Campo de Seguro impõe a Costa regulamento das primeiras primárias do PS

Campo de Seguro impõe a Costa regulamento das primeiras primárias do PS

Foi aprovada na última noite pela Comissão Política socialista a proposta de regulamento de António José Seguro para as eleições primárias do maior partido da oposição, a 28 de setembro. No termo de uma reunião tensa, o secretário-geral do PS deu por encerradas “as discussões sobre normas, regras, congressos” e renovou o repto a António Costa para debates públicos. A temer a fragilização deste histórico processo de escolha de um candidato ao cargo de primeiro-ministro, o presidente da Câmara de Lisboa lamentou a impossibilidade de consensos “quanto às regras”.

RTP /
No final de uma reunião de cinco horas da Comissão Política do PS, António Costa disse esperar que o processo das eleições primárias “não seja fragilizado na sua execução” Manuel de Almeida, Lusa

É mais uma batalha a pender para o flanco de António José Seguro. A proposta de regulamento do secretário-geral para as eleições de 28 de setembro, abertas a militantes e simpatizantes, colheu uma maioria de dois terços no seio da Comissão Política do PS ao cabo de cinco horas de reunião – obteve, segundo fonte socialista citada pela agência Lusa, 48 votos favoráveis, 23 contra e uma abstenção.
Francisco Assis deixou a reunião da Comissão Política a apelar a António José Seguro e a António Costa para que comecem a apresentar as suas ideias para o país. O ex-candidato à liderança socialista lamentou também a falta de consenso sobre o regulamento das primárias.

Os candidatos a candidatos, frisou o antigo líder parlamentar do PS, “têm agora a obrigação de apresentar aos portugueses as suas propostas e ideias”, face a “um grande avanço no relacionamento de um partido com a sociedade”.


Caíram as principais propostas de António Costa. Desde logo aquela que pedia a formação de uma comissão de fiscalização das primárias, que seria presidida pelo antigo ministro e comissário europeu António Vitorino. O que significa que o acompanhamento do processo ficará a cargo da Comissão Nacional de Jurisdição do partido.

Também por proposta de Seguro foi aprovada na especialidade a data de 12 de setembro para fechar os cadernos eleitorais. No projeto de regulamento inicialmente subscrito pelo secretário-geral previa-se que os simpatizantes pudessem inscrever-se de 15 de julho a 21 de setembro no site do PS ou nas diferentes estruturas partidárias.

Costa defendeu, em alternativa, o dia 5 do mesmo mês. Mas só conseguiu 26 votos da Comissão Política. O campo do líder impôs-se com 57 votos contra.

O autarca de Lisboa apenas logrou um consenso quanto ao nome que propôs para a liderança da comissão organizadora das primárias: Jorge Coelho.

Ao cair do pano sobre a reunião da última noite, Seguro quis dar por terminadas “as discussões sobre normas, regras, congressos”. Para de imediato relançar o desafio ao adversário no sentido de debates a dois nos palcos mediáticos. Algo que tem sido repetidamente rebatido pelo autarca da capital.

No passado domingo, em Ermesinde, onde foi recebido com vaias, Costa contrapôs que só “quando a outra parte estiver a discutir política e não questão pessoais” haverá “condições para debates frutuosos”.
“Não sei do que tem medo”

“Tenho pena que António Costa, nestas quatro semanas, tenha recusado permanentemente esse debate. Não sei do que ele tem medo”, atirou o secretário-geral socialista, sublinhando que já recebeu vários convites para debates televisivos.

“Espero que António Costa, democraticamente, aceite debater e possamos ter debates tranquilos, serenos e frontais, para que os portugueses possam perceber as diferenças de projetos – que eu ainda não encontrei – para o país”, insistiu.


Foto: Carlos Santos, Lusa

Durante a reunião, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa deixou claro que não se revê nas regras definidas pela direção e agora aprovadas pela Comissão Política. Confrontado com este posicionamento, António José Seguro afirmou que “cada um assume as suas responsabilidades”. E as responsabilidades pelo sismo que abala o Rato recaem por inteiro, na perspetiva do líder, em António Costa.

“O PS ganhou duas eleições nacionais nos últimos dois meses e esta crise não estava prevista no PS. Portanto, António Costa é responsável pelas suas atitudes e comportamentos”, acentuou Seguro, para quem “a solução” que vingou “credibilizará a política e aumentará a qualidade da democracia”.
“Faltam pormenores”
A credibilidade de todo o processo das primárias foi precisamente a preocupação mais expressada por António Costa após a reunião da Comissão Política. O candidato ao lugar de Seguro lamentou também a ausência de um consenso.

António Costa recorreu à ironia quando foi questionado sobre a tensão entre os dois campos adversários no PS: “Acho que o clima está excelente, apesar de não vermos o sol, porque agora é noite”.

“Num processo desta natureza, manda o bom senso que seja devidamente consensualizado quanto às regras, quanto à forma de organizar, e isso infelizmente não foi possível. Cá por mim, com a mesma tranquilidade com que tenho estado neste processo, assim continuarei”, declarou o antigo ministro, dizendo em seguida esperar que a discussão dos últimos dias “não tenha nenhumas consequências” na imagem do PS.

“Espero que este processo não saia fragilizado na sua execução. Tenho esperança que tudo venha a correr bem. Pela minha parte, empenhar-me-ei com a mesma tranquilidade com que tenho feito, não atacando, nem respondendo a ataques pessoais, e não andando a debater questões estatutárias na praça pública”, enfatizou Costa.

“Faltam pormenores sobre o processo das primárias que ainda terão de ser apreciados em nova Comissão Política do PS, mas vamos trabalhar para que, na prática, seja possível credibilizá-lo”, rematou.
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