Compensações às famílias por atrasos nos exames? "Mais vale acreditar no Pai Natal"

Compensações às famílias por atrasos nos exames? "Mais vale acreditar no Pai Natal"

A polémica com as falhas nos exames nacionais volta a marcar a semana, com novas críticas ao ministro da Educação. Oposição diz que Fernando Alexandre está "perdido" e critica o silêncio de Montenegro. PSD reitera confiança no governante e alerta para "drama excessivo"

Inês Ameixa /

Fotografias: Andreia Brito

A polémica com as falhas nos exames nacionais volta a marcar mais uma semana, em que aumenta a contestação de alunos, pais e professores, ao mesmo tempo que o ministro da Educação, admitindo erros, continua a garantir que tudo vai ser resolvido. 

No programa Entre Políticos, o PSD lamenta que se esteja a criar um "drama excessivo", enquanto que os partidos da oposição alinham no coro de críticas ao ministro Fernando Alexandre.

Maria José Aguiar, deputada do Chega e coordenadora do grupo parlamentar na Comissão Parlamentar de Educação, aponta um ministro da Educação que está "perdido". "Temos um ministro que está um bocadinho perdido no meio destas situações. Eu não sei se ele está bem assessorado porque, no fundo, ele vai-se contradizendo", afirma, lembrando o "comentário infeliz" do ministro da Educação, quando classificou como "imprudente" o facto de existirem pais a tirar férias durante o período de exames e correcções.
Para a deputada do Chega, "a ansiedade está criada", num momento "crucial" das famílias e alunos. Maria José Aguiar sublinha que o adiamento da afixação das notas para dia 17 de Julho, bem como da segunda fase dos exames, está a "criar problemas", que "sendo pontuais ou não", estão a levar, entre outros, a que "jovens tenham exames marcados para o mesmo dia e à mesma hora".

Sobre se deve ser ponderada a demissão do ministro da Educação, a deputada do Chega espera para ver. "O que queremos que aconteça é que haja uma conclusão deste processo, porque não podemos deixar as famílias e jovens em suspenso nesta situação", resume.
PSD não vê "necessidade" em explicações de Montenegro e reitera confiança no ministro da Educação
Já Pedro Alves, deputado do PSD e membro da Comissão Parlamentar de Educação na Assembleia da República, sai em defesa do ministro da Educação, que "tem conseguido encontrar soluções em função daquilo que são as dificuldades", dizendo que "não há necessidade" em esclarecimentos do primeiro-ministro, que se tem mantido em silêncio sobre as falhas nos exames nacionais.

Agora é preciso deixar o processo decorrer e aguardar pelo desfecho do dia 17 de julho, defende Pedro Alves, assumindo que "são normais e naturais" as críticas da oposição, "algumas com sensatez, outras sem fundamento". Para o social-democrata, é também "natural" que um processo de mudança e transformação como este, que "é exigente e inovador", "tenha este tipo de situações que geram algum contratempo", mas que foram "identificadas com tempo e para as quais foram dadas respostas", garante.
Sobre o transtorno relatado por famílias e alunos, Pedro Alves, do PSD, considera que "não há um impacto extraordinário" fruto dos problemas relacionados com os exames nacionais e que "não está em causa o início do processo de candidaturas ao Ensino Superior".

"Estamos a criar um drama excessivo, eu não vejo os alunos com essa ansiedade tão grande",nota, acrescentando que "os alunos nunca serão prejudicados", garantia já deixada pelo ministro da Educação.
Um ministro "em negação", ataca o Partido Socialista, que critica a "alteração orgânica do Ministério da Educação"
Tal como o Chega, também o PS não pede a demissão do ministro Fernando Alexandre. "O que o Partido Socialista mais quer neste momento é que o processo chegue ao fim e se resolva com sucesso. Depois, sim, haverá tempo e oportunidade para o escrutínio político para perceber efectivamente o que se passou", diz Aida Carvalho, coordenadora do grupo parlamentar do PS, na Comissão de Educação no Parlamento.

