Política
Carvalho da Silva deixa a CGTP com receio de "descalabro"
Aberto a uma “intervenção sociopolítica”, mas sem explicar os moldes em que o fará, Manuel Carvalho da Silva despede-se até sábado da liderança da CGTP. A poucas horas do XII Congresso da Intersindical, que põe termo a um ciclo de 25 anos, o secretário-geral cessante confessou à RTP que sai com “um sentido muito forte de preenchimento”. Quanto ao futuro, colocou-se entre “os milhões de cidadãos” habilitados para a vida política. Mas não poupou Belém. Questionado sobre o presente, admitiu que “às vezes” teme o “descalabro”.
“Por vontade própria”, Carvalho da Silva teria deixado o cargo de secretário-geral da CGTP há mais tempo. Mas não se arrepende de o ter ocupado nos últimos 25 anos. É com “uma certa alegria interior”, mas também com “gratidão”, que entrega o testemunho nos dois dias do Congresso da Intersindical, a decorrer em Lisboa. “Sou muito bem tratado, as pessoas tratam-me com respeito. Há, uma outra vez, um disparate. Mas eu beneficiei das aprendizagens do ser humano comum, dos homens e das mulheres que às vezes não têm grande formação escolar, mas que sabem muito pela experiência da vida. Sou essencialmente uma construção desses saberes, que procurei ir edificando”, sustentou ontem à noite na Grande Entrevista da RTP.
Todavia, a uma pergunta da jornalista Sandra Sousa sobre a possibilidade de vir a aplicar um tal capital humano numa eventual candidatura à Presidência da República, o dirigente sindical cessante respondeu com ironia: “Eu não falei de popularidade. Falei de identidade na sociedade, de identidade com as pessoas e com os processos. Quanto às eleições presidenciais, penso que o Presidente da República não se demitiu”.
“Nem a questão se coloca, nem o tempo da sua discussão é este. Para além disso, só digo uma coisa: sou um dos milhões de cidadãos e cidadãs portugueses que têm as condições possíveis para serem candidatos a Presidente da República, a primeiro-ministro, como serem candidatos ao trabalho mais simples. Sou um cidadão com todos os direitos. Não tenho que me estar a pronunciar sobre futuros que não são prementes”, apressou-se a acrescentar.
De resto, garantiu que ainda não ponderou “em termos de execução” a abertura para fazer uma “intervenção sociopolítica”. “O que eu disse foi que estou disponível e empenhado numa intervenção sociopolítica. É exatamente isso. É abordar os problemas sociais com a consciência de que os problemas sociais se articulam com as questões políticas e articulam-se profundamente. Nas fases de grande crise, a preocupação de que a agenda social se identifique com questões fundamentais, com contributos que possam ser a base de alternativas políticas, é fundamental. E a esquerda precisa disto, precisa de uma dinâmica social e sociopolítica nova”, propugnou.
Presidente “tem que dignificar o cargo”
O cuidado na abordagem do que pode vir a ser o futuro político não trava um ímpeto crítico que Carvalho da Silva estende ao Governo de Pedro Passos Coelho, associado, na sua opinião, a “uma avalanche do poder patronal”, e ao PS de António José Seguro, “infelizmente refém” do pacote de resgate financeiro negociado com o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia. Mas também ao Presidente da República. Sobretudo depois das últimas declarações de Cavaco Silva a propósito das reformas.
“Sinceramente, o Presidente da República, em Portugal, em condições normais, não é sequer um privilegiado, não tem nenhum salário que choque à gente que anda aí todos os dias a fazer críticas aos políticos, que por muito menos trabalho e muito menos qualidade e muito menos exigências ganham muito mais. Agora, o Presidente da República não pode estar quase a fazer a glorificação do empobrecimento em Portugal e depois fazer a afirmação que fez, porque isso choca na sociedade”, repudiou.
Para o ainda dirigente sindical, o Chefe de Estado deveria também refletir sobre as suas opções de remuneração: “É muito mau que o Presidente da República opte por uma remuneração que não é a remuneração do Presidente. O Presidente da República, mesmo fazendo sacrifícios, tem que dignificar o cargo em toda a sua dimensão e em toda a sua responsabilidade. Era bom que o Presidente da República corrigisse a situação e, em vez de optar por receber o valor das reformas, optasse por receber o valor da função de Presidente da República, mesmo que possa ter que fazer mais sacrifícios, ou seja, que o valor seja inferior ao valor das reformas”.
“É que o empobrecimento não é glorioso, não é mesmo. E os que andam a receitar o empobrecimento ao povo e os ricos fogem do empobrecimento como o diabo da cruz. E é bom que isto esteja presente na mente de um Presidente, para mais numa fase histórica em que o povo português precisa de alguém que se identifique com os seus anseios e que contribua para que não se desenvolva na sociedade a expressão dos sentimentos mais primários que muitas vezes conduzem a populismos, a invejas”, advertiu Carvalho da Silva.
