Comissão dá nova oportunidade a Rui Pedro Soares
A Comissão de Inquérito sobre a alegada intervenção do Governo no plano da PT para comprar a TVI não aceita silêncio de Rui Pedro Soares e a comissão de coordenadores decidiu dar nova oportunidade chamando-o novamente a depor. Se na actual comissão os partidos da oposição consideraram a recusa como "crime de desobediência", no passado, na comissão sobre o BPN consideraram o silêncio, um direito de Oliveira e Costa para não se incriminar.
O ex-administrador da PT justificou a sua atitude explicando que, estando com o estatuto de arguido no processo Taguspark, "é um direito que me assiste e os deputados sabem-no e do qual não prescindo porque é a melhor forma de me defender no processo. Findo o processo estou disponível".
Apenas o Partido Socialista anunciou aceitar o direito do antigo administrador da Portugal Telecom ao silêncio. Todos os outros partidos acabaram por votar uma deliberação contra Rui Pedro Soares, acusando-o de ter cometido um crime de desobediência qualificada.
Finda a reunião da Comissão de Inquérito, e não satisfeita com a posição assumida pelo depoente, reuniu a comissão de coordenadores da Comissão de Inquérito que decidiu dar uma segunda oportunidade a Rui Pedro Soares. O antigo administrador será novamente chamado à comissão numa tentativa para que então aceite responder às questões levantadas pelos deputados.
Os coordenadores decidiram prosseguir com o processo que originará o envio de uma queixa para o Procurador-Geral da República em que o ex-administrador da PT é acusado do crime de desobediência qualificada, reiterando o entendimento dos deputados dos partidos da oposição de que nenhum depoente tem o direito ao silêncio.
Hoje crime de desobediência, ontem direito do arguido
O episódio desta quinta-feira contrasta com outro passado em 13 de Janeiro de 2009 numa reunião da então comissão de inquérito ao BPN.
Depunha então Oliveira e Costa, antigo presidente do BPN e arguido no processo com o mesmo nome. Então, o antigo secretário de Estado de Cavaco Silva recusava-se a responder às perguntas dos deputados que integravam a Comissão Parlamentar de Inquérito à nacionalização do Banco Português de Negócios.
Ao contrário do que hoje se passou, os vários partidos representados na comissão incluindo o PSD e o CDS-PP, aceitaram a justificação dada para a recusa em responder às perguntas e que era, à semelhança da dada hoje por Rui Pedro Soares, de que, sendo arguido num processo, era seu direito recolher-se ao silêncio no exercício de um direito constitucional.
Todos os partidos foram na altura unânimes em considerar que não poderia ser obrigado a responder a questões que pusessem em causa a sua defesa no processo judicial.
A 13 de Janeiro do ano passado falando à comunicação social à saída da reunião da comissão de inquérito à nacionalização do BPN, Hugo Velosa do grupo parlamentar do PSD dizia que "o grupo parlamentar do PSD aceita claramente a posição de Oliveira e Costa, porque a questão do segredo de justiça pode estar directa ou indirectamente ligada com o que dissesse. A posição de Oliveira e Costa parece-nos legítima".
Nuno Melo, deputado do CDS, chegou a insurgir-se com o facto de o magistrado que autorizou a ida à Assembleia da República de Oliveira e Costa, então detido à ordem do processo, ter recordado aos deputados a sua situação de arguido, que o protege das questões colocadas na comissão.
"Não só não damos lições sobre a forma como funcionam os tribunais, como não aceitamos que outro órgão de soberania nos tente dar lições", afirmou na altura o deputado centrista.
Outro arguido no mesmo processo relativo ao BPN, José Luis Caprichoso, ex-administrador da Sociedade Lusa de Negócios, invocou a condição de arguido para se recusar a responder às questões levantadas pela comissão de inquérito à nacionalização do Banco.
José Aguiar-Branco, deputado do PSD que presidia à comissão de inquérito ao caso BPN, confirmava que José Luís Caprichoso invocou o direito ao silêncio devido à condição de arguido de um processo de contra-ordenação do Banco de Portugal.
PS e PCP registam mudança de opiniãoO PS e o PCP assinalaram esta quinta-feira o facto de o PSD ter mudado
de opinião depois de, no ano passado, ter admitido que Oliveira e Costa
não respondesse a perguntas no inquérito ao BPN, acusação rejeitada
pelo líder da bancada social democrata.
"O que se passou na
comissão de inquérito (ao caso Governo/TVI) passou-se talvez três vezes
no BPN e não tivemos oportunidade de assistir a nenhuma questão que
levantasse tanta celeuma", disse o deputado do PS numa interpelação no
plenário.
Na sessão plenária da Assembleia de República, o
líder parlamentar do PCP aproveitou para dizer que o que se passou na
comissão de inquérito ao caso BPN "não é exatamente igual" à situação
destacando que no inquérito ao BPN "o PSD esteve ao lado do PS para
permitir que alguns não respondessem a comissões de inquérito".
O
deputado do PCP Honório Novo, que integrou a comissão de inquérito ao
caso BPN lembrou que a sua bancada "propôs uma participação ao
Ministério Público" por crime de desobediência qualificada depois de
Oliveira e Costa e outras testemunhas terem negado prestar depoimento.
"Foi chumbado porque o PS e o PSD não o quiseram", disse.