Aldeias da Guiné acreditam nos espíritos da floresta e isso protege o ambiente

| Cultura

Cada floresta da Guiné-Bissau tem um guardião, escolhido numa aldeia próxima, e só essa pessoa sabe mimar os espíritos da natureza para dar acesso ao bosque a quem dele precisa.

A crença está tão enraizada que às vezes torna esse guardião mais respeitado que as autoridades, destaca um estudo académico que recomenda um reforço dos apoios e do acompanhamento destas tradições por serem benéficas para o ambiente.

"Há uma raiz animista, de culto pela natureza, e esses tabus ajudam a preservar os locais", disse à Lusa Gautham Ramachandra, investigador da Universidade de Wageningen, na Holanda.

Em colaboração com a organização não-governamental Chimbo, Gautham Ramachandra entrevistou 50 pessoas, criou seis grupos de discussão e pediu à população que desenhasse os seus próprios mapas da região envolvente -- um trabalho feito nos últimos três meses nas aldeias de Beli (1700 habitantes) e Capabonde (300), no leste da Guiné-Bissau -- região do Boé.

Se alguém precisa de uma erva medicinal, "deve falar primeiro com a pessoa responsável pela floresta sagrada" que por sua vez realiza "uma cerimónia que deixe os espíritos satisfeitos".

Só depois se pode apanhar a erva -- e isto é válido para obter qualquer recurso da floresta.

Quem não respeitar a regra, arrisca-se a sofrer as consequências relatadas em histórias que passam de geração em geração, lendas em que a população acredita.

Uma é sobre um homem que insistiu em transformar parte de uma floresta sagrada num campo de arroz, apesar de um pássaro o avisar em sonhos para que não o fizesse - resultado: acabou com os pés em ferida.

No levantamento realizado, Gautham disse ter detetado sinais de uma aparente perda de vigor na celebração destas crenças.

Dificuldades de organização interna após a morte de alguns anciãos e restrições financeiras, por exemplo, na hora de comprar uma vaca para partilhar em celebrações públicas ligadas à natureza, são sinais de debilidade.

"Devia haver um apoio para reforçar estas tradições", alerta o investigador, que defende ajudas ao nível da organização e eventualmente alguns apoios financeiros.

Gautham concluiu que o isolamento a que está sujeito Capabonde tem ajudado a preservar mais os rituais do que em Beli, onde o contacto com a capital regional (Gabu) é maior.

Seja como for, o afastamento não é desejável para a qualidade de vida e, por isso, o cuidado face ao futuro passa por estabelecer equilíbrios: deve haver progresso ao mesmo tempo que se preservam as tradições.

Outra recomendação do investigador passa por observar países em que a legislação já integrou aspetos tradicionais como forma de reforçar a defesa do ambiente, "como é o caso do Benim".

Depois de publicado na Universidade de Wageningen, o trabalho vai auxiliar as intervenções da Chimbo na região do Boé.

A crença na Guiné-Bissau, "não é diferente do que acontece noutros sítios no mundo, nomeadamente em locais onde há nascentes de água", destaca Annemarie Goedmakers, dirigente da Chimbo.

No Boé, a missão de preservação que estas crenças encerram "é ainda mais importante que noutros sítios, porque a terra em redor destas florestas [sagradas] é inóspita. Se se perdem estes locais, deixa de haver água para a população" -- que se estima em redor das 12 mil pessoas em toda a região.

O projeto em curso para preservar as tradições das florestas sagradas baseia-se numa estrutura já montada através da Chimbo, com comités de aldeia que fazem vigilância das florestas adjacentes -- inicialmente para proteção de chimpanzés e que tem vindo a alargar o âmbito de ação da vigilância ambiental em parceria com o Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas (IBAP) da Guiné-Bissau e com financiamento da União Europeia (UE).

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Beli, Biodiversidade, Chimbo Gautham Ramachandra, Wageningen,

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