“Receios” de “descalabros maiores”
Perante a perda de terreno da esquerda, “não só em Portugal” como “em toda a Europa”, Carvalho da Silva sugere uma revisitação dos livros de História. O líder histórico da CGTP-IN não vai ao ponto de antever um retorno a regimes fascistas e ditatoriais. Mas confessa que “às vezes” experimenta “receios”. Ainda assim, propõe-se “acreditar que as sociedades atuais, as aprendizagens, os conhecimentos e a possibilidade de transmissão de conhecimentos que hoje existe evitem descalabros maiores”.
“Se a direita está a ganhar, a esquerda está a perder. Porque é que isto acontece? Também aí eu digo que vale a pena irmos ler o que se passou no século passado, o que se passou na década de 30 do século passado, quando se via que o mundo, a Europa em concreto, estava a caminho do fascismo. Já sou criticado por citar tantas vezes o pensamento de Bento de Jesus Caraça, mas ocorre-me sempre as conferências do Caraça nos anos 30, quando chamava a atenção para a besta que se desenvolvia. E houve grandes esforços, por exemplo na construção de frentes populares, à esquerda, houve generosidade extraordinária. E isso não foi capaz, no imediato, de espoletar soluções e caímos mesmo no fascismo e caímos em ditaduras”, evocou Manuel Carvalho da Silva.
Para insistir no aviso: “Se a destruição dos direitos do trabalho e do Estado social for violenta e se o ataque às causas do sindicalismo for violento, então o descalabro da sociedade pode ser muito grande”.
Ainda segundo o Carvalho da Silva, os sindicatos enfrentam hoje um quadro de perda de força porque é a própria sociedade que “está com problemas”. “Uma sociedade que elevou ao exagero o individualismo, para individualizar as pessoas, para as responsabilizar que manipulou o consumo, que manipulou os conceitos de competitividade e de produtividade, uma sociedade que substituiu uma economia sustentada no trabalho pela economia da especulação, do roubo organizado, essa sociedade está profundamente em crise e os sindicatos não têm condições de resposta”, admitiu.
“Se a situação caminhar no sentido de os sindicatos serem ainda mais encostados à parede, o que podemos ter a certeza é que o descalabro da sociedade vai ser ainda muito maior do que imaginámos. Basta lembrar o que aconteceu no século XX quando os trabalhadores e os sindicatos foram encostados à parede, o que foi a I Guerra Mundial, o que foi a II Guerra Mundial. É bom as pessoas terem memória histórica”.
UGT associada a “retrocesso”
De fora do discurso público de Carvalho da Silva fica, por outro lado, a ideia de que exista algum ressentimento para com o PCP, ou um aparente afastamento de ordem ideológica: “Beneficiei ao longo de toda a minha presença no Partido Comunista das aprendizagens, de valores, de ensinamentos múltiplos. Tenho também para com muitos camaradas e para com o partido no seu coletivo uma grande gratidão e, quanto à minha relação, já disse tudo o que tinha a dizer”.
É também em tom moderado que fala sobre o momento de tensão com a UGT, que não vai estar representada no Congresso da Intersindical, apesar de ter sido convidada. Sem esclarecer se a CGTP admite recuar na intenção de avançar com um processo contra João Proença, Carvalho da Silva voltou a defender, na RTP, que “a questão fundamental” é perceber o que “o conteúdo” do acordo tripartido assinado por Governo, estruturas do patronato e União Geral dos Trabalhadores “significa, em cada medida concreta, para os trabalhadores”.
A CGTP, frisou, “mantém-se fiel aos compromissos que assumiu no pré-aviso” da última greve geral. Quanto ao posicionamento da UGT, Carvalho da Silva reiterou que a central sindical liderada por João Proença “merece, clara e inequivocamente, uma crítica em função daquilo que é o retrocesso nos conteúdos do acordo, porque uma coisa é reconhecer que estamos em queda, outra coisa é sancionar esse retrocesso e credibilizar, perante as pessoas, a inevitabilidade de coisas que não podem ser inevitáveis”. Em marcha, continuou, está “um profundo retrocesso social, um profundo retrocesso dos trabalhadores, uma diminuição da retribuição do trabalho, que não tem paralelo na vida da sociedade portuguesa depois do 25 de Abril”.
Na Grande Entrevista, Carvalho da Silva repetiu também que foi para não dar corpo a “objetivos de credibilização das políticas em curso” que a CGTP se retirou das recentes negociações em sede de concertação social.
