Política
Política com Assinatura
Paulo Raimundo: "Eleições antecipadas podem ser bem-vindas"
"O mito de que sem Orçamento de Estado há eleições antecipadas está ultrapassado", garante o líder do PCP dizendo que não teme eleições antecipadas caso o Orçamento do Estado para 2027 seja chumbado no Parlamento.
Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas
Em entrevista ao podcast da Antena 1, Política com Assinatura, o Secretário-Geral do PCP assegura que o voto do partido não está ainda decidido. Ainda assim, Paulo Raimundo afirma que “se as eleições antecipadas existirem para interromper este caminho desastroso do ponto de vista político, então até podem ser bem-vindas. Se for para ser um compasso de espera para agravar este caminho desastroso, então para pior já basta assim”.
“Não temos nenhum fetiche em votar contra orçamentos da AD, assim como não tivemos nenhum fetiche em votar contra os orçamentos do PS. A questão não é de onde vêm, é o que é que vem”, conclui. Questionado pela editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, sobre a necessidade de criar uma frente de esquerda, incluindo desde logo o Partido Socialista (PS), para, por exemplo, reprovar o OE2027, o líder comunista faz a pergunta e responde: “acha que o PS está numa dinâmica de rutura e mudança? Acho que não está”.
Admite que a esquerda está a passar por “uma crise como nunca. Esperemos não enfrentar, no futuro, uma crise parecida ou igual a esta”, mas assegura que "a esquerda não falha (ao povo). Se me disser assim: «o PCP falhou aos trabalhadores?», não, nunca falhámos aos trabalhadores”.
Começa por dizer que a transferência do eleitorado do PCP para o Chega (CH) é “outro mito” e recusa que o crescimento do CH tenha sido à custa da crise entre os partidos de esquerda.
“Pode ter contribuído para o CH engordar, mas não me venha dizer que foi à nossa custa”, defende.
PSU: “Governo, à má fila, introduziu esta discussão no meio da discussão do pacote laboral"
Acerca da Prestação Social Única (PSU) Paulo Raimundo mostra-se muito crítico da forma como Luís Montenegro geriu a matéria.
“O Governo, à má fila, introduziu esta discussão no meio da discussão do pacote laboral, procurando criar uma clivagem, como tem feito sempre, e criar um desvio de atenções sobre o pacote laboral”, acusa.
O PCP até admite aceitar uma prestação única, no entanto o líder comunista vai dizendo que “a questão não é a forma, a questão é o conteúdo" e porque para Paulo Raimundo o que está em causa é “uma contenção de custos” que o PCP não aceita.
Admite discutir a medida sem nunca revelar se votará a favor caso os montantes atuais não sejam alterados.
“A forma como a medida vem, os argumentos que se encontram para a medida e a forma como ela foi golpeada na Assembleia da República (com autorizações legislativas, com descidas à especialidade sem votação na generalidade e por aí fora) não indicia nada de positivo no seu final. Vamos ver, vamos ver!”, conclui.
Pacote Laboral: “Se Governo voltar à carga vai ter a mesma resistência, a mesma luta e o mesmo desfecho”
É uma “certeza absoluta” e um aviso. Paulo Raimundo deixa o recado ao primeiro-ministro: “se o Governo entender voltar à carga em bloco ou fatiado, vai ter a mesma resistência, a mesma luta e o mesmo desfecho”.
O Secretário-Geral do PCP refere-se à possibilidade de o Governo insistir em reapresentar alterações à legislação laboral, como disse a ministra do Trabalho durante o congresso do PSD.
Paulo Raimundo relembra que foram 330 dias de luta e resistência por parte dos trabalhadores e garante que isso pode repetir-se caso o Governo insista na proposta que foi rejeitada pelos deputados.
O líder comunista entende que o chumbo do pacote laboral “é uma derrota não apenas do pacote laboral. É o isolar do Governo e das pretensões do Chega”. E acredita que André Ventura, sabendo que o combate à revisão da legislação laboral iria continuar com a votação na especialidade em caso de aprovação do diploma, “percebeu que isto não era brincadeira e não aguentou a pressão”.
Raimundo admite que o PCP tem estado “a celebrar esta vitória porque ela tem um significado político, social e ideológico”, mas admite que a lei laboral não é “uma vaca sagrada, pelo contrário, se há alguém que sabe que a atual lei não favorece os trabalhadores somos nós”. Defende, no entanto, uma revisão que não aumente a precariedade.
Nesta entrevista, Paulo Raimundo, defende que o Parlamento devia ter votado nominalmente “porque isso traria um desconforto tão grande, tão grande, tão grande a uma parte significativa dos membros das bancadas, desde logo ao PSD, que era preciso demonstrar isso”.
Fundo soberano: “assunto demasiado sério para tratar de forma leviana e propagandística”
Criar um fundo soberano é, na opinião de Paulo Raimundo, “uma ideia demasiado importante para se brincar com isso”.
O líder comunista relembra que este é um tempo no qual o Estado tem participações em empresas e dá o exemplo da Galp, da qual detém sete por cento da petrolífera e que, ainda assim não tem intervindo no preço da botija do gás, com a GALP a vender mais caro em Portugal e mais barato em Espanha.
“Virem falar de um fundo soberano, esquecendo que o Estado tem hoje posições das quais não pode abdicar... é uma pena tratar de um assunto tão importante dessa forma tão leviana e propagandística”, lamenta.
Regionalização: referendo até julho de 2028 e novas regiões administrativas em 2029
O PCP promove esta quarta-feira, 24 de junho, um debate sobre a regionalização para a qual o partido já tem um calendário definido.
“Referendo até julho de 2028, de maneira a que possibilitasse que, nas eleições autárquicas de 2029, já pudessem ser eleitos os novos órgãos regionais”, explica.
No debate que os comunistas pretendem abrir em redor do tema, é proposto passar as competências das CCDR (as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional) para as regiões administrativas, órgãos intermédios de poder político local que seriam eleitos pelos portugueses, e sem que essas estruturas impliquem custos acrescidos nem aumento de recursos humanos.
A editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, pergunta se "as CCDR não deveriam cumprir esse objetivo?”. Paulo Raimundo esclarece que "se deviam, não estão a cumprir”. As tempestades que atingiram o país em janeiro deste ano revelam, no entender de Paulo Raimundo, a necessidade de regionalização por terem revelado uma falta de articulação no terreno entre os diversos poderes políticos.
E, por causa das tempestades, Paulo Raimundo aproveita para criticar o Executivo de Montenegro. “O maior problema do Governo não foi aquilo que foi feito, foi aquilo que anunciou que se ia fazer”, acusa,
O Secretário-Geral do PCP até assume que não havia condições de o Governo antecipar as consequências e dar respostas imediatas, mas, diz ao mesmo tempo que “o maior problema foi a leviandade com que o Governo disse que há milhões para isto e para aquilo e depois as pessoas, hoje, ainda estão à espera dos apoios”.
E questiona a jornalista: “o Governo, na sua opinião, defraudou as expectativas das pessoas?”. Paulo Raimundo não tem dúvidas: “claro!”. O secretário-geral do PCP assume-se preocupado com os incêndios porque existem “milhares e milhares de toneladas de combustível nas matas” nos hectares que faltam limpar após as tempestades de janeiro deste ano.
Entrevista conduzida por Natália Carvalho, editora de política da Antena 1, no podcast Politica com Assinatura.