Montenegro "é uma Maria vai com as outras, vai com todas", critica Marta Temido

Montenegro "é uma Maria vai com as outras, vai com todas", critica Marta Temido

"A tática «Maria-vai-com-as-outras» não vai funcionar para um Governo que se anunciava como um Governo que vinha para fazer reformas". É desta forma que a antiga ministra da Saúde socialista e atual eurodeputada se refere ao primeiro-ministro. Considera que Luís Montenegro está a hipotecar relação de confiança com o PS.

Andreia Brito com Natália Carvalho - RTP Antena 1 /

Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas

Em entrevista ao podcast da Antena 1, Política com Assinatura, Marta Temido reage à moção de estratégia de Luís Montenegro que defende o compromisso de “não ter uma solução de Governo nem com o Chega nem com o PS”.

Questionada pela editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, “disse que ele é um «Maria-vai-com-as-outras»...”, Marta Temido interrompe e atira: “vai com todas, vai com quem lhe parece que lhe dará circunstancialmente maior ganho”.

Mas para Temido isso é impossível “porque não é possível ter estabilidade num relacionamento com essa aleatoriedade e pouca confiança que nos dá o relacionamento”.
Muito crítica do desempenho do primeiro-ministro, a eurodeputada socialista entende que “Montenegro está a hipotecar uma relação de confiança com o PS e está a hipotecar princípios”. E avança com o exemplo da imigração: “uma coisa é arrepiar caminho, outra coisa é radicalizar o discurso, instrumentalizar as pessoas e as perceções. (Luís Montenegro) cavalgou aquilo que é o medo do outro”.

E lança outro exemplo, a revisão laboral: “cometeu um erro colossal porque ninguém pediu esta reforma. Não percebeu que não podia fazer esta reforma sem ter o apoio das estruturas sindicais. Deixou que se criassem clivagens. E tornou a situação praticamente irreversível”.
Imigração: “PS errou: não leu a realidade”
Se por um lado Marta Temido reconhece que os Governos de António Costa foram “assertivos e corajosos”, e exemplifica com questões de política interna, por outro lado a socialista considera que “não foram tão corajosos como eu gostaria que tivéssemos sido, por exemplo quanto ao reconhecimento da Palestina”.

E dá outro exemplo: a imigração. “Acho que esse foi um dos temas relativamente aos quais, os nossos Governos, a determinado momento, perderam o pé face à realidade”.

E continua: “o PS quando esteve no Governo não contou que a realidade mudasse tão depressa e que os serviços públicos não tivessem capacidade para acomodar aquilo que foi uma explosão populacional”.

O PS errou: não leu a realidade”, remata.
Recusa que seja uma crítica direta ao antigo primeiro-ministro, António Costa, até porque, reconhece, que naquele momento era preciso ter “um foco muito específico”. Ainda assim vai dizendo que “há uma dimensão de política interna na qual acho que fomos muito bons, mas há uma dimensão de política externa na qual eu acho que podíamos ter sido mais audaciosos”.
Pedro Nuno Santos “foi vítima da sua forma intempestiva”
Vaidade, ego, protagonismo. São as palavras que Marta Temido utiliza quando se refere a Pedro Nuno Santos e ao que o antigo líder do PS disse quando regressou ao Parlamento para retomar o seu lugar de deputado e afirmou que "tenho muito mais respeito por José Luís Carneiro do que pelos taticistas que se escondem atrás da porta à espera que o vento mude a favor do PS ou da Esquerda para avançarem para a liderança do partido".

A socialista afirma que “sempre que as leituras de um partido se deixam arrastar às vezes pela vaidade, às vezes pelos egos e às vezes pelo gosto de protagonismo...”. E pergunta a editora de política da Antena 1: “foi isso que aconteceu?”. Temido responde: “é o que nos acontece muitas vezes

E atira que “às vezes, não são disputas ideológicas, são disputas de território”.

Quanto à liderança de Pedro Nuno Santos, Marta Temido considera que “teve o infortúnio, a circunstância, de deixar que se lhe colasse um adesivo na testa que é o adesivo de radical”.

A imagem de se ser radical é uma imagem que hoje não conquista muitos amigos” porque, diz, a sociedade teme os radicalismos.

E será Pedro Nuno Santos um radical? “Acho que é muito menos radical do que aquilo que parece. Como o José Luís Carneiro é muito menos moderado do que aquilo que parece”.

“(Pedro Nuno Santos) quando foi mais genuíno saiu-se melhor. Quando tentou fazer uma moderação imposta pelos críticos internos, saiu-se menos bem. E foi vítima da sua forma intempestiva” de falar e transmitir as suas ideias, conclui.
Dentro do PS “há alguns tiros nos pés”
Nos próximos tempos Marta Temido não vê necessidade de encontrar um novo líder para o PS de forma a substituir José Luís Carneiro.