“Reponham aí o discurso do primeiro-ministro na festa do PSD em setembro e ele diz para que é que quer a concertação social, as palavras são dele: convidar os parceiros sociais para credibilizar os sacrifícios necessários. Isto não é diálogo. E neste processo último, os patrões reconheceram que este acordo acabou por incidir apenas na legislação laboral. Tudo o resto que lá está são declarações de intenções”, arguiu.
“Foi anunciado ao país que este acordo vai resolver a produtividade e a competitividade. Tudo isso é treta. Está demonstrado que não resolve. É que mal terminou isto, vem um representante da troika e diz que é preciso ressuscitar a Taxa Social Única. Hoje já se ouviu patrões a dizer que é preciso a Taxa Social Única. Não param”.
Todavia, a uma pergunta da jornalista Sandra Sousa sobre a possibilidade de vir a aplicar um tal capital humano numa eventual candidatura à Presidência da República, o dirigente sindical cessante respondeu com ironia: “Eu não falei de popularidade. Falei de identidade na sociedade, de identidade com as pessoas e com os processos. Quanto às eleições presidenciais, penso que o Presidente da República não se demitiu”.
“Nem a questão se coloca, nem o tempo da sua discussão é este. Para além disso, só digo uma coisa: sou um dos milhões de cidadãos e cidadãs portugueses que têm as condições possíveis para serem candidatos a Presidente da República, a primeiro-ministro, como serem candidatos ao trabalho mais simples. Sou um cidadão com todos os direitos. Não tenho que me estar a pronunciar sobre futuros que não são prementes”, apressou-se a acrescentar.
De resto, garantiu que ainda não ponderou “em termos de execução” a abertura para fazer uma “intervenção sociopolítica”. “O que eu disse foi que estou disponível e empenhado numa intervenção sociopolítica. É exatamente isso. É abordar os problemas sociais com a consciência de que os problemas sociais se articulam com as questões políticas e articulam-se profundamente. Nas fases de grande crise, a preocupação de que a agenda social se identifique com questões fundamentais, com contributos que possam ser a base de alternativas políticas, é fundamental. E a esquerda precisa disto, precisa de uma dinâmica social e sociopolítica nova”, propugnou.
Presidente “tem que dignificar o cargo”
O cuidado na abordagem do que pode vir a ser o futuro político não trava um ímpeto crítico que Carvalho da Silva estende ao Governo de Pedro Passos Coelho, associado, na sua opinião, a “uma avalanche do poder patronal”, e ao PS de António José Seguro, “infelizmente refém” do pacote de resgate financeiro negociado com o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia. Mas também ao Presidente da República. Sobretudo depois das últimas declarações de Cavaco Silva a propósito das reformas.
“Sinceramente, o Presidente da República, em Portugal, em condições normais, não é sequer um privilegiado, não tem nenhum salário que choque à gente que anda aí todos os dias a fazer críticas aos políticos, que por muito menos trabalho e muito menos qualidade e muito menos exigências ganham muito mais. Agora, o Presidente da República não pode estar quase a fazer a glorificação do empobrecimento em Portugal e depois fazer a afirmação que fez, porque isso choca na sociedade”, repudiou.
Para o ainda dirigente sindical, o Chefe de Estado deveria também refletir sobre as suas opções de remuneração: “É muito mau que o Presidente da República opte por uma remuneração que não é a remuneração do Presidente. O Presidente da República, mesmo fazendo sacrifícios, tem que dignificar o cargo em toda a sua dimensão e em toda a sua responsabilidade. Era bom que o Presidente da República corrigisse a situação e, em vez de optar por receber o valor das reformas, optasse por receber o valor da função de Presidente da República, mesmo que possa ter que fazer mais sacrifícios, ou seja, que o valor seja inferior ao valor das reformas”.
“É que o empobrecimento não é glorioso, não é mesmo. E os que andam a receitar o empobrecimento ao povo e os ricos fogem do empobrecimento como o diabo da cruz. E é bom que isto esteja presente na mente de um Presidente, para mais numa fase histórica em que o povo português precisa de alguém que se identifique com os seus anseios e que contribua para que não se desenvolva na sociedade a expressão dos sentimentos mais primários que muitas vezes conduzem a populismos, a invejas”, advertiu Carvalho da Silva.
“Receios” de “descalabros maiores”
Perante a perda de terreno da esquerda, “não só em Portugal” como “em toda a Europa”, Carvalho da Silva sugere uma revisitação dos livros de História. O líder histórico da CGTP-IN não vai ao ponto de antever um retorno a regimes fascistas e ditatoriais. Mas confessa que “às vezes” experimenta “receios”. Ainda assim, propõe-se “acreditar que as sociedades atuais, as aprendizagens, os conhecimentos e a possibilidade de transmissão de conhecimentos que hoje existe evitem descalabros maiores”.
