Montenegro tem relação "abusiva e doentia" com a oposição, acusa Rui Tavares

Montenegro tem relação "abusiva e doentia" com a oposição, acusa Rui Tavares

"Acho absolutamente... quase que doentia e abusiva o tipo de relação em que Luís Montenegro quer meter a política nacional", afirma Rui Tavares.

Andreia Brito com Natália Carvalho /

Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas

Em entrevista ao podcast Política com Assinatura, o ainda porta-voz do Livre, acusa o primeiro-ministro de “negociar as coisas com o Chega e dá-se ao luxo de entrar nesta espécie de ritual de caricaturização e de humilhação da esquerda, e nomeadamente do PS, e, depois, no fim do ano, apresenta a fatura: «venham cá aprovar o Orçamento do Estado para governarmos mais um ano»”.

Rui Tavares refere-se à viabilização do Orçamento do Estado para 2027 (OE27), sobre a qual propõe ao PS que não passe um cheque em branco ao Governo e recomenda a Montenegro que negoceie com todos os partidos com assento parlamentar se quiser ter orçamento para o próximo ano.

Ainda assim sugere que tem dúvidas se será do interesse do primeiro-ministro e do líder do grupo parlamentar do PSD terem o OE27 aprovado.

“Pergunto-me muitas vezes se o tipo de tática que Luís Montenegro e Hugo Soares têm seguido não é um tipo de tática cujo objetivo final seria, um dia, atirar a toalha ao chão e dizer «a culpa é dos outros, vamos para eleições e deem-nos uma maioria absoluta”, afirma.

E envia um recado ao chefe do Governo: "desde o pacote laboral para a frente, já devia ter aprendido e devia ter tido a humildade de chegar ao Parlamento e dizer: «isto não funcionou»”.
Críticas de Passos ao Governo “há aqui uma farsa”
Rui Tavares duvida da veracidade das declarações críticas do antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, ao atual Governo. "Às vezes é um arremedo. Há aqui uma farsa”, critica.

E dá o exemplo de eventuais alterações à Segurança Social: “dão a impressão de que há umas diferenças, mas todos, todos sem exceção, veriam com bons olhos aquilo que eles chamam de mecanismos alternativos que é na verdade a privatização da Segurança Social”.

O líder do Livre refere-se ao Governo e ao PSD dizendo que “eles são todos Pedro Passos Coelho. O Hugo Soares de Pedro Passos Coelho era Luís Montenegro. André Ventura foi apadrinhado por Pedro Passos Coelho...”.
“É preciso tirar a política do esgoto”
Rui Tavares não tem dúvidas: “Luís Montenegro e a política de hoje em dia precisa de oposição”.

O porta-voz do Livre afirma mesmo que “alguma da política que se faz hoje em dia... é preciso tirá-la do esgoto em que está metida”.

E explica o porquê dessas suas declarações. “Vemos uma política egoísta, agressiva, muitas vezes malcriada, que desrespeita e avilta as instituições, e isso perante alguma passividade que, historicamente, me parece perigosa”.

Lamenta aquilo que diz ser o desrespeito para com o Parlamento e que “a mentira seja uma maneira usual de fazer política”, sem, no entanto, nunca nomear os partidos que o fazem.
Tavares acrescenta que “o país está numa via que é a via de ir atrás do dinheiro fácil” e exemplifica com o que se passa no setor imobiliário, no turismo de massas e nos jogos online e nos casinos.
Subida do PS? “É uma boa notícia”
A subida do PS nas sondagens é para Rui Tavares “uma boa notícia”. Mas sublinha que “é uma subida ao centro. O PS não está a ocupar uma centralidade à esquerda. Está a ocupar uma centralidade ao centro”.

E inclui outro «mas»: “eu tenho pena que o PS não tenha um grito de alma em que diga a Luís Montenegro que tem de se comprometer que a revisão constitucional, a haver, é sobre os temas que estavam em cima da mesa como urgentes, mas minimalistas”.

A revisão da Constituição é uma das maiores preocupações para o LIVRE, “e aí é que mais audácia, mais firmeza e uma política mais vocal por parte do PS seria importante”.

Questiona a jornalista: “o PS não tem essa capacidade?”. Resposta: “o Livre tem mais liberdade para o fazer”.
Livre não é um partido de nicho
Está de saída da liderança do Livre, mas não de saída do partido e recomenda por isso que “o Livre deve preparar-se para Governar. Para ser Governo”.

Rui Tavares acredita que o partido que fundou tem "vocação maioritária” e fala mesmo da constituição de uma maioria progressista.

Pergunta por isso a jornalista Natália Carvalho: “o PS é o parceiro ideal?”. Responde Rui Tavares: “queremos formar maiorias progressistas. Neste momento há uma maneira de formar uma maioria progressista: é o PS continuar a crescer e é o Livre ter 10% ou mais”.
Perante o assumir dessa possibilidade, a editora de política da Antena 1 provoca Rui Tavares: “podemos vê-lo no PS?”. O ainda líder do Livre é perentório: “não, nunca, não!”.

Para além de argumentar diferenças entre os dois partidos, Rui Tavares afirma que “com o PS sozinho à esquerda ou a governar sozinho em maioria absoluta, o país anda muito devagarinho e a governação acaba por ser muito hesitante”.

Entende que “é saudável que haja dois partidos à esquerda que possam governar em conjunto” e até já imagina o futuro: “um dia um partido ocupará a chefia do Governo e o outro será parceiro com ministros e secretários de Estado”.
Rui Tavares deixa a liderança do Livre no Congresso marcado para o próximo fim de semana, a 10, 11 e 12 de julho, e garante que o facto de o Livre manter uma liderança bicéfala “não é assim tão singular. Não é uma questão de remendo. Não é uma solução improvisada”.

A entrevista a Rui Tavares foi conduzida pela editora de política da Antena 1, Natália Carvalho.
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