Oposição interna alerta direção para "perigo da maioria absoluta" e "risco de Narciso"
Os dirigentes do Livre eleitos pelas listas minoritárias alertaram hoje para os perigos da maioria absoluta obtida por Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto e para o risco de o partido se encantar com a própria imagem.
No 17º Congresso do Livre, que termina hoje em Sintra, Tiago Mota - eleito para o Grupo de Contacto (direção do Livre) pela lista V, com 9,4% dos votos - agradeceu às outras listas o "trabalho democrático de debate que aconteceu nestas últimas semanas", mas avisou a mais votada que "a responsabilidade de uma maioria absoluta traz poder absoluto também".
"É perigoso, todos nós sabemos. Sabemos porque no passado, na nossa democracia, tivemos várias maiorias absolutas e dentro do nosso partido também temos muitas minorias e sabemos a importância de as fazer ouvir", defendeu.
O dirigente do Livre mostrou-se disponível para colaborar e defendeu a importância do escrutínio da atividade do partido.
"Não é uma questão de perseguição, não é uma questão de crítica, nós precisamos salvaguardar a democracia e isso exige sempre transparência e escrutínio. Queremos começar uma nova forma de estar", disse.
Tiago Mota defendeu que é preciso garantir que o Grupo de Contacto oiça os militantes e apoiantes do partido e avisou que "não há desculpas para atrasos em orçamentos, não há desculpas para centralização no Parlamento".
"Porque nós estamos convosco, camaradas. Estamos mesmo convosco, queremos, sobretudo, trabalhar juntos", indicou.
Pela lista S, Rodrigo Brito considerou que o crescimento do Livre não se deveu "apenas às lideranças", foi "construído por muitas pessoas", e defendeu que o partido não "pode ficar prisioneiro" dessa subida.
"Há momentos em que os partidos em ascensão correm o risco de Narciso, de se encantarem com a sua própria imagem. Estes últimos tempos deram-nos alguns avisos disso e não podemos correr mais esse risco", alertou.
O eleito pela lista S - que conseguiu três membros para o Grupo de Contacto, com 20,8% dos votos - sustentou que o Livre teve "campanhas dignas e bem-sucedidas, causas justas e intervenções necessárias", mas também "momentos de estratégia pouco consequente ou hesitante, feita de gestos mais do que propostas concretas e rumos definidos".
"Tivemos decisões e negociações estratégicas tomadas apressadamente ou fora dos órgãos competentes, e o apagamento desses órgãos, por vezes em detrimento da sua vocação de colegialidade. Não podemos continuar a ter esse tipo de situação, temos de estar todos cá", salientou, pedindo "órgãos inteiros".
Rodrigo Brito considerou ainda que o congresso deu "sinais políticos que é preciso um rumo mais focado em problemas da economia, problemas concretos da vida das pessoas e problemas de transformação do sistema económico e social".
"E deu-nos sinais políticos que dão razão ao que já dizíamos há dois anos, da importância de cuidarmos dos nossos núcleos territoriais, de lhes dar autonomia, de lhes dar meios, mas não os controlar, de deixá-los fazer o seu trabalho. [...] Vamos assumir esses sinais políticos", pediu.
A lista A candidata ao Grupo de Contacto (direção) do Livre, encabeçada por Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto obteve hoje 432 votos, conquistando 11 de um total de 15 lugares.
De acordo com os resultados anunciados pela presidente da Mesa do 17.º Congresso, Patrícia Gonçalves, que decorreu no Hockey Club de Sintra, em Lisboa, a lista S, encabeçada pelo dirigente Rodrigo Brito conquistou três lugares (132 votos) e a lista V, liderada por Tiago Mota, conquistou um eleito (60 votos).
Em 2024, a lista A conquistou 10 dos 15 lugares, reforçando agora a sua representação com mais um lugar, e as listas opositoras das mesmas correntes, conquistaram três lugares e dois lugares respetivamente.