Política
Sócrates quer governo com maioria após "leviandade"
José Sócrates considera que o país precisa de sair do quadro de crise política com um “governo maioritário” e promete trabalhar para essa solução, caso os socialistas vençam as eleições legislativas “sem maioria”. Em entrevista à RTP, o primeiro-ministro demissionário voltou a acusar a direção social-democrata de Pedro Passos Coelho de ter incorrido num “erro trágico” e disse que a ajuda externa é “um cenário de último recurso”.
Se o Partido Socialista “ganhar sem maioria” a 5 de junho, Sócrates envidará os esforços necessários “para que Portugal tenha um governo maioritário”. Isto porque o país, sustentou José Sócrates na entrevista da noite de segunda-feira à RTP, “precisa de um governo forte, um governo com maioria na Assembleia da República”. “Primeiro-ministro resignado”
Na análise da entrevista, os partidos à direita do PS consideram que o primeiro-ministro não esclareceu o país.
“Lamentamos que tenhamos hoje um primeiro-ministro resignado com esta situação de dificuldade e, por outro lado, lamentamos também que o senhor primeiro-ministro tenha desperdiçado igualmente a oportunidade de dar algumas respostas aos portugueses que são necessárias”, reagiu o vice-presidente da bancada parlamentar do PSD Luís Montenegro.
Para o deputado do CDS-PP João Almeida, “é evidente que, nesta entrevista, não passou algo que é fundamental para o país neste momento, que é esperança”. “O primeiro-ministro falou muito mais do passado do que do futuro, insistiu em falar muito mais da Oposição do que da governação e, no limite, insistiu em falar muito mais dele próprio do que do país”, acrescentou.
A esquerda parlamentar critica Sócrates por não ter apresentado alternativas para a resolução dos problemas do país.
Pelo Bloco de Esquerda, a deputada Ana Drago reprovou o primeiro-ministro por ter contado “uma história” que “não bate certo ao longo do último ano”, numa altura em que o país se debate “com a crise da dívida pública, com a subida das taxas de juro nos mercados internacionais”: “Veio dizer ao país que, se fosse aprovado agora o PEC IV, isto era a salvação, mas não é verdade”.
Já o deputado comunista António Filipe critica o facto de Sócrates não ter apontado “nenhuma alternativa” que não seja “prosseguir nesta política dos PEC, que tão pesadas consequências tem tido para os portugueses, particularmente para os trabalhadores, para os reformados, para os portugueses com menos recursos”.
O chefe do Executivo de gestão deixou, no entanto, por aclarar a esfera de forças políticas com as quais estaria disposto a negociar uma eventual aliança pós-eleições. Tão-pouco se admite deixar a liderança do PS em caso de derrota.
Questionado sobre a hipótese de Cavaco Silva fechar a porta à formação de um governo minoritário, Sócrates respondeu que “não está nas mãos do Presidente da República comandar isso, isso depende dos partidos”.
E sem se referir de forma direta à atuação do Chefe de Estado, o primeiro-ministro demissionário insistiu na tese de que foi “o único dirigente” a avisar o país e os demais agentes políticos para as consequências do chumbo da quarta versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC).
“Ao longo das duas semanas a seguir à rejeição do PEC, eu falei constantemente em diálogo, em negociação, em compromisso. Avisei toda a gente para os riscos em que poríamos o nosso país se o Programa de Estabilidade e Crescimento não fosse aprovado”, reclamou.
“Aqueles que têm mais responsabilidade deveriam saber a situação a que isto conduziria, deveriam conhecer as implicações que isto teria para a Europa, para Portugal e para os mercados financeiros. O que aconteceu foi trágico, porque o chumbo do PEC significou uma mensagem para os mercados: Portugal não quer mais medidas de austeridade. Isso foi muito negativo”, enfatizou.
Quanto ao facto de não ter feito chegar a Belém o conteúdo do pacote adicional de austeridade a inscrever no PEC, antes de o apresentar ao país e ao Conselho Europeu, José Sócrates resumiu: “O meu dever é informar o Presidente da República, não é informar previamente”.
Ajuda externa é "último recurso"
Sócrates voltou também a situar os social-democratas na raiz da crise política, acusando a direção de Pedro Passos Coelho de ter adotado uma “atitude de profunda irresponsabilidade, de profunda leviandade, feita com ligeireza e sem pensarem em dois minutos”. “O que eu acho é que não pensaram o suficiente. Foi um erro trágico de avaliação. A situação em que colocaram o nosso país foi algo, como digo, que ficará para a História como o momento em que os interesses nacionais foram sacrificados a um interesse mesquinho do ponto de vista partidário”, insistiu.
