Êxitos de António Rocha, "o maior estilista da actualidade", em CD duplo

| Cultura

Trinta fados reflectindo mais de 40 anos de carreira de António Rocha, considerado "o maior estilista da actualidade", são editados em duplo CD a 04 de Setembro.

O musicólogo Rui Vieira Nery considera António Rocha "uma grande figura do fado dos nossos dias, que preserva uma tradição de bem estilar, que hoje é cada vez mais rara, mostrando bem de que maneira, mesmo no repertório fadista mais clássico, é possível a um grande artista deixar uma marca individual inconfundível".

Rocha prosseguiu o musicólogo, distingue-se "pela forma de estilar", isto é, "a maneira de variar dentro da mesma linha melódica".

O estudioso de fado Luís de Castro e a produtora discográfica Ema Pedrosa, que seleccionou o repertório do duplo álbum e é autora do texto que o acompanha, também concordam que "actualmente António Rocha é o maior estilista, sendo a sua interpretação de cada fado uma verdadeira criação".

Ema Pedrosa refere o facto de o fadista ter sido o primeiro a gravar, depois de Amália Rodrigues, "Vou dar de beber à dor" (Alberto Janes).

Popularmente conhecido como "A Casa da Mariquinhas" o single com este tema vendeu em 1968, mais de 100.000 cópias o que foi um recorde.

"Ninguém se atreveria a gravar no mesmo ano o grande sucesso daquela que é a maior, e fazê-lo com tal mestria", rematou.

Para Vieira Nery, escutar António Rocha "é uma lição de inteligência musical e de uma força expressiva que nos afecta profundamente".

O duplo CD a editar pela Movieplay Portuguesa na primeira semana de Setembro, apresenta pela primeira vez em formato digital 12 gravações, entre elas, "Quadras soltas" (António Aleixo/Popular), "Nau sem rumo" (António Rocha/Júlio Proença), "Passeio fadista" (Alberto Rodrigues/José António Sabrosa) e "Nosso fado" (A. Rocha/Borges de Sousa).

Esta "Antologia" apresenta gravações das décadas de 1960, 1970 e 1980, datando as mais antigas de 1966 para a extinta editora Marfer.

São elas "Sorte que Deus me deu" (A. Rocha/Acácio Rocha) e "Cavaleiro tauromáquico" (Lourenço Rodrigues/Jaime Mendes).

No ano seguinte em gravações para a mesma etiqueta António Rocha faz-se já acompanhar de um contra-baixo, instrumento recuperado recentemente para acompanhar fadistas.

Em termos de acompanhantes nestas trinta gravações, ao lado de António Rocha, eleito "rei do fado menor" em 1959, encontramos nomes como António Chaínho, Carlos Gonçalves, José Maria Nóbrega, Raul Silva, ou a orquestra de Ferrer Trindade.

A par da carreira de fadista, António Rocha desenvolveu também um interesse por escrever poesia, tendo logo nos primeiros discos gravado temas com letras suas.

Entre os trinta fados escolhidos referência para "Sombras da madrugada" (António José/Ferrer Trindade), gravado em 1968.

António Rocha estava para concorrer com esta canção ao Festival da Figueira da Foz, mas foi proibido pela então Emissora Nacional, pois era fadista, tendo a canção sido então defendida por Maria Armanda, contou Ema Pedrosa.

A produtora recordou uma outra história, quando trabalhava na emissora Clube Radiofónico de Portugal, onde António Rocha tinha uma rubrica sobre fado "que foi um sucesso, pois respondia de uma forma clara às perguntas dos ouvintes".

"É um homem que percebe muito da ciência fadista, mas com alma de quem interpreta e também escreve".

Nesta edição incluem-se, entre outros fados, "Chorai fadistas, chorai" de João Linhares Barbosa na música do Fado Menor onde se consagrou em 1959 como o melhor, batendo dois outros grandes nomes, Fernando Maurício e Manuel de Almeida.

"Um título que é ainda hoje indiscutivelmente seu", disse Luís de Castro.

Em declarações à Lusa o fadista afirmou que "o fado é uma coisa simples, não a devemos complicar. Canto essencialmente para mim. Se conseguir com isso tocar quem me ouve, tanto melhor".

"Trata-se de uma coisa simples onde não se procura nada.

Canto coisas de que gosto", rematou.

O fadista foi homenageado pela Associação Portuguesa dos Amigos do Fado pela "entrega absoluta ao fado que tem sido a sua carreira".

A fadista Maria Amélia Proença disse à Lusa que "quer do ponto de vista ético, quer artístico, a carreira do António Rocha é irrepreensível. Trata-se de um grande fadista que respira fado", afirmou.

Em 1951, António Rocha venceu o concurso "Ecos de Portugal", todavia já cantava desde os oito anos em várias colectividades de recreio.

Obteve a carteira profissional em 1956 ao estrear-se no Retiro Andaluz, em Lisboa, tendo sido seu padrinho artístico o poeta Conde de Sobral de quem canta neste duplo CD "É meia-noite" com música de Filipe Pinto.

Ao longo da sua carreira tem actuado em diversos espaços, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Em 1967, "por votação popular" como gosta de frisar, foi eleito "rei do fado" através da revista Plateia.

O fadista, por seu turno, considera "essencial que cada um procure o seu próprio estilo, recebendo influências, mas não se tornando cópias".

"Há uma grande falta de originalidade, ninguém cria nada", afirma, acrescentando que, se o fado tem evoluído, "fruto das circunstâncias", "há roupagens que nada têm de fado".

Para Ema Pedrosa este duplo CD "é um exemplo de criação própria, que mostra o percurso de uma das mais originais vozes do fado".

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