Debate na RTP3. PAN pede mais "transparência" do lobbying, PCP ataca "negociatas" das privatizações

Debate na RTP3. PAN pede mais "transparência" do lobbying, PCP ataca "negociatas" das privatizações

Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP, e Inês Sousa Real, do PAN, estiveram em debate esta terça-feira na RTP3. Um dos temas que dominou a discussão foi a regulamentação do lobbying, uma medida considerada "essencial" pelo PAN para o combate à corrupção. O líder do PCP defende, no entanto, que o principal foco da corrupção está nas privatizações, dando o exemplo da privatização da ANA.

Andreia Martins, Rachel Mestre Mesquita - RTP /
Foto: Pedro Pina - RTP

Num debate cordial entre os dois candidatos, Inês Sousa Real considerou que a regulamentação do lobbying poderá garantir que “todos têm acesso à tomada de decisão” e dá o exemplo do Parlamento Europeu, que fez avanços na regulamentação e aumentou a transparência.

“O PAN considera que é importante que se saiba quem se senta à mesa com o poder”, defendeu. "Se a legislação de lobbying já estivesse em vigor no caso de Sines, saberíamos com quem João Galamba se sentou", destacou ainda.

Destacou ainda o combate às “portas giratórias” e argumentando que não se pode “diabolizar o que pode ser o contributo da sociedade civil”.

Paulo Raimundo insistiu que o “foco onde se dá toda a negociata e o compadrio são as privatizações” e que o problema não é o de maior transparência. O secretário-geral do PCP sublinha, por exemplo, que no caso da privatização da ANA “foi tudo às claras” e foi um caso de “bom negócio para alguns, muito mau negócio” para os portugueses.

Considerou ainda que o lobbying e tráfico de influências são realidades distintas “mas uma coisa está ligada à outra”. “Não ganhamos no combate à corrupção se passarmos a legalizar um aspeto que hoje só é ilegal”, acrescentou.

Raimundo rejeitou todos os que tentem legalizar o lobbying tenham motivos obscuros e reconhece que existem "motivações diferentes" entre os vários partidos, sublinhando que os "grandes beneficiários não serão o PAN ou a CDU".

Os dois líderes concordam, no entanto, que “não existe uma medida de ouro no combate à corrupção”.

Neste debate conduzido por João Adelino Faria, outro dos temas centrais foi o da agricultura. Paulo Raimundo rejeitou que o sufoco dos agricultores seja a “regulamentação excessiva em matéria de regulamentação fiscal".

“O sufoco que vivem é o sufoco da Política Agrícola Comum”, argumentou o secretário-geral do PCP, bem como o “aumento dos custos de produção e a ditadura da grande distribuição”.

Quando questionado sobre a redução de impostos sobre pesticidas e fertilizantes, Paulo Raimundo sugeriu que o Estado se assumisse "centro de compras" e depois revendedor aos pequenos produtores

Em resposta à mesma questão, a líder do PAN defendeu “uma solução equilibrada, que é não mexer nesses impostos mas sim aliviar a aquisição de produtos biológicos e de produtos que possam garantir e apoiar os agricultores a ter boas práticas”.

“Não podemos continuar a investir dinheiro onde se polui e onde se causa dano contra a própria atividade, ao invés de incentivarmos as boas práticas e ajudarmos na transição económica que o país tem que fazer”, salientou.

Inês Sousa Real defendeu o contributo do Estado para ajudar os agricultores a fazerem essa transição. “A economia verde não se faz sozinha, os apoios têm que chegar a quem tem melhores práticas e não a quem mais lucra e mais polui”, afirmou.
A líder do PAN acusou o PCP de não apoiar o PAN na aprovação da lei do Clima, que considerou serem “são instrumentos fundamentais para garantir que os produtores têm apoio do Estado na transição climática e energética”.

Em resposta a Inês Sousa Real, o secretário-geral do PCP disse não ter apoiado o PAN na aprovação da lei do Clima, uma vez que o PAN não apoiou a proposta de apoios extraordinários para os agricultores em 2023, feita pelo PCP.
PCP rejeita falta de médicos e enfermeiros, PAN admite PPP's no "curto prazo"
O tema da falta de médicos e profissionais de saúde no país também marcou o confronto desta terça-feira entre os líderes do PCP e do PAN.

Quando questionado sobre a promessa eleitoral feita pelo PCP de um “médico e um enfermeiro para cada português”, Paulo Raimundo assegura que não é impossível cumprir apesar de não avançar com uma previsão temporal.

“Nós não temos um problema de falta de médicos nem de enfermeiros no nosso país”, garantiu Paulo Raimundo. “Nós temos é um problema de falta de médicos e enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, acrescentou.

Para solucionar o que disse ser um desmantelamento em curso do Serviço Nacional de Saúde, o secretário-geral comunista apresentou duas medidas: “acarinhar, reter e respeitar os médicos, enfermeiros e técnicos do SNS” e “criar as condições para que outros que estão hoje noutros setores (privados) possam vir para o SNS”.

Ao contrário da ideia defendida pelo PCP, a porta-voz do PAN afirmou que existe um problema de défice de profissionais de saúde no país e que “o problema não se esgota na questão da fuga dos médicos do público para o privado”, acrescentando o problema da emigração e da exclusividade opcional de médicos e enfermeiros.

“Os médicos de família devem ser encarados como a base da prevenção da saúde, porque se garantirmos que cada português tem efetivamente um médico de família (…) vamos conseguir aliviar a pressão que existe hoje em dia nos Centros Hospitalares, em particular nas urgências”, defendeu a líder do PAN.

Inês Sousa Real concorda que o recurso às Parcerias Público-Privadas (PPP) não é uma solução para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas defende que poderá ser “uma opção a curto prazo” se não houver alternativa.
PAN fala de "linhas vermelhas", PCP lembra "experiência acumulada" de 100 anos
Questionados sobre o cenário pós-eleitoral, Inês Sousa Real vincou que o PAN tem “linhas vermelhas que não está disponível a ultrapassar”, nomeadamente no apoio à extrema-direita.

Em relação à possível ajuda ao PS para afastar um governo de direita, a deputada salientou que “terá de ser o PS a dar essa resposta” mas que o PAN já deixou claro que “qualquer solução terá sempre por base um acordo escrito”.

Por sua vez, Paulo Raimundo não quis dissertar sobre uma possível reedição da geringonça para voltar a afastar a direita do poder. O secretário-geral do PCP sublinhou que tudo depende da correção de forças que sair das eleições.

O líder dos comunistas fez ainda valer-se dos mais de 100 anos de história de "experiência acumulada" do PCP, assinalando que “não há força com mais experiência em Portugal (…) de combate à direita”.

O debate terminou com uma questão sobre as perspetivas de sobrevivência política dos dois partidos. Inês Sousa Real assinalou que PAN foi o partido da oposição que “mais medidas conseguiu aprovar” e que o partido pode ser visto pelos portugueses como “uma força útil”.

Já o líder do PCP, Paulo Raimundo, não quis comentar a perda de deputados nas últimas eleições legislativas, preferindo destacar o maior número de votos da CDU nas eleições regionais da Madeira e dos Açores, ainda que continue de fora do assembleia legislativa desta última região autónoma.
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