O primeiro-ministro socorrer-se-ia, adiante, de um artigo assinado por Pedro Passos Coelho na edição de 30 de março do Wall Street Journal. No texto, o presidente do PSD explica que entendeu rejeitar as medidas do último pacote de austeridade do Governo socialista “não por irem longe de mais, mas porque não iam suficientemente longe”. As medidas, escreveu Passos Coelho, “não se dirigiam ao coração do principal desafio económico de Portugal, que é assegurar que o crescimento anda de mãos dadas com a disciplina fiscal”. “Eu vi o líder do PSD usar como argumento no chumbo do PEC que, afinal de contas, o PEC tinha medidas de austeridade que não eram necessárias, ou não deviam ser necessárias”, recordou José Sócrates, interpretando as palavras do líder do maior partido da Oposição como uma apologia de um reforço ainda mais amplo da austeridade orçamental.
O governante não quis, de resto, comprometer-se com a recusa de um pedido de ajuda externa, afirmando que esse é “um cenário de último recurso”. “Farei tudo para evitar que isso aconteça. Faz parte da estratégia de impedir que isso aconteça não discutir esses cenários”, argumentou, acrescentando que o Executivo de gestão vai lançar mão de “todos os instrumentos” ao seu dispor para fazer face aos juros da dívida que vence no mês das eleições legislativas: “Não podemos revelar toda a nossa estratégia aos mercados”.
Ademais, ilustrou Sócrates, o recurso ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por parte Da Grécia e da República da Irlanda implicou “programas muito severos” – sem que os países em causa tivessem ultrapassado “a sua situação nos mercados secundários”. “Entre nós e o FMI há dez milhões de portugueses que pagarão por isso”, rematou.
“Uma golpada eleitoral”
Parte da entrevista incidiu sobre os projetos de grandes obras públicas, nomeadamente a alta velocidade ferroviária. Relativamente ao TGV, o primeiro-ministro demissionário assinalou que existe um “concurso realizado, adjudicado, negociado com os bancos, com taxas muito baixas”. “Temos o financiamento garantido e devemos desistir dessa obra?”, perguntou, para depois reconhecer que o estado da saúde financeira do país obriga a “repensar” a prossecução de outros projetos em situação diferente.
Outra das garantias deixadas por José Sócrates na entrevista à estação pública foi a de que tratará, “com certeza”, de repor o sistema de avaliação dos professores, manifestando ainda a esperança de que não seja promulgado pelo Presidente da República.
No entender do primeiro-ministro, a rejeição do atual modelo de avaliação dos docentes – num único dia, a iniciativa legislativa foi discutida na generalidade e na especialidade e foi aprovada pela Oposição em votação final global - correspondeu a “um gesto de eleitoralismo que ficará para a História a marcar o caráter de uma liderança”.
“A isso se chama uma golpada eleitoral”, concluiu.
Na análise da entrevista, os partidos à direita do PS consideram que o primeiro-ministro não esclareceu o país.
“Lamentamos que tenhamos hoje um primeiro-ministro resignado com esta situação de dificuldade e, por outro lado, lamentamos também que o senhor primeiro-ministro tenha desperdiçado igualmente a oportunidade de dar algumas respostas aos portugueses que são necessárias”, reagiu o vice-presidente da bancada parlamentar do PSD Luís Montenegro.
Para o deputado do CDS-PP João Almeida, “é evidente que, nesta entrevista, não passou algo que é fundamental para o país neste momento, que é esperança”. “O primeiro-ministro falou muito mais do passado do que do futuro, insistiu em falar muito mais da Oposição do que da governação e, no limite, insistiu em falar muito mais dele próprio do que do país”, acrescentou.
A esquerda parlamentar critica Sócrates por não ter apresentado alternativas para a resolução dos problemas do país.
Pelo Bloco de Esquerda, a deputada Ana Drago reprovou o primeiro-ministro por ter contado “uma história” que “não bate certo ao longo do último ano”, numa altura em que o país se debate “com a crise da dívida pública, com a subida das taxas de juro nos mercados internacionais”: “Veio dizer ao país que, se fosse aprovado agora o PEC IV, isto era a salvação, mas não é verdade”.
Já o deputado comunista António Filipe critica o facto de Sócrates não ter apontado “nenhuma alternativa” que não seja “prosseguir nesta política dos PEC, que tão pesadas consequências tem tido para os portugueses, particularmente para os trabalhadores, para os reformados, para os portugueses com menos recursos”.
O chefe do Executivo de gestão deixou, no entanto, por aclarar a esfera de forças políticas com as quais estaria disposto a negociar uma eventual aliança pós-eleições. Tão-pouco se admite deixar a liderança do PS em caso de derrota.
