Xangai afunda-se sob o peso dos edifícios

| Ciências

|

Felizmente não é habitual, nem normal o chão desaparecer debaixo dos nossos pés, mas existem registos efetivos desses acontecimentos. As causas que podem dar origem a esses fenómenos estão cientificamente provadas. E podem ser poços subterrâneos que, com o tempo e o peso, acabam por obrigar estas estruturas ocas a ceder, colapsar e abrir enormes buracos à superfície.

E é precisamente um destes efeitos geológicos que o distrito de Pudong, em Xangai, China, está a sofrer, devido ao peso bruto do edificado presente.

Toda a zona envolvente de Pudong está assente sobre um conjunto de aquíferos que aos poucos está a ceder, afundando a região.



O problema já é registado desde 1921, e a subsidência é atualmente cerca de sete centímetros por ano, revelando um afundamento da região em mais de dois metros e meio nos últimos 90 anos.
Grande parte da zona ribeirinha de Lisboa foi construida sobre o leito do rio Tejo, nos últimos 250 anos, estando a baixa Pombalina assente numa zona de aquiferos artificiais suportados por estacas de madeira.


Apesar de este fenómeno ser uma realidade, parecem não ter fim as autorizações para a construção de mega-edificios de aço e vidro na região.

Ainda há bem pouco tempo, foram concluídas mais quatro torres gigantescas, tendo uma delas, a maior de todas, 632 metros de altura.

O problema passa despercebido aos milhões de pessoas que diariamente circulam na região, mas pode desencadear uma grave catástrofe, caso o solo não aguente com as mega extruturas.

A rutura de um destes edificados, compostos principalmente por aço e vidro, pode catapultar para o solo milhares de destroços que provocariam o pânico entre os transeuntes.Um estudo feito pelo LNEC e IST, em 2011, revela que nas Laranjeiras, junto ao Metro e em Vialonga, os terrenos estão a afundar-se alguns milimetros por ano.

A acrescentar a este já por si grave problema, temos o atual aumento progressivo do nível do mar, como resultado da mudança climática, que certamente inundará as zonas mais baixas de Xangai e criará maiores fragilidades no subsolo.

A situação parece não preocupar as autoridades na sua corrida desenfreada à construção vertical, estando já programado um novo colosso de aço, um arranha-céus de 739 metros, a sul da cidade de Shenzhen.



Partes de Lisboa também se estão a afundar
Se o leitor conhecer a história evolutiva da cidade de Lisboa, certamente sabe que a baixa pombalina está construída sobre estacas de madeira, que suportam os edifícios, estando grande parte da zona sobre o antigo estuário do Tejo.


Foto: Rafael Marchante - Reuters

Ora, se este edificado fosse um pouco mais volumoso certamente aconteceria o mesmo que em Xangai.

Mas existem dois locais com contornos semelhantes; um perto da estação de metro das Laranjeiras; e outro na zona de vila de Vialonga, em Vila Franca de Xira.

Ambos os locais estão a afundar-se alguns milímetros por ano, revela um estudo internacional, publicado na revista online Remote Sensing of Environment.

Embora estas subsidências não sejam graves por agora, os “abatimentos” podem, no futuro revelar-se problemáticos com consequências diretas nas estruturas físicas, como casas, linhas de abastecimento de água, eletricidade e gás, estradas e caminhos-de-ferro.

Atualmente estes locais continuam a ser monitorizados por elementos ligados ao Instituto Superior Técnico (IST) e Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

Deslizes de solo em Portugal
São poucos os casos, no nosso território, em que o solo desaparece debaixo dos nossos pés, mas por efeitos naturais ou artificiais, eles existem e muitos ficaram mesmo registados.

Um dos casos mais recentes, em abril deste ano, foi o abatimento de uma parte do autoestrada A14, no troço que liga Montemor-o-Velho à Figueira da Foz, na zona de Maiorca.

Uma passagem de água sob a autoestrada cedeu à pressão, provocando o abatimento do piso, obrigando ao encerramento da via rodoviária. As obras de reconstrução demoraram quatro meses.

Um outro fenómeno, também este provocado pelas fortes chuvas, foi um deslizamento de terras na zona do Douro, em janeiro, que provocou o descarrilamento de um comboio da linha do Douro, próximo da estação de Mosteirô, em Baião.

Em Lisboa, decorria o ano de 2003, um outro fenómeno, desta vez provocado por uma rutura do caneiro de Alcantra, na zona de Campolide, gerou um enorme buraco, com cerca de sete metros de diâmetro e 20 de profundidade, que "engoliu", literalmente, um autocarro.



Por isso a expressão "ter os pés bem assentes na terra", nem sempre é sinal de total segurança.

A informação mais vista

+ Em Foco

Na Grande Entrevista da RTP, o ministro João Matos Fernandes lamentou que os problemas ambientais sejam muitas vezes menorizados.

Foi considerado o “pior dia do ano” em termos de fogos florestais, com a Proteção Civil a registar 443 ocorrências. Morreram 45 pessoas. Perto de 70 ficaram feridas. Passou um mês desde o 15 de outubro.

    Todos os anos as praias portuguesas são utilizadas por milhões de pessoas de diferentes nacionalidades e a relação ambiental com estes espaços não é a mais correta.

      Uma caricatura do mundo em que vivemos.