Política
Entre Políticos
Seis meses de Kristin. PS acusa Governo de "falta de humildade e empatia" após a tempestade. PSD admite atrasos, mas garante evolução
O PS acusa o Governo de ter falhado no acompanhamento das populações afetadas e considera que, seis meses depois, continuam a ser, sobretudo, as autarquias e os cidadãos a suportar o peso da recuperação. No programa Entre Políticos, na RTP Antena 1, o PSD garantiu que a resposta está a evoluir, enquanto o LIVRE alertou para a falta de recursos que continua a atrasar a reconstrução.
Fotografias: Andreia Brito - RTP Antena 1
Na RTP Antena 1, a deputada socialista Catarina Louro afirmou que são os municípios e os próprios cidadãos a assegurar uma parte significativa da resposta.
"Ao fim de seis meses, são as autarquias, as populações e quem está no território que continua a tentar resolver os problemas, muitas vezes com pouca força institucional para o conseguirem fazer. Nós precisávamos de um Governo muito mais presente a resolver os problemas, seja com as seguradoras, seja com as operadoras das telecomunicações, seja com a E-Redes, mas tinham que viver efetivamente os problemas e estar com as pessoas para ter esta sensibilidade", disse.
Segundo Catarina Louro, o Governo privilegiou uma forte presença "mediática" nos dias seguintes à tempestade, mas essa presença não se traduziu numa resposta eficaz para quem continua a enfrentar dificuldades.
"Não podemos dizer que não houve uma grande presença física de alguns membros do Governo. O problema é que essa presença física nem sempre se traduziu num efetivo acompanhamento, numa efetiva empatia pelas populações e na garantia dos resultados", insistiu.
Para a socialista, a atuação do Governo ficou igualmente marcada por sucessivos anúncios com uma concretização que ficou aquém das expectativas: "Houve muitos anúncios, mas a taxa de execução foi sendo cada vez mais difícil de explicar. Portanto, foram sempre arranjando bodes expiatórios e culpados dos anúncios não serem executados. O que faltou mais neste Governo foi acompanhamento, humildade e empatia", acrescentou a deputada.
Catarina Louro criticou ainda o processo de recuperação das habitações, recordando que o Governo anunciou uma bolsa de cerca de 700 técnicos para apoiar as vistorias necessárias à atribuição dos apoios.
"Já perguntei várias vezes quantos desses 700 técnicos estiveram efetivamente no terreno e quantos trabalharam. Ninguém me sabe responder", questionou a socialista.
"Seria incorreto negar que houve atrasos nos apoios", admite deputado do PSD
As críticas do PS mereceram, no programa Entre Políticos, a resposta do deputado do PSD Hugo Oliveira, que reconhece que houve atrasos na execução dos apoios, mas garante que há uma evolução na capacidade de resposta.
"Seria incorreto negar que houve atrasos nos apoios. O Governo reconheceu isso e assumiu que ia corrigir os procedimentos. Se as pessoas ainda sentem essa dificuldade, também seria incorreto dizer que está tudo resolvido. Não está. Mas, aquilo que temos hoje no terreno é diferente daquilo que tínhamos na altura", disse.
No mesmo sentido, Hugo Oliveira apresentou os números mais recentes da recuperação das habitações permanentes. Segundo o deputado, foram submetidas 35.908 candidaturas, das quais 16.923 já foram aprovadas, 8.528 foram indeferidas e 10.457 continuam em análise, sobretudo nos concelhos de Leiria e da Marinha Grande.
"O nosso foco tem de estar nestas 10.457 candidaturas que ainda aguardam resposta. São essas pessoas que continuam à espera e é aí que temos de concentrar os esforços", salientou.
O deputado do PSD rejeitou igualmente as críticas sobre uma alegada ausência de Luís Montenegro da região: "Temos de começar a dizer a verdade. O primeiro-ministro esteve lá no dia 29 [de janeiro]", disse o social-democrata, que insistiu que o Governo esteve presente desde as primeiras horas após a tempestade e que o principal objetivo é acelerar a reconstrução: "Aquilo que precisamos é de reconstruir com resiliência para que, quando houver um novo fenómeno, o território esteja mais preparado".
Na RTP Antena 1, Hugo Oliveira admitiu, contudo, que continuam por resolver vários problemas, sobretudo nas comunicações, e revelou ter ficado preocupado com uma resposta da ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações) na Assembleia da República, segundo a qual não existiam registos de incumprimento por parte das operadoras.
"Isto assusta-me. Nós sentimos no terreno que há falhas e, enquanto deputados, temos a obrigação de continuar a questionar", avisou.
Livre pede mais meios no apoio às autarquias: "Está a avançar a passo de tartaruga"
Também Patrícia Gonçalves, deputada do Livre, traçou um retrato crítico da recuperação, mas centra as críticas na falta de meios disponíveis. "Constatámos que há muito por fazer e que há muita falta de recursos humanos", disse a deputada, que, recordando as jornadas parlamentares do partido no distrito de Leiria, afirmou que o principal problema identificado continua a ser a resposta ao volume de processos.
"As câmaras municipais, especialmente Marinha Grande e Leiria, estão muito sobrecarregadas e não têm técnicos suficientes. Não têm mãos a medir", alertou Patrícia Gonçalves, que defende o reforço imediato das equipas municipais: "Era mesmo necessário reforçar estes municípios com técnicos para agilizar estas questões".
A parlamentar do Livre manifestou ainda preocupação com o atraso na constituição da nova agência responsável pela recuperação [Agência para o PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência].
"Já passaram seis meses e estamos com uma agência que ainda está a constituir equipas. Está a avançar a passo de tartaruga quando as pessoas continuam com dificuldades", insistiu Patrícia Gonçalves, que lembrou que cerca de 1.600 pessoas continuam sem comunicações fixas, muitas delas em zonas isoladas: "Essas pessoas precisam de ter acesso ao mundo fora da sua terra".
Patrícia Gonçalves alertou também para os casos de famílias que continuam sem condições para regressar às suas habitações e para associações que permanecem sem instalações recuperadas. O programa Entre Políticos é moderado pelo jornalista João Alexandre.