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Lei Laboral em discussão no Parlamento

Pacote laboral. Chega exige PS fora das negociações

Pacote laboral. Chega exige PS fora das negociações

No dia em que o pacote laboral proposto pelo Governo é debatido na Assembleia da República, o Chega aponta negociações em curso com o PSD, mas deixa um recado ao Governo: se quiser ter sucesso nas negociações com o Chega, deve deixar de fora do debate o Partido Socialista.

João Alexandre /
"Se quiserem negociar com o PS, negoceiem com o PS. Têm toda a legitimidade. Nós não colocamos linhas vermelhas sobre com quem o Governo deve falar. Agora, tem de haver uma escolha, obviamente", disse, no programa Entre Políticos, o deputado Bruno Nunes, que se mostra otimista: "À hora a que aqui estamos continuam a existir negociações. Há uma cedência de parte a parte para existir pelo menos uma perspetiva que seja boa para os trabalhadores e para as empresas".

Em declarações na RTP Antena 1, deputado insistiu que o Chega continua disponível para viabilizar alterações à legislação laboral, mas apenas se o Governo aceitar mudanças substanciais à proposta inicial.

"Nós sempre dissemos que chumbaríamos este pacote laboral se fosse nos moldes em que estava inicialmente. Não aceitamos este pacote a todo o custo", garantiu Bruno Nunes, que considera que o primeiro-ministro "percebeu" que só conseguirá aprovar a reforma negociando com o Chega: "Luís Montenegro finalmente percebeu que tem de falar com o líder da oposição, André Ventura, e com o partido mais representativo a seguir ao PSD, que é quem pode viabilizar ou não".

No mesmo sentido, o deputado recusou ainda as críticas de que o partido protagonizou um "ziguezague" político desde que André Ventura anunciou que votaria contra a proposta. "Há uma fase de negociação. O PSD não tem maioria absoluta e nós também não podemos impor todo o nosso programa. O PSD não pode impor o seu caderno eleitoral e o Chega também não pode impor o seu", assinalou Bruno Nunes, que identifica a reposição de dias de férias, alterações nas licenças familiares ou a idade da reforma como algumas das matérias "decisivas" para um entendimento.

"A reposição dos dias de férias para nós é pacífica e parece existir abertura por parte do primeiro-ministro. A licença para os avós também foi uma matéria colocada pelo Chega. A questão da amamentação também fomos nós que colocámos em cima da mesa", explicou o deputado, que, sobre a idade da reforma, justifica: "Queremos que reduza e não aumente. Que seja feita de forma progressiva. É uma medida equilibrada e que olha para as contas do país".
PSD acredita que debate vai "clarificar" posições. Ausência de propostas do PS causa "surpresa"
Do lado do PSD, a deputada Isaura Morais mostra-se otimista quanto ao desfecho da discussão parlamentar e apela à responsabilidade dos partidos. No programa Entre Políticos, a social-democrata disse ainda esperar que todos os partidos contribuam com propostas caso os deputados aprovem as medidas do Governo na fase da generalidade.

"Hoje deve ficar clarificada a posição das várias bancadas relativamente à proposta do Governo. Espero mesmo que o PS, com as responsabilidades que tem e que teve no nosso país, possa ter esse sentido de Estado e essa responsabilidade social e económica", disse. 
 A deputada rejeita também as críticas de que a proposta do Governo favorece, sobretudo, as grandes empresas.

"Noventa e seis por cento das empresas portuguesas são micro, pequenas e médias empresas. Quando protegemos o emprego estamos também a proteger os trabalhadores", disse Isaura Morais, que, em resposta aos reparos do PS sobre os contratos a prazo, defende que os jovens procuram carreiras mais flexíveis: "Os jovens não querem um único trabalho para a vida toda. Querem melhores salários e querem oportunidades para progredir".

Isaura Morais afirma ainda que a revisão do Código do Trabalho pretende responder às transformações do mercado laboral e aumentar a competitividade das empresas.

