O governador “invisível”

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Habituei-me, enquanto jornalista de economia, a lidar no terreno com o anterior governador do Banco de Portugal. Talvez por ser um ex-político, Vítor Constâncio falava com os jornalistas fundamentalmente por duas razões: por tudo e por nada!

Enquanto governador do Banco de Portugal, tinha agenda pública quase diária. Participou em inúmeras conferências e eventos do género nos quais falava longamente em público. No final, quase sempre, estava disponível para responder às perguntas dos jornalistas, fossem elas sobre os bancos ou sobre as inquietações acerca da economia do país.

Por obrigação do cargo, Vítor Constâncio respondeu horas a fio às perguntas dos deputados em comissões parlamentares intermináveis. Muitas vezes, no final, ainda parava para responder às perguntas dos jornalistas. Não está aqui em causa se Vítor Constâncio foi, ou não, um bom governador. Limito-me a constatar factos.

Depois Vítor Constâncio foi para Frankfurt, para vice-presidente do Banco Central Europeu. Não está aqui em causa se devia, ou não, ter ido depois dos casos que afetaram muito mais do que a reputação dos bancos portugueses. Foi para Frankfurt. Facto.

Em junho de 2010 chegou Carlos Costa. E logo na tomada de posse como governador do Banco de Portugal - a que assisti ao serviço da RTP – percebi que o estilo era diferente: menos político, mais discreto, menos à vontade com as câmaras, algo normal para quem nunca foi político.

O tempo confirmou a primeira impressão sobre Carlos Costa. Menos agenda pública, raros momentos para responder às perguntas dos jornalistas que acompanhavam os eventos públicos onde comparecia.

Depois veio a queda do império BES. E a resolução do Banif. E consequentes polémicas. Desde aí, e muito especialmente desde que foi reconduzido no cargo, a agenda pública de Carlos Costa tornou-se quase residual. Comparece às comissões parlamentares, onde responde às perguntas dos deputados. Mal seria se assim não fosse…

Nos poucos atos públicos em que marca presença nunca mais respondeu a jornalistas. Não faz conferências de imprensa. Não dá entrevistas a jornais, rádios ou televisões. O contacto com os jornalistas é feito apenas através de comunicados. O governador do Banco de Portugal não se expõe às perguntas dos jornalistas. Nem sobre os bancos nem sobre coisa alguma.

Não sabemos o que tem Carlos Costa a dizer sobre os problemas que persistem na banca que supervisiona, exceto quando responde a perguntas dos deputados. Não sabemos o que pensa do momento da economia do país. Não sabemos uma coisa tão simples como, por exemplo, o que acha da proposta de Orçamento do Estado. Não sabemos o que pensa. Porque nós, jornalistas, não temos sequer oportunidade de lhe perguntar.

O governador cumpre os seus deveres quando presta contas ao parlamento. Mas a imprensa é também um dos pilares da democracia. O trabalho dos jornalistas é fundamental para que a democracia seja mais forte e saudável. Carlos Costa não entende ou não quer entender isto.

Pessoalmente nada, mas mesmo nada, me move contra o governador. As poucas vezes que falei com ele achei-o uma pessoa extremamente afável, educada e bem preparada para o cargo. Mas considero extremamente negativo que insista em ser tão “invisível”.

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