Espanha leva TGV até à fronteira com ou sem Lisboa
O ministro espanhol do Fomento manifestou preocupação com a possibilidade de uma alteração de Governo em Portugal implicar a paralisação do TGV. José Blanco deixa no entanto claro que Madrid fará avançar a alta velocidade até à fronteira portuguesa, ainda que um futuro Governo de Lisboa se decida pela suspensão dos troços portugueses.
Num comentário às declarações proferidas por Ferreira Leite durante o debate com o primeiro-ministro José Sócrates, na noite de sábado, Blanco garantiu que "ninguém quer que (Portugal) seja uma província espanhola", sendo a alta velocidade um projecto que irá beneficiar Portugal e os portugueses.
Durante o debate televisivo deste sábado, a líder da Oposição apresentou uma perspectiva do dossier TGV segundo a qual, tratando-se de um projecto transfronteiriço, a alta velocidade portuguesa seria importante para que Espanha tivesse mais fundos estruturais.
"Não gosto dos espanhóis misturados com os portugueses. Não gosto dos espanhóis metidos na política portuguesa. Eu não tenciono resolver os problemas de Portugal em função dos interesses espanhóis", afirmou então Ferreira Leite.
Ferreira Leite compreende preocupações mas mantém posição
A líder social-democrata, confrontada num primeiro momento com as declarações do ministro espanhol do Fomento, durante a tarde de domingo, considerou normal a preocupação por este manifestada a propósito das suas intenções de suspender o TGV, mas recusou recuar na sua posição.
"É normal que o tenha feito", afirmou Ferreira Leite, acrescentando que, se for escolhida pelos portugueses para primeira-ministra, irá "negociar com todos os que estão envolvidos no projecto".
Questionada já hoje sobre as novas reacções das autoridades espanholas, Manuela Ferreira Leite considerou que as posições de Madrid apenas vieram dar-lhe razão e confirmar que "há interesses espanhóis" no projecto português."A reacção do Governo espanhol vem dar razão àquilo que eu disse, que há efectivamente interesses espanhóis neste empreendimento", sublinhou a líder social-democrata durante uma visita às termas de Cabeço de Vide, no concelho de Fronteira.
Ferreira Leite sustentou que a sua defesa são "os interesses de Portugal, do país. Lastimo não fazer comentários acerca do que é que pensa o Governo espanhol".
Em resposta a José Sócrates, a líder da Oposição manifestou-se "perplexa que haja um primeiro-ministro que considere que a defesa da independência económica do país, da independência do país em relação a qualquer outro seja uma política baixa ou que seja um ataque baixo".
Sócrates apontou "ataque baixo" do PSD
Numa acção de campanha em Évora, José Sócrates regressou ontem às declarações de Manuela Ferreira Leite para considerar que foi um "ataque baixo" a ideia deixada pela líder social-democrata durante o debate do último sábado na televisão de que os socialistas portugueses defendem a alta velocidade para fazer "um jeito aos espanhóis".
Defendendo que no PS "só há patriotas", Sócrates lamentou os argumentos da líder da Oposição considerando que são comentários que ofendem "a história e o currículo e o esforço de todos os socialistas, que dão o seu melhor pelo seu país".
"O argumento mais extraordinário que foi usado ontem no debate e hoje reafirmado é o argumento segundo o qual estamos empenhados na construção da alta velocidade para "fazer o jeito" aos espanhóis, a soldo de Espanha. Isto significa um ataque baixo, um ataque anti-democrático, um ataque que é um ataque do passado, não é um ataque dos dias de hoje", lamentou José Sócrates para acrescentar que "a nossa democracia não merece ouvir isto".
Extremadura lamenta posição da líder do PSD
O presidente do governo regional da Extremadura espanhola já considerou que a suspensão do TGV entre Portugal e Espanha "provocaria uma crise entre os dois países". Criticando a oposição de Manuela Ferreira Leite ao projecto, Guillermo Fernández Vara lamenta a posição da líder do PSD, a quem acusa de "apelar aos instintos mais primários dos portugueses, quer dizer, o anti-espanholismo" e pede ao Governo de Madrid que acompanhe a situação.
A imprensa regional registou a irritação do governante socialista, que vê nas posições de Ferreira Leite uma ameaça aos interesses da Extremadura espanhola: "Se o fizesse provocaria uma crise entre ambos os países. Quem iria querer assinar qualquer tipo de acordo com um Estado que depois não cumpre os seus compromissos".
Por agora, Fernández Vara deixa para o Governo de Zapatero o acompanhamento da situação, afirmando ainda que, "de qualquer maneira, não consigo imaginar que, ainda que (Manuela Ferreira Leite) ganhe as eleições, acabe por paralisar as obras do TGV" uma vez que "estaria a pôr em causa o respeito entre países".
A semelhança de Fernández Vara, o presidente do Partido Popular na Extremadura faz igualmente recair sobre o Executivo de José Luís Rodríguez Zapatero a incumbência de fazer cumprir os prazos da alta velocidade na região.
"Se há um pacto assinado desde 2003 entre Espanha e Portugal que implica o arranque da alta velocidade, este tem que ser respeitado", considerou José António Monago.