Passos sela remodelação com críticas da esquerda à escolha de Machete

Passos sela remodelação com críticas da esquerda à escolha de Machete


Consuma-se esta quarta-feira a mais ampla de sete mudanças operadas desde 2011 no governo de social-democratas e democratas-cristãos. Uma remodelação que se segue ao terramoto político gerado pelos pedidos de demissão de Vítor Gaspar e Paulo Portas e que potencia a preponderância do CDS-PP. A António Pires de Lima, dirigente do segundo partido da coligação, é confiada a pasta da Economia. E Portas ascende, como se esperava, a vice-primeiro-ministro. Mas a surpresa entre os nomes a empossar por Cavaco Silva é Rui Machete, novo ministro dos Negócios Estrangeiros. Cuja passagem pela antiga estrutura do BPN foi de imediato lembrada pela oposição.

RTP /
Conhecido o novo elenco governativo, BE e PCP evocaram a passagem de Rui Machete pela estrutura da Sociedade Lusa de Negócios, antiga detentora do BPN Hugo Correia, Reuters

A cerimónia de tomada de posse dos novos ministros acontece pelas 17h00 no Palácio de Belém. A mesma hora a que Cavaco Silva deu posse à sucessora de Vítor Gaspar na pasta das Finanças, Maria Luís Albuquerque, no passado dia 2 de julho. A meio do mandato do XIX Governo Constitucional e após o mais profundo abalo da legislatura, o elenco liderado por Pedro Passos Coelho sofre a mais significativa de sete alterações. O número de ministros cresce para 14.

Do entendimento acertado entre Paulo Portas e Pedro Passos Coelho resultam evidentes ganhos de peso político para o CDS-PP. O líder do partido deixa o Ministério dos Negócios Estrangeiros para se tornar vice-primeiro-ministro, como fora revelado no auge da tempestade política inaugurada com a saída de Vítor Gaspar do Ministério das Finanças. António Pires de Lima, presidente do Conselho Nacional dos democratas-cristãos, assume a pasta da Economia. Sai Álvaro Santos Pereira.Pedro Passos Coelho partiu para o pós-José Sócrates com um elenco original de 11 ministros. Em abril passaram a ser 12.

A partir desta quarta-feira haverá 14: Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, Maria Luís Albuquerque, ministra de Estado e das Finanças, Rui Machete, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, José Pedro Aguiar-Branco, ministro da Defesa, Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça, Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Poiares Maduro, ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional, Jorge Moreira da Silva, ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, António Pires de Lima, ministro da Economia, Assunção Cristas, ministra da Agricultura e do Mar, Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência, Paulo Macedo, ministro da Saúde, e Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade, Segurança Social e Emprego.


No flanco laranja, Jorge Moreira da Silva, até agora responsável pela coordenação da cúpula do PSD, é o novo ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia. O que implica uma desagregação no Ministério tutelado por Assunção Cristas, que passa a gerir a Agricultura e o Mar. Por outro lado, Pedro Mota Soares, que liderou a delegação do CDS-PP nas negociações goradas com os socialistas, vê somado o Emprego à Solidariedade e Segurança Social.

Mas é na escolha para os Negócios Estrangeiros que reside a maior surpresa. Passos Coelho recorreu ao baronato social-democrata. E leva Rui Machete para o executivo. Quase três décadas depois da última experiência governativa, esta figura histórica do PSD reocupa aos 73 anos o palco principal da vida política.

Mestre em Direito Público desde 1963, advogado e professor universitário, Rui Manuel Parente Chancerelle de Machete tutelou a Secretaria de Estado da Emigração em 1975, foi ministro dos Assuntos Sociais de 1977 a 1979 e ministro da Justiça entre 1983 e 1985.

Foi ainda vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa em 1985, no governo de coligação entre PS e PSD, então liderados por Mário Soares e Mota Pinto.

Machete foi também administrador do Banco de Portugal de 1981 a 1983, presidente da Federação Internacional de Direito Europeu de 1991 a 1992 e presidente do Conselho Executivo da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento entre 1988 e 2010, um mandato que acabou em controvérsia, após a divulgação de telegramas diplomáticos de embaixadores norte-americanos que se referiam ao social-democrata como um “crítico” dos Estados Unidos, acusando-o ainda de atribuir “bolsas para pagar favores políticos”.

É, no entanto, a sua passagem pela Sociedade Lusa de Negócios, antiga detentora do BPN, que está a suscitar as críticas mais severas entre os partidos à esquerda do PS. Um capítulo curricular omitido na biografia de Rui Machete que o gabinete de Passos Coelho fazia ontem circular entre os órgãos de comunicação social.
“Péssimo gosto”

Numa primeira reação aos nomes escolhidos pelo primeiro-ministro, o Bloco de Esquerda foi rápido a estimar que não haverá qualquer alteração de rota política com “o governo mais cavaquista de toda a história da direita portuguesa”, mesmo “sem Cavaco Silva”. Assim como a questionar a opção por um antigo presidente do Conselho Superior da sociedade gestora do Banco Português de Negócios para o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Gostava de referir que a escolha de Rui Machete para ministro dos Negócios Estrangeiros é uma escolha surpreendente, uma má escolha e de um péssimo gosto”, avaliava na última noite o coordenador bloquista João Semedo, contactado pela RTP.

“É bom lembrar que Rui Machete foi durante muitos anos presidente do Conselho Superior do grupo BPN/SLN, conviveu com grande proximidade com tudo o que hoje sabemos que se passou naquele grupo e que tanto dinheiro está a custar ao erário público e ao bolso do contribuinte”, insistiu.


Foto: Miguel A. Lopes, Lusa

Esta não é a primeira vez que o Bloco questiona o currículo de Rui Machete. Em julho de 2011, João Semedo, então na qualidade de deputado, classificava de “lamentável” a nomeação do histórico social-democrata para o posto de vice-presidente da mesa da Assembleia Geral da Caixa Geral de Depósitos, por ter presidido ao Conselho Superior da SLN.

Também ouvido pela estação pública, o deputado do PCP João Oliveira referiu-se à remodelação agora oficializada como mera “tentativa de reanimação de um governo que estava morto e enterrado, um governo sem credibilidade, que não tem legitimidade para prosseguir esta política de afundamento nacional e de agravamento da exploração que tem levado a cabo nos últimos dois anos e, sobretudo, um governo que procura apoiar-se numa maioria parlamentar que não tem legitimidade, que não corresponde àquilo que era a exigência de clarificação política”.

À Lusa, o mesmo deputado comunista afirmou, por outro lado, que Rui Machete “não é escolha que motive grande expectativa” e que “muito menos é uma escolha pacífica, considerando algumas nebulosas em torno da sua participação em processos como o do BPN”.

Já o líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho quis sublinhar que “o país esperou um mês por uma dança de cadeiras que em nada vai mudar políticas que têm conduzido o país ao empobrecimento”. Portugal, acentuou o dirigente socialista, “precisava não de uma remodelação de caras, nem de ajustamentos interpartidários dentro da maioria, mas de uma remodelação de políticas”.

“Além do mais, também é um governo que, pela sua estrutura, faz cair mais um mito e, no fundo, mostra mais uma promessa com que Passos enganou os portugueses há dois anos e que agora deixa cair, que é a promessa do governo mínimo”, rematou.
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