Política
António Barreto vê Portugal como um “país à deriva”
O sociólogo António Barreto considera que Portugal está a viver há 15 anos, ao nível das políticas económicas, públicas e fiscais, um “período de pura deriva” e que os governos portugueses tudo fizeram para se colocarem numa posição de dependência em relação à União Europeia e à Alemanha. Em entrevista à Antena 1, lamenta que Portugal tenha pedido a possibilidade de Portugal tomar decisões importantes sozinho.
“A parte mais dramática disto é a perda de poder do Parlamento. Portugal hoje não tem liberdade para tomar decisões importantes do ponto de vista económico, social e financeiro sem a autorização da União Europeia e a Alemanha”, afirma António Barreto, depois de elencar a debilidade do sector da exportação, a cedência à subsidiação da Europa e ao endividamento como características do ciclo que o país atravessa.
Para trás fica o longo ciclo que começou nos anos 60 com o fomento das exportações, de reorganização do comércio externo. Este ciclo deu lugar, a partir dos anos 80, à subsidiação pela Europa e ao endividamento. António Barreto lembra que, durante 10 anos, “o resultado do trabalho dos emigrantes ainda era superior ao resultado dos benefícios que recebemos dos fundos europeus”.
A cedência à subsidiação ou ao endividamento acontece, na perspectiva do antigo docente universitário e actual presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, porque “os governos portugueses dos últimos anos fizeram tudo o que era necessário de adiamento, de falta de decisão, de falta de definição de horizontes, de estratégia, fizeram tudo o que era necessário para se colocarem nesta posição radical de dependência e de dívida”, sublinha.
António Barreto considera a dependência económica externa como uma realidade “muito mais forte do que aquilo que se diz; as grandes decisões de investimento, de contratação, de fornecimento, já são tomadas de modo muito definitivo, em Bruxelas, na Europa, nas diferentes sedes de poder na Europa”.
O sociólogo foi entrevistado a propósito do livro “Justiça Fiscal”, de Saldanha Sanches, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, pelo jornalista da Antena 1 José Manuel Rosendo e que pode ser escutada na íntegra em www.rtp.pt/noticias.
“Contradição” na redução dos salários públicos
Questionado se considera justa a decisão de reduzir em média 5 por cento os salários apenas dos funcionários públicos para aumentar a receita do Estado, António Barreto admite “em abstracto” que “os sacrifícios que são exigidos aos trabalhadores do sector público possam estender-se ao sector privado”. No entanto, recorrendo à sua experiência como professor universitário, António Barreto nota que há benefícios particulares dos públicos e aponta o fenómeno do desemprego como exclusivo do sector privado.
Numa atitude de ponderação, o sociólogo aponta a “contradição entre o facto de as autoridades públicas estarem a pedir sacrifícios aos portugueses e só o fazerem aos funcionários públicos”, ressalvando que “a compensação moral” destes terem maior estabilidade de emprego.
Período de “pura deriva” e sem objectivos
Observadas as políticas públicas, económicas e fiscais dos últimos 15 anos, António Barreto concluiu que o país viveu, por demasiado tempo, “um período de pura deriva em que os impostos, as penalizações ou os benefícios aumentam ou diminuem, não de acordo com objectivos, ideias ou projectos, mas conforme as necessidades do dia”. É deste modo que António Barreto justifica o facto de há seis meses não ser aventado qualquer corte e, “de repente”, são definidas sucessivas medidas de austeridade.
Crítico do “retoque contabilístico”, nota que “ir buscar fundos de pensões” não cria valor nem “não aumenta absolutamente nada. Tira uma coluna, põe noutra coluna e partir desse dia, como varinha mágica o défice passa a ser diferente ou a ter números diferentes”, diz António Barreto.
A definição de políticas fiscais unicamente por causa do défice revela a primazia do “escolho imediato” em detrimento de “objectivos da vida real”. “Nesse sentido, as autoridades não sabem o que querem, não têm uma vontade em função de um objectivo”, sustenta.
Fim de ciclo, novas escolhas
Uma evolução que permite António Barreto admitir que “estamos a terminar um ciclo”, embora determinar o ciclo em questão seja “mais difícil”.
“Terminámos por volta dos anos 70, 80 um ciclo autoritário, iniciou-se um ciclo político, social e cultural de liberdade, de pluralismo. A sociedade mudou muitíssimo, ao contrário do que ouço tantas vezes as pessoas dizer”, refere, destacando o número de estrangeiros, a existência de locais de culto como sinagogas e as mesquitas, o comportamento das mulheres na sociedade e a conduta livre de cidadãos, que não existia há 50 anos.
Por outro lado, a emigração portuguesa, que foi “uma maneira de entrar na Europa”, anterior à adesão à EFTA e à União Europeia, está a atingir níveis semelhantes à primeira metade da década de 60.
Este ciclo económico está a terminar, com Portugal a perder quota de mercado, “a capacidade exportadora está debilitada porque a capacidade de produção e industrial também está fragilizada”.
Nesta perspectiva, o país tem cinco anos para poder encontrar um rumo. “Estou convencido que se não houver uma alteração de rumo nos cinco anos à nossa frente vamos assistir em simultâneo a passividade, a abstenção ou ausência de voto, desagregação do voto ou não votar e a imigração, a pessoas que nem sequer se inscrevam nos cadernos eleitorais”, admite.
António Barreto aponta ainda como factor de preocupação o facto de se registarem “níveis de emigração hoje muito próximos da primeira metade da década de 60, que foi a década de maior emigração da História de Portugal”, de 28 a 40 mil pessoas, por motivo de sobrevivência.