No programa Entre Políticos, a deputada aponta três dimensões no problema relacionado com os exames nacionais do Ensino Secundário: "A decisão política, a execução administrativa e o impacto pedagógico". E critica "a alteração orgânica do Ministério da Educação e uma redução substancial de 50% dos seus recursos humanos", sobre o qual Fernando Alexandre "andou a embandeirar em arco".
A socialista Aida Carvalho explica que essa redução nos recursos humanos e a "externalização dos serviços" levaram a uma gestão de mudança "atabalhoada e pouco cautelosa", criando uma "crise de confiança" no sistema educativo. Portugal "tem 30 anos de saber acumulado e experiência positiva em relação aos exames nacionais, mas neste momento há a percepção pública de algum desconforto e insegurança", conclui, acusando o ministro da Educação de estar em "negação" e de faltar "constantemente à verdade".

"No dia 7 [de julho], Fernando Alexandre garantiu que tinham sido distribuídas 60% das provas e que até ao fim do dia seriam entregues a 100%. Ontem [8 de julho] deu nota de que tinham sido apenas distribuídas 93% das provas", atira, concluindo que "no dia seguinte, o ministro entrou em contradição com o dia anterior".
BE aponta à "obsessão liberal" de Fernando Alexandre de "desmantelar Ministério"
As críticas são partilhadas pelo Bloco de Esquerda, que aponta "três décadas" de um sistema de exames nacionais "no qual os portugueses confiavam e já não confiam". Fabian Figueiredo sublinha que há decisões políticas que é preciso apurar e auditar "a sério" e que a falha principal "começa na obsessão liberal deste ministro de desmantelar o Ministério da Educação".

Fernando Alexandre "gabou-se de ter dispensado metade dos recursos humanos e extinguiu o gabinete que durante anos tratava dos exames nacionais", acusa Fabian Figueiredo, no programa Entre Políticos. O deputado diz que com esse processo se gerou uma "poupança de 50 milhões de euros", exigindo ver "essas contas", acrescentando que o que o ministro fez foi "dispensar estas pessoas que eram o coração, o pulmão, do Ministério da Educação e dispersou-as por outros serviços".
Sobre o silêncio do primeiro-ministro, Fabian Figueiredo é claro: "Espero que, quando Luís Montenegro recuperar do jet lag, consiga dar uma palavra de tranquilidade aos portugueses para garantir que isto nunca mais acontece".
Compensações às famílias lesadas por atrasos nos exames? "Mais vale acreditar no Pai Natal"
A possibilidade de compensar as famílias lesadas pelos atrasos em todo o processo relacionado com os exames nacionais foi colocada em cima da mesa pelo ministro da Educação, sem adiantar mais pormenores. Questionado sobre essa hipótese, Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, diz-se "muito expectante" e quer saber junto do Ministério da Educação e do Ministério das Finanças como é que o processo seria "operacionalizado".

Já Maria José Aguiar do Chega, vai mais longe: "Seria abrir um precedente inédito no nosso país. Se alguém acredita que isso irá efectivamente acontecer, eu digo mais vale acreditar no Pai Natal". Para a socialista Aida Carvalho, as possíveis compensações às famílias prejudicadas são "mais uma falácia" de Fernando Alexandre, que "está sempre a mentir". E para o social-democrata Pedro Alves, é preciso ver "o enquadramento para isso ser feito", confirmando-se que existem, do ponto de vista jurídico-legal, "mecanismos legais para actuar nesse sentido".

Na reta final do programa de atualidade política da RTP Antena 1, os quatro deputados convidados foram desafiados a dar uma nota de 0 a 20 valores a todo o processo e gestão do caso relacionado com os exames nacionais, que tem marcado as últimas semanas:

Maria José Aguiar, Chega: "4. O ministro da Educação chumbaria";

Aida Carvalho, PS: "Daria um 3";

Fabian Figueiredo, BE: "Daria um zero, porque o ministro não entregou sequer o enunciado";

Pedro Alves, PSD: "Sobre a gestão do processo desde que foi criado o problema, dou um 16 a Fernando Alexandre".

O programa Entre Políticos foi moderado pela jornalista Inês Ameixa.
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