Serralves inaugura primeira exposição a partir do arquivo de Siza Vieira

| Cultura

O museu de Serralves inaugurou hoje a exposição "Matéria-prima: Um olhar sobre o arquivo de Álvaro Siza", a primeira a partir dos materiais depositados por Siza no museu, expondo partes de 27 dos 40 projetos em arquivo.

O arquivo de Siza Vieira encontra-se distribuído pelo Centro Canadiano de Arquitetura, em Montreal, no Canadá, pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e por Serralves, no Porto, que recebeu 40 projetos, num total de seis mil plantas e mais de 60 mil documentos, que começaram a dar entrada no museu há cerca de seis meses.

Em declarações aos jornalistas antes da abertura da exposição comissariada por André Tavares, que vai estar até 18 de setembro na biblioteca de Serralves, Siza Vieira - para quem hoje foi um dia "muito satisfatório" - realçou que "Serralves atinge assim uma tendência que hoje nos museus de arte contemporânea já é usual, que é incluir nos seus arquivos obras de arquitetura".

A presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, Ana Pinho, sublinhou ser "um dia especial para a fundação", que vai marcar "a importância cada vez maior" que o museu quer dar à arquitetura como parte da programação, organizando debates e outros eventos ligados àquela arte.

"A obra do arquiteto Álvaro Siza todos a conhecemos, uns melhor, outros pior, mas olhar as obras não nos conta toda a história da arquitetura e a arquitetura é efetivamente um processo, uma construção que se faz pelo caminho do projeto", disse André Tavares, referindo-se às inúmeras cartas e desenhos que compõem o arquivo de Siza e que também pontuam a exposição.

Entre os 27 projetos incluídos na exposição em Serralves encontram-se o da Cooperativa de Lordelo, no Porto (1960-1963), o da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (1987-1993) e a requalificação da avenida D. Afonso Henriques, no Porto, um dos que não se chegaram a concretizar.

"Há projetos que não se realizam. A maioria do que está nos arquivos, talvez 70 a 80%, não são realizados por razões diferentes. Poucas vezes tem a ver com desinteligências entre o dono da obra e projetistas. Aliás, sem isso o trabalho é pobre. (...) Outras vezes é por falta de dinheiro, mudanças políticas tantas vezes. Muitas vezes acontece que muda a maioria numa cidade e quem vem a seguir, se é de outra maioria, não quer aquele `filho` e portanto já não se realiza aquele projeto", lamentou Siza Vieira.

O arquiteto, que para além de ter assinado o projeto do próprio museu de Serralves projetou a futura Casa do Cinema Manoel d`Oliveira, disse que a única má memória que tem é a "não-realização" de projetos: "Julgo que nunca nenhum cliente meu acabou zangado comigo".

"É natural que haja confrontação porque há diferenças de formação, por um lado há projetistas que se especializaram e que têm um conhecimento mais profundo da matéria e há as outras pessoas, e os projetistas às vezes esquecem-se das outras pessoas. Portanto essa consciência de que a arquitetura antes de mais é um serviço que é prestado à comunidade é a base para a arquitetura", declarou Siza.

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