Os portugueses seguem agora o caminho de países europeus, como Espanha ou Inglaterra, de países que não são da União Europeia como a Suíça, ou ainda do Brasil e de Angola.
O sociólogo defende a importância de se realizar um debate mais amplo do que aquele com “três ou cinco dias de horizonte”, porque está em causa o debate relativo às próximas duas ou três décadas.
Para trás fica o longo ciclo que começou nos anos 60 com o fomento das exportações, de reorganização do comércio externo. Este ciclo deu lugar, a partir dos anos 80, à subsidiação pela Europa e ao endividamento. António Barreto lembra que, durante 10 anos, “o resultado do trabalho dos emigrantes ainda era superior ao resultado dos benefícios que recebemos dos fundos europeus”.
A cedência à subsidiação ou ao endividamento acontece, na perspectiva do antigo docente universitário e actual presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, porque “os governos portugueses dos últimos anos fizeram tudo o que era necessário de adiamento, de falta de decisão, de falta de definição de horizontes, de estratégia, fizeram tudo o que era necessário para se colocarem nesta posição radical de dependência e de dívida”, sublinha.
António Barreto considera a dependência económica externa como uma realidade “muito mais forte do que aquilo que se diz; as grandes decisões de investimento, de contratação, de fornecimento, já são tomadas de modo muito definitivo, em Bruxelas, na Europa, nas diferentes sedes de poder na Europa”.
O sociólogo foi entrevistado a propósito do livro “Justiça Fiscal”, de Saldanha Sanches, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, pelo jornalista da Antena 1 José Manuel Rosendo e que pode ser escutada na íntegra em www.rtp.pt/noticias.
“Contradição” na redução dos salários públicos
Questionado se considera justa a decisão de reduzir em média 5 por cento os salários apenas dos funcionários públicos para aumentar a receita do Estado, António Barreto admite “em abstracto” que “os sacrifícios que são exigidos aos trabalhadores do sector público possam estender-se ao sector privado”. No entanto, recorrendo à sua experiência como professor universitário, António Barreto nota que há benefícios particulares dos públicos e aponta o fenómeno do desemprego como exclusivo do sector privado.
Numa atitude de ponderação, o sociólogo aponta a “contradição entre o facto de as autoridades públicas estarem a pedir sacrifícios aos portugueses e só o fazerem aos funcionários públicos”, ressalvando que “a compensação moral” destes terem maior estabilidade de emprego.
Período de “pura deriva” e sem objectivos
Observadas as políticas públicas, económicas e fiscais dos últimos 15 anos, António Barreto concluiu que o país viveu, por demasiado tempo, “um período de pura deriva em que os impostos, as penalizações ou os benefícios aumentam ou diminuem, não de acordo com objectivos, ideias ou projectos, mas conforme as necessidades do dia”. É deste modo que António Barreto justifica o facto de há seis meses não ser aventado qualquer corte e, “de repente”, são definidas sucessivas medidas de austeridade.
Crítico do “retoque contabilístico”, nota que “ir buscar fundos de pensões” não cria valor nem “não aumenta absolutamente nada. Tira uma coluna, põe noutra coluna e partir desse dia, como varinha mágica o défice passa a ser diferente ou a ter números diferentes”, diz António Barreto.
A definição de políticas fiscais unicamente por causa do défice revela a primazia do “escolho imediato” em detrimento de “objectivos da vida real”. “Nesse sentido, as autoridades não sabem o que querem, não têm uma vontade em função de um objectivo”, sustenta.
Fim de ciclo, novas escolhas
Uma evolução que permite António Barreto admitir que “estamos a terminar um ciclo”, embora determinar o ciclo em questão seja “mais difícil”.
“Terminámos por volta dos anos 70, 80 um ciclo autoritário, iniciou-se um ciclo político, social e cultural de liberdade, de pluralismo. A sociedade mudou muitíssimo, ao contrário do que ouço tantas vezes as pessoas dizer”, refere, destacando o número de estrangeiros, a existência de locais de culto como sinagogas e as mesquitas, o comportamento das mulheres na sociedade e a conduta livre de cidadãos, que não existia há 50 anos.
Por outro lado, a emigração portuguesa, que foi “uma maneira de entrar na Europa”, anterior à adesão à EFTA e à União Europeia, está a atingir níveis semelhantes à primeira metade da década de 60.
Este ciclo económico está a terminar, com Portugal a perder quota de mercado, “a capacidade exportadora está debilitada porque a capacidade de produção e industrial também está fragilizada”.
Nesta perspectiva, o país tem cinco anos para poder encontrar um rumo. “Estou convencido que se não houver uma alteração de rumo nos cinco anos à nossa frente vamos assistir em simultâneo a passividade, a abstenção ou ausência de voto, desagregação do voto ou não votar e a imigração, a pessoas que nem sequer se inscrevam nos cadernos eleitorais”, admite.
António Barreto aponta ainda como factor de preocupação o facto de se registarem “níveis de emigração hoje muito próximos da primeira metade da década de 60, que foi a década de maior emigração da História de Portugal”, de 28 a 40 mil pessoas, por motivo de sobrevivência.
Os portugueses seguem agora o caminho de países europeus, como Espanha ou Inglaterra, de países que não são da União Europeia como a Suíça, ou ainda do Brasil e de Angola.
O sociólogo defende a importância de se realizar um debate mais amplo do que aquele com “três ou cinco dias de horizonte”, porque está em causa o debate relativo às próximas duas ou três décadas.