Defende que “por vezes até há alguns tiros nos pés que são tudo menos calculo político. São uma maior lealdade e lisura relativamente àquilo em que se acredita e às ideias que se querem defender, que às vezes são tiros nos pés”.

Ainda assim acredita que o atual líder “fez a pacificação do partido, fez as pazes com a sociedade portuguesa. Agora falta fazer o resto, que é construir uma alternativa de Governo que esteja preparada para o próximo ciclo eleitoral”.
Durante a entrevista à editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, a eurodeputada defende, por diversas vezes, a liderança de Carneiro, dizendo que tem sabido impor-se por si própria e que a oposição que faz ao Governo é moderada.

Adianta ainda que não ficou magoada por o secretário-geral do PS a ter tirado da comissão nacional e que entende que a decisão foi pelo partido e não para agradar aos militantes.
Temido sobre Seguro e o pacote laboral: “Foi uma linha vermelha que agora não pode ser invertida”
Marta Temido afirma que, quando António José Seguro garantiu, durante a campanha para a Presidência da República, que vetaria a lei laboral caso não houvesse acordo na concertação social, “foi uma linha vermelha que agora não pode ser invertida”. “Imagino que tenha sido uma linha vermelha bem pensada”, acrescenta.
 Nesta entrevista analisa ainda o mandato, até agora, de António José Seguro enquanto Presidente da República.

Três meses é um período curto. É um atrevimento classificar o que quer que seja por três meses”, mas destaca a proximidade do Chefe de Estado na resposta ao carrocel de tempestades que atingiram o país.

Esperamos que não se instale nenhuma fadiga porque este estilo que o senhor Presidente da República tem estado a definir (mais moderado, mais sóbrio, mais estável, mas com propositura, deixando as pistas para quem tem de governar, governe)... e se o Governo não souber governar, corre o risco de fazer ricochete para o próprio Presidente da República”, conclui.
Marta Temido duvida do sucesso do Pacto para a Saúde
Sobre a iniciativa do Presidente da República (PR) promover um pacto na área da saúde, Marta Temido diz ter dúvidas do sucesso dessa pretensão de António José Seguro.

O estado a que chegámos em matéria de saúde leva a que tudo seja muito difícil” e explica por isso que “da iniciativa não duvido, do sucesso da iniciativa, disso tenho muitas dúvidas”.
Adianta que tem essas dúvidas porque assiste a “visões alicerçadas em preconceitos e não em factos”, e dá como exemplo as Parcerias Público Privadas (PPP) na área da Saúde.

Já não se aguenta ouvir dizer que as PPP não são possíveis legalmente, porque são!” e, munida da Lei de Bases da Saúde, Marta Temido leu, durante esta entrevista, o que diz a legislação.

Afirma que a lei “é muito clara quando diz que «o Estado pode, de forma supletiva e temporária celebrar acordos com entidades privadas»”. E relembra: “fui eu que assinei o diploma que regulamenta a forma de fazer as PPP”.

Acusa o Governo de, nesta matéria, “estar à procura de um alibi”, mas depois afirma que “o alibi de que não é possível ter uma boa combinação de público e privado interessará a quem não quer que o sistema não funcione e não acredito que seja o caso nem do primeiro-ministro nem da ministra da Saúde”.
Nesta entrevista, na qual a saúde foi tema incontornável, a antiga responsável pela pasta assumiu que “o Serviço Nacional de Saúde (SNS), com as regras que tem, não consegue dar resposta”. Nem o SNS nem o INEM diz Marta Temido, que mostra dúvidas em relação às mudanças no Serviço de Emergência Médica porque "não se está a atacar a raiz do problema”.

E deixa culpas: à ministra da Saúde “por não ver a realidade e por procurar alibis” e responsabiliza o primeiro-ministro por não conseguir mexer de forma mais profunda na orgânica da Saúde.
Ainda assim deixa um elogio ao Governo. Marta Temido considera que as alterações ao regime referente aos médicos tarefeiros “vão no bom sentido” porque não cria uma guerra com os prestadores de serviço.

Não podemos continuar a ter estas instituições a funcionar com base na tarefa”, remata.
Liderar o PS? “É uma impossibilidade”
Marta Temido garante que a liderança do PS “é um fato que não é meu”.

Admite que não conhece suficientemente o partido, aquilo a que chama de “a máquina do partido”, e que “gosto muito da minha liberdade e mesmo dentro do partido a minha posição, muitas vezes desalinhada, mesmo que seja silenciosa, não me permite ter as condições que reconheço noutros camaradas para a liderança de um partido político”.

É um fato que me fica curto, pequeno, grande, não sei muito bem como caracterizar... mas é um fato que não é meu”, ironiza.
Entrevista conduzida por Natália Carvalho, editora de política da Antena 1.
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