Questionado sobre a hipótese de Cavaco Silva fechar a porta à formação de um governo minoritário, Sócrates respondeu que “não está nas mãos do Presidente da República comandar isso, isso depende dos partidos”.
E sem se referir de forma direta à atuação do Chefe de Estado, o primeiro-ministro demissionário insistiu na tese de que foi “o único dirigente” a avisar o país e os demais agentes políticos para as consequências do chumbo da quarta versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC).
“Ao longo das duas semanas a seguir à rejeição do PEC, eu falei constantemente em diálogo, em negociação, em compromisso. Avisei toda a gente para os riscos em que poríamos o nosso país se o Programa de Estabilidade e Crescimento não fosse aprovado”, reclamou.
“Aqueles que têm mais responsabilidade deveriam saber a situação a que isto conduziria, deveriam conhecer as implicações que isto teria para a Europa, para Portugal e para os mercados financeiros. O que aconteceu foi trágico, porque o chumbo do PEC significou uma mensagem para os mercados: Portugal não quer mais medidas de austeridade. Isso foi muito negativo”, enfatizou.
Quanto ao facto de não ter feito chegar a Belém o conteúdo do pacote adicional de austeridade a inscrever no PEC, antes de o apresentar ao país e ao Conselho Europeu, José Sócrates resumiu: “O meu dever é informar o Presidente da República, não é informar previamente”.
Ajuda externa é "último recurso"
Sócrates voltou também a situar os social-democratas na raiz da crise política, acusando a direção de Pedro Passos Coelho de ter adotado uma “atitude de profunda irresponsabilidade, de profunda leviandade, feita com ligeireza e sem pensarem em dois minutos”. “O que eu acho é que não pensaram o suficiente. Foi um erro trágico de avaliação. A situação em que colocaram o nosso país foi algo, como digo, que ficará para a História como o momento em que os interesses nacionais foram sacrificados a um interesse mesquinho do ponto de vista partidário”, insistiu.
O primeiro-ministro socorrer-se-ia, adiante, de um artigo assinado por Pedro Passos Coelho na edição de 30 de março do Wall Street Journal. No texto, o presidente do PSD explica que entendeu rejeitar as medidas do último pacote de austeridade do Governo socialista “não por irem longe de mais, mas porque não iam suficientemente longe”. As medidas, escreveu Passos Coelho, “não se dirigiam ao coração do principal desafio económico de Portugal, que é assegurar que o crescimento anda de mãos dadas com a disciplina fiscal”. “Eu vi o líder do PSD usar como argumento no chumbo do PEC que, afinal de contas, o PEC tinha medidas de austeridade que não eram necessárias, ou não deviam ser necessárias”, recordou José Sócrates, interpretando as palavras do líder do maior partido da Oposição como uma apologia de um reforço ainda mais amplo da austeridade orçamental.
O governante não quis, de resto, comprometer-se com a recusa de um pedido de ajuda externa, afirmando que esse é “um cenário de último recurso”. “Farei tudo para evitar que isso aconteça. Faz parte da estratégia de impedir que isso aconteça não discutir esses cenários”, argumentou, acrescentando que o Executivo de gestão vai lançar mão de “todos os instrumentos” ao seu dispor para fazer face aos juros da dívida que vence no mês das eleições legislativas: “Não podemos revelar toda a nossa estratégia aos mercados”.
Ademais, ilustrou Sócrates, o recurso ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por parte Da Grécia e da República da Irlanda implicou “programas muito severos” – sem que os países em causa tivessem ultrapassado “a sua situação nos mercados secundários”. “Entre nós e o FMI há dez milhões de portugueses que pagarão por isso”, rematou.
“Uma golpada eleitoral”
Parte da entrevista incidiu sobre os projetos de grandes obras públicas, nomeadamente a alta velocidade ferroviária. Relativamente ao TGV, o primeiro-ministro demissionário assinalou que existe um “concurso realizado, adjudicado, negociado com os bancos, com taxas muito baixas”. “Temos o financiamento garantido e devemos desistir dessa obra?”, perguntou, para depois reconhecer que o estado da saúde financeira do país obriga a “repensar” a prossecução de outros projetos em situação diferente.
Outra das garantias deixadas por José Sócrates na entrevista à estação pública foi a de que tratará, “com certeza”, de repor o sistema de avaliação dos professores, manifestando ainda a esperança de que não seja promulgado pelo Presidente da República.
No entender do primeiro-ministro, a rejeição do atual modelo de avaliação dos docentes – num único dia, a iniciativa legislativa foi discutida na generalidade e na especialidade e foi aprovada pela Oposição em votação final global - correspondeu a “um gesto de eleitoralismo que ficará para a História a marcar o caráter de uma liderança”.
“A isso se chama uma golpada eleitoral”, concluiu.