"O que é gravoso e precário é o nível dos salários que temos hoje em Portugal. O que aumenta os salários é a produtividade e a competitividade das empresas", insistiu.
PS recusa "assistir da bancada", mas considera acordo entre Governo e Chega "mais do que anunciado"
O PS recusa atirar a toalha ao chão e assegura que vai avançar com propostas de alteração ao pacote laboral, mas recusa dar a mão ao Governo para fazer passar o texto na fase da votação na generalidade. Miguel Cabrita, deputado e ex-secretário de Estado do PS, sublinha que os socialistas não se vão desviar dos valores do partido. 
 "Estamos na hora da verdade. Há uma proposta que vai ser votada e assistimos publicamente às negociações e a um acordo mais do que anunciado do Governo com o Chega", afirmou o deputado, que insiste que a proposta aumenta a precariedade e não responde aos problemas do mercado laboral.

"Nós não precisamos de mais contratos a prazo para os jovens. Não precisamos de horários mais longos. Não precisamos de bancos de horas individuais. Precisamos de mais qualificação, mais tecnologia nas empresas e uma política económica consistente", explicou o deputado, que rejeita que os contratos mais flexíveis permitam aumentar salários: "Não há empresas que tenham mais produtividade com mais contratos a prazo. Quem tem contratos permanentes recebe, em média, mais 37 por cento do que quem tem contratos a termo. Não podemos condenar os jovens a uma sucessão de contratos precários".

Já sobre a reposição de dias de férias, o socialista reconheceu tratar-se de uma medida positiva, mas considera-a insuficiente no contexto global da proposta. "É, obviamente, um avanço positivo. Agora, não vale a pena aumentar dois dias de férias para transformar os outros dias do ano num inferno e numa relação de trabalho muito mais insegura", acrescentou.

Miguel Cabrita reiterou ainda que o PS votará contra na fase da generalidade, mas vai avançar com propostas de alteração caso o diploma siga para a especialidade.

"Nós votaremos contra. Se a proposta passar, naturalmente apresentaremos propostas para corrigir os erros e os efeitos negativos que ela terá para os trabalhadores, para os jovens e para as famílias", garantiu. 
PCP quer pacote laboral no "caixote do lixo" e aponta "encenação" entre Chega e PSD
Tal como o PS, também o PCP acredita que PSD e Chega já encontraram uma base de entendimento sobre o pacote laboral e que, mais do que uma negociação entre ambas as partes, o país está a assistir, sobretudo, a uma teatralização.

"O que é expectável, neste momento, é que toda a encenação conduza a que amanhã a proposta de lei seja aprovada e baixe à comissão para discussão na especialidade", afirmou Alfredo Maia. 
 O deputado comunista classificou a reforma como um "violento ataque aos direitos dos trabalhadores" e mostrou-se particularmente preocupado com as alterações à atividade sindical: "O que temos à nossa frente é mesmo um brutal ataque aos direitos dos sindicatos e, em concreto, à intervenção dos sindicatos nas empresas".

No mesmo sentido, Alfredo Maia assinalou que, na proposta do Governo, há claras as limitações à entrada de dirigentes sindicais nos locais de trabalho.

"Não há nenhuma razão para que, nas empresas onde ainda não existem trabalhadores sindicalizados, os sindicatos não possam entrar para prestar esclarecimentos. Qualquer limitação viola um princípio fundamental da liberdade sindical", disse o parlamentar comunista, que insiste que a negociação coletiva ficará igualmente fragilizada.

"A negociação coletiva é um instrumento fundamental para a defesa dos interesses dos trabalhadores e este pacote vai enfraquecê-la", afirmou.

A proposta do Governo é discutida, esta quinta-feira, na Assembleia da República, num debate que conta com a presença da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, e é votada na sexta-feira pelos deputados, depois de o tema ter marcado o debate quinzenal com o primeiro-ministro.
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