"O nosso Bloco acabou". Sessenta militantes abandonam Bloco de Esquerda

"O nosso Bloco acabou". Sessenta militantes abandonam Bloco de Esquerda

Numa carta conjunta, os militantes escrevem que "o Bloco a que aderimos e ajudámos a construir com entusiasmo e empenho já não o é".

Joana Raposo Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: António Cotrim - Lusa (arquivo)

Sessenta militantes do Bloco de Esquerda, incluindo antigos deputados, autarcas, membros da Comissão Política e dirigentes nacionais e distritais anunciaram esta terça-feira a saída do partido.

Entre os subscritores da carta estão o militar de Abril e fundador do Bloco Mário Tomé e o ex-deputado Pedro Soares.

Sem pena, dadas as circunstâncias expostas, mas lamentando o fim de um projeto que se destinava a unir amplos setores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade, deixamos de ser bloquistas porque o nosso Bloco acabou”, explicam.

Os 60 signatários consideram que o partido “cedeu na afirmação de propostas” sobre o Serviço Nacional de Saúde ou a crise na habitação, assim como na abolição de medidas que vieram a estar na base do pacote laboral do Governo.

Dizem ainda que o BE “não foi claro na recusa da ofensiva contra lutas sindicais, como a dos motoristas de matérias perigosas e a militarização do direito de greve, o ataque à luta dos estivadores pelo contrato coletivo e a resistência à requisição civil, as medidas laborais na crise pandémica”.

Os militantes frisam que a “perda sucessiva de eleitos, sendo muito significativa e contínua, foi sintoma evidente de acentuada quebra de influência política e social” e “tornou-se insustentável”.

Além disso, acusam o partido de adotar uma estratégia de “esquerda grande” ou da “participação no governo, com indicação de ministros concretos”, substituindo uma estratégia autónoma, o que “levou ao caminho da derrota”.

Criticam também a “centralização das decisões num Secretariado sem competências para tal, mas omnipotente”, o que dizem ter levado ao afastamento “de quem expressava posições críticas ou alternativas”.

O restrito núcleo dirigente assumiu-se como incapaz de colocar em causa o rumo da geringonça. Passou a ser visto como um apêndice do PS. Da resposta política certa, o Bloco embarcou acriticamente na geringonça” e “afeiçoou-se à ideia de doces entendimentos”, consideram.

“Colocou como objetivo central (…) a participação no Governo, numa triste rendição a uma social-democracia por sua vez dissolvida no neoliberalismo” e “descredibilizou-se perante a opinião pública”, com resultados eleitorais que “não deixam margem para dúvidas”, lê-se na carta.

Lembram ainda que “a ausência de combate à política antissocial do governo de António Costa levou à penalização do Bloco pela linha ziguezagueante e incoerência do voto no Orçamento/2021, assim como pela convivência com o Governo de maioria absoluta que abriu o espaço à vitória da direita e à progressão e afirmação da extrema-direita”.
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