Monsaraz veste-se de azul para o Summer CEmp

por Daniela Ferreira Pinto - RTP
SummerCEmp no Marvão em Agosto de 2018 Comissão Europeia

Escola de verão de assuntos europeus arranca terça-feira em Monsaraz. A Comissão Europeia quer integrar jovens no debate sobre o futuro da Europa.

Arranca terça-feira, dia 27 de agosto, com partida na Gare do Oriente. Do centro de Lisboa sai um comboio carregado de "espírito crítico": é assim que são anunciados os 40 jovens escolhidos para participar no Summer CEmp, a escola de verão da Comissão Europeia em Portugal.

A receita para o seminário inclui estudantes interessados em assuntos europeus, oradores heterogéneos e uma vila no centro de Portugal. Depois de Monsanto e Marvão, seguem agora para Monsaraz os “multiplicadores”, assim chamados por Sofia Colares Alves, Chefe da Representação da Comissão Europeia em Portugal, por difundirem o debate europeu, ao levá-lo de volta para as suas localidades e grupos de amigos.
A Representação da Comissão Europeia em Portugal faz a ponte entre Bruxelas e Portugal. Divulga informação sobre o trabalho da União Europeia e envia para Bruxelas os acontecimentos relevantes em Portugal.

Durante quatro dias, jovens debatem com protagonistas da atualidade política e mediática os grandes temas europeus. O evento pretende dissipar a distância entre os dois através do ambiente informal. Prova disso é a falta de protocolo nas refeições, por exemplo. Os lugares são sorteados entre todos: participantes, oradores, moderadores e jornalistas. E uma vez que a maior parte dos oradores fica hospedado dentro da vila, tal como os estudantes, a conversa costuma seguir pelas ruas já de noite.

Monsaraz é uma vila medieval circundada por muralhas de xisto. Erguida no topo de uma colina, foi durante séculos o posto de vigia do Guadiana: era do castelo de Monsaraz que se observava a fronteira com Castela. O debate europeu acontece dentro do cerco muralhado, com fardos de palha e almofadas no chão. Entre casas caiadas, as ruas estreitas desaguam em miradouros para a albufeira do Alqueva.

As ruas de Monsaraz, Alentejo. Créditos: Pedro A. Pina, RTP “A localização permite que nos afastemos da correria do dia-a-dia e dos formatos tradicionais para nos sentarmos num castelo ou num jardim a falar sobre a Europa” 
Mas a logística de transportar para o centro de Portugal uma escola de verão europeia é um desafio. “Não é fácil conseguir encaixar 90 pessoas numa vila”, confessa Raquel Gomes, Chefe do Gabinete de Imprensa da Representação da Comissão Europeia em Portugal. O apoio das autoridades locais é imprescindível. “Insistimos em ficar em alojamento local, em ter fornecedores locais e em viver esta experiência de imersão no interior”.
“Vamos sempre para uma vila do interior. O impacto cénico é maior, a experiência com as comunidade locais é fundamental e tem todo o sentido que centremos o debate da Europa onde parece que a Europa não chega” 
Para difundir a informação europeia contam com os 40 "multiplicadores" seleccionados por concurso. Aos candidatos é pedido que demonstrem, por carta ou vídeo, motivação para debater. Ainda que seja dada prioridade a quem tenha formação em ciência política e jornalismo, o grupo inclui futuros médicos, veterinários, doutorandos em bioengenharia e especialistas em sustentabilidade ou literatura.

Para chegarem a outros jovens - os que, vendo um anúncio do Summer CEmp nas redes sociais continuam a fazer scroll - o gabinete de Sofia Colares Alves confia na influência que os participantes exercem nos pares.

Depois da escola de verão do ano passado, alguns estudantes desenvolveram eventos de apelo ao voto nas suas localidades. Outros regressam agora para o campo de Monsaraz como oradores. É o caso de Sara Epifânio, participante no Marvão, onde decorreu a segunda edição do Summer CEmp. Durante alguns dias Sara pensou estar “no centro da Europa”. É também para o centro da União Europeia que, acredita, se deve replicar a iniciativa.
“Não vamos só à procura dos que já viveram a Europa fora do País ou dos que fazem as perguntas fáceis. Isso seria demasiado óbvio. Vamos à procura de espírito crítico, de vontade de debater”
Sofia Colares Alves assegura que a influência passa, sobretudo, pela clarificação do que é que é a Europa. O formato da escola de verão surge, também, da vontade de diminuir desabafos como “a Europa fica longe”, “não tem cara” ou “não me ouve”.

André Garcia é um dos seleccionados para esta edição. A sua viagem começa mais longe: parte de São Roque, na ilha do Pico. Candidatou-se ao Summer CEmp pelo formato de “participação horizontal” que incentiva a que uma “nova camada da sociedade esteja envolvida no diálogo político”. A sua primeira visita ao Alentejo será acompanhada por ministros portugueses e comissários europeus.

Tanto nos debates como nas refeições, o difícil é escolher com quem falar. Mas André leva algumas perguntas no bolso, prontas a disparar. Como a que quer fazer ao Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, sobre a mobilidade social em Portugal. “O que está a ser feito para que deixem de ser precisas cinco gerações para que filhos de famílias de baixos rendimentos atinjam o rendimento médio?” Questionado sobre com quem gostaria de se sentar a jantar, André mantém-se na esfera nacional: escolhe Mário Centeno, Ministro das Finanças e Presidente do Eurogrupo.

Casas caiadas em Monsaraz, Alentejo. Créditos: Pedro A. Pina, RTP
O Summer CEmp conta com um grupo de 70 oradores dos quais apenas cinco são da Comissão Europeia. “Temos um rácio muito elevado de outsiders”, explica Sofia Colares Alves. Entre os oradores está Beatriz Silva de 19 anos, gestora de um projeto de sustentabilidade, ou Mizette Nielsen, uma artista holandesa que produz tapeçaria tradicional em Monsaraz. A representar a instituição estão os comissários europeus Carlos Moedas e Julian King. O evento tem ainda a participação de vários membros do governo, deputados ao Parlamento Europeu e jornalistas especializados em assuntos europeus.

E se de um lado está a experiência institucional, do outro estão exemplos de cidadãos que aproveitam as ferramentas europeias na sociedade civil.
Como António Cuco, o empreendedor por detrás do Sharish Gin, um projeto alavancado com fundos europeus. Ou a fadista Kátia Guerreiro que, com o Grupo de Cante Alentejano de Monsaraz, percorrerá a vila na arruada “Alentejo meu, Europa Nostra”.

As temperaturas apontam para mais de 35ºC. Mas há um passeio de barco no Alqueva incluído no programa - e uma sessão de astronomia ao ar livre. Com este cenário improvável, a Representação da Comissão em Portugal quer responder à incitação que o então Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, fez em 2017: “Escolher a Europa que querem amanhã”. Para Sofia Colares Alves e a sua equipa, este projeto faz parte da escolha.