Novas obras de Arte Bruta em mostra nacional sobre "mitologias individuais" de outsiders

| Cultura

A Oliva Creative Factory de S. João da Madeira, que acolhe a única mostra ibérica de Arte Bruta, inaugura no sábado uma nova exposição com obras de autores considerados outsiders, destacando agora aqueles que melhor souberam criar "mitologias individuais".

A mostra revela ao público uma nova seleção de cerca de 100 trabalhos entre os 800 que os colecionadores privados Richard Treger e António Saint Silvestre cederam em regime de comodato ao município - onde estabeleceram assim um dos principais museus da Europa dedicado à arte produzida por criadores livres da influência de correntes e estilos oficiais, como doentes psiquiátricos, reclusos ou autodidatas em isolamento social.

Intitulada "Arte Bruta: uma história de mitologias individuais", a nova exposição é comissariada pelo curador francês Christian Berst e esse explicou à Lusa que o particular conjunto de trabalhos agora exibidos na Oliva tem como principal função demonstrar "como as obras de Arte Bruta representam, antes de tudo, uma tentativa de elucidação do mistério que é estar no mundo".

Três dos autores que melhor o exemplificam são o mexicano Martín Ramírez (1895-1963), o norte-americano Melvyn Way (1954) e o brasileiro Albino Braz (1896-1959).

No primeiro caso, a obra de Ramírez resulta de um percurso biográfico marcado tanto pela sua atividade de agricultor e mineiro, como pela perda da sua família na sequência da guerra em Tepatitlán e por um posterior internamento psiquiátrico de 16 anos na Califórnia.

Os seus primeiros desenhos revelavam uma patina especial que se deveria a efeitos da desinfeção a quente, dado que Ramírez já então havia sido diagnosticado com tuberculose, e na sua obra posterior predominam figurações de cavaleiros, que os especialistas julgam evocar os rebeldes de Cristero ou os cowboys em pose altiva dos teatros americanos - o que constituiria uma amálgama entre as suas raízes nativas e os ícones do território que adotou mais tarde.

Quanto a Melvyn "Milky" Way, as suas justaposições com números e fórmulas químicas refletem uma obsessão com o tempo e o espaço, e já na sua juventude se expressavam em símbolos e formulações codificadas que só o próprio compreenderia. Tendo desenvolvido entretanto algumas perturbações mentais e também um peculiar interesse por música, o artista é hoje admirado por críticos eminentes como Jerry Saltz, que o define como "um génio místico visionário".

Já Albino Braz, por sua vez, também esteve institucionalizado por 16 anos devido a esquizofrenia, mas desenvolveu uma obra de simbologia épica, em que figuras nuas de tamanho imponente dominam cenários povoados também por animais reais ou imaginários.

Ainda no sábado é também inaugurada na Oliva uma exposição de Arte Singular que, reunindo igualmente obras da coleção Treger e Saint Silvestre, revela trabalhos de criadores autodidatas que, voluntariamente ou não, optaram por se distanciar das artes oficiais - num formato que alguns definem como pós-Arte Bruta.

Essa mostra intitula-se "Acordar, sair, caminhar, desacelerar? Olhar, parar. Olhar de novo" e é da responsabilidade da curadora italiana Antonia Gaeta, que afirma que as obras em questão "representam um conjunto complexo submetido a uma certa ideia de organização, regras, proibições, deveres e responsabilidades, mas também possibilitam o seu contrário, mostrando alguma displicência e hilaridade das dinâmicas do urbano, o fantasioso, o grotesco, o labor e o emprego disfuncional do tempo".

A primeira das novas exposições da Oliva Creative Factory estará patente ao público até 26 de fevereiro de 2017; a segunda, até 23 de outubro deste ano. Em paralelo, o museu acolhe atualmente também a mostra "Paradoxos da Torre de Marfim - A pintura e o pictórico na Coleção Norlinda e José Lima`, que poderá ser visitada até 24 de setembro.

Tópicos:

Bruta, Intitulada, Olhar, Oliva Creative Factory, Singular, Treger,

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