Especialistas estimam aumento de 62% da incidência em dez anos
Lisboa, 09 Mar (Lusa) - A Sociedade Portuguesa de Hepatologia alerta para a necessidade do rastreio da hepatice C em grupos de risco, sublinhando que, na próxima década, esta doença poderá fazer aumentar a incidência da cirrose e do tumor do fígado em 62 por cento.
Apesar de não existirem números "actualizados e fidedignos", estima-se que cerca de 1,8 milhões de pessoas estejam afectadas por alguma doença hepática.
Não existem dados concretos por falta de uma política de rastreio concreta e de informação da população, considera a Sociedade Portuguesa de Hepatologia (SPH), que vai debater este e outros temas no II Congresso Português de Hepatologia, entre quinta-feira e sábado, em Torres Vedras.
O hepatologista Fernando Ramalho, responsável pela Unidade de Patologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e membro da SPH, explica que a hepatice C é uma doença assintomática sobre a qual os portugueses estão pouco informados.
"Oitenta por cento dos doentes não têm queixas, não fazem o rastreio e vão tardiamente ao médico", disse à agência Lusa, alertando que esta situação irá contribuir para o aparecimento de muitos casos de cirrose e tumor do fígado dentro de cinco ou dez anos.
As estimativas da SPH apontam para cerca de 170 mil pessoas com hepatite C em Portugal, 130 mil com hepatite B, 1,3 milhões de alcoólicos e bebedores excessivos e cerca de 150 mil com doença hepática alcoólica.
Segundo o hepatologista, apenas um terço dos doentes com hepatite C está identificado. "A falta de rastreios e informação pode fazer aumentar, na próxima década, em 62 por cento a incidência da cirrose e do tumor do fígado e a um acréscimo de 500 por cento de transplantes", frisou.
O médico salientou que, em média, 60 por cento destes doentes podem ser curados com as novas terapêuticas anti-virais.
A presidente da SPH, Estela Monteiro, acrescentou que "muitas das doenças têm um traço genético e as pessoas devem saber quais as doenças que afectaram os pais e avós e depois submeterem-se ao rastreio".
Estela Monteiro adiantou que a informação sobre a doença deve começar nos "bancos das escolas", uma vez que os jovens começam a beber cada vez mais cedo.
"Este estrato populacional é muito sensível ao álcool e a médio prazo entre 08 a 12 por cento irão desenvolver graves doenças do fígado", sublinhou.
Fernando Ramalho alertou que há grupos de elevado risco que deveriam fazer o rastreio da hepatite C, como os toxicodependentes, e pessoas que receberam transfusões de sangue ou que foram sujeitos a intervenções cirúrgicas antes de 1992.
Relativamente aos toxicodependentes, Fernando Ramalho afirmou que o programa de troca de seringas promovido pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência "não foi suficiente para reduzir significativamente o número de infectados em Portugal".
O médico aponta ainda outro grupo de risco: os ex-combatentes do Ultramar porque muitos deles foram vacinados com a mesma seringa em África.
Outro "problema grave" são as tatuagens, porque apesar do material ser descartável, a "tinta não é" e pode transmitir o vírus da hepatite C, disse o especialista, alertando ainda para os perigos de infecção em consultórios dentários e salões de estética com pedicures e manicures.
Fernando Ramalho salientou a importância dos médicos de família no despiste da hepatite C, acrescentando que há muitos casos que estão a ser detectados em consultas de rotina ou quando as pessoas fazem exames por causa dos seguros.
A transmissão dos vírus das hepatites C e B ocorre através do contacto com sangue infectado, seja pelo manuseamento de objectos cortantes ou relações sexuais.
HN.