população e à consequente menor procura por cursos de ensino secundário nestas áreas.
Perante este quadro, os investigadores apontam um "duplo desafio": assegurar a equidade territorial, garantindo que a origem geográfica não limita o acesso, e reforçar a eficiência do sistema, minimizando custos e riscos de abandono.