“Se a direita está a ganhar, a esquerda está a perder. Porque é que isto acontece? Também aí eu digo que vale a pena irmos ler o que se passou no século passado, o que se passou na década de 30 do século passado, quando se via que o mundo, a Europa em concreto, estava a caminho do fascismo. Já sou criticado por citar tantas vezes o pensamento de Bento de Jesus Caraça, mas ocorre-me sempre as conferências do Caraça nos anos 30, quando chamava a atenção para a besta que se desenvolvia. E houve grandes esforços, por exemplo na construção de frentes populares, à esquerda, houve generosidade extraordinária. E isso não foi capaz, no imediato, de espoletar soluções e caímos mesmo no fascismo e caímos em ditaduras”, evocou Manuel Carvalho da Silva.
Para insistir no aviso: “Se a destruição dos direitos do trabalho e do Estado social for violenta e se o ataque às causas do sindicalismo for violento, então o descalabro da sociedade pode ser muito grande”.
Ainda segundo o Carvalho da Silva, os sindicatos enfrentam hoje um quadro de perda de força porque é a própria sociedade que “está com problemas”. “Uma sociedade que elevou ao exagero o individualismo, para individualizar as pessoas, para as responsabilizar que manipulou o consumo, que manipulou os conceitos de competitividade e de produtividade, uma sociedade que substituiu uma economia sustentada no trabalho pela economia da especulação, do roubo organizado, essa sociedade está profundamente em crise e os sindicatos não têm condições de resposta”, admitiu.
“Se a situação caminhar no sentido de os sindicatos serem ainda mais encostados à parede, o que podemos ter a certeza é que o descalabro da sociedade vai ser ainda muito maior do que imaginámos. Basta lembrar o que aconteceu no século XX quando os trabalhadores e os sindicatos foram encostados à parede, o que foi a I Guerra Mundial, o que foi a II Guerra Mundial. É bom as pessoas terem memória histórica”.
UGT associada a “retrocesso”
De fora do discurso público de Carvalho da Silva fica, por outro lado, a ideia de que exista algum ressentimento para com o PCP, ou um aparente afastamento de ordem ideológica: “Beneficiei ao longo de toda a minha presença no Partido Comunista das aprendizagens, de valores, de ensinamentos múltiplos. Tenho também para com muitos camaradas e para com o partido no seu coletivo uma grande gratidão e, quanto à minha relação, já disse tudo o que tinha a dizer”.
É também em tom moderado que fala sobre o momento de tensão com a UGT, que não vai estar representada no Congresso da Intersindical, apesar de ter sido convidada. Sem esclarecer se a CGTP admite recuar na intenção de avançar com um processo contra João Proença, Carvalho da Silva voltou a defender, na RTP, que “a questão fundamental” é perceber o que “o conteúdo” do acordo tripartido assinado por Governo, estruturas do patronato e União Geral dos Trabalhadores “significa, em cada medida concreta, para os trabalhadores”.
A CGTP, frisou, “mantém-se fiel aos compromissos que assumiu no pré-aviso” da última greve geral. Quanto ao posicionamento da UGT, Carvalho da Silva reiterou que a central sindical liderada por João Proença “merece, clara e inequivocamente, uma crítica em função daquilo que é o retrocesso nos conteúdos do acordo, porque uma coisa é reconhecer que estamos em queda, outra coisa é sancionar esse retrocesso e credibilizar, perante as pessoas, a inevitabilidade de coisas que não podem ser inevitáveis”. Em marcha, continuou, está “um profundo retrocesso social, um profundo retrocesso dos trabalhadores, uma diminuição da retribuição do trabalho, que não tem paralelo na vida da sociedade portuguesa depois do 25 de Abril”.
Na Grande Entrevista, Carvalho da Silva repetiu também que foi para não dar corpo a “objetivos de credibilização das políticas em curso” que a CGTP se retirou das recentes negociações em sede de concertação social.
“Reponham aí o discurso do primeiro-ministro na festa do PSD em setembro e ele diz para que é que quer a concertação social, as palavras são dele: convidar os parceiros sociais para credibilizar os sacrifícios necessários. Isto não é diálogo. E neste processo último, os patrões reconheceram que este acordo acabou por incidir apenas na legislação laboral. Tudo o resto que lá está são declarações de intenções”, arguiu.
“Foi anunciado ao país que este acordo vai resolver a produtividade e a competitividade. Tudo isso é treta. Está demonstrado que não resolve. É que mal terminou isto, vem um representante da troika e diz que é preciso ressuscitar a Taxa Social Única. Hoje já se ouviu patrões a dizer que é preciso a Taxa Social Única. Não param”.