Francisco Assis defende Governo liderado por Passos e critica "pressões" de setores da esquerda

por Christopher Marques - RTP

Sem margem para dúvidas, Francisco Assis mostra-se contra um eventual Governo socialista, apoiado por Bloco de Esquerda e PCP. O eurodeputado defende que cabe a Passos Coelho ser o próximo primeiro-ministro, e que este deverá esforçar-se para fazer entendimentos pontuais com os socialistas. Na Grande Entrevista, Assis admitiu que possa voltar a candidatar-se à liderança do PS, mas só em "circunstâncias excecionais". "Estamos muito longe disso", garantiu.

Francisco Assis insiste que o PS deveria deixar a coligação liderar o Governo, cabendo aos socialistas assumir a liderança da oposição. Na Grande Entrevista da RTP, o eurodeputado admitiu a divergência face a António Costa.

“Entendi que tenho responsabilidades perante o país e o PS que me obrigam a tornar pública esta posição”, referiu. “Não aceito esta arrogância de alguns setores da esquerda portuguesa que procuram desqualificar algo, considerando-o como sendo de direita ou representando o PS dos interesses aqueles que não pensam como eles”.

Veja na íntegra a Grande Entrevista a Francisco Assis no RTP Play

O eurodeputado, frequentemente apontado como um potencial candidato à liderança do PS, acredita que mais socialistas partilham da sua opinião. “Sinto que há hoje muita gente no PS e no país que pensa exatamente como penso e que está a ser vítima de uma pressão inaceitável de outros setores muito arrogantes”, defendeu na Grande Entrevista da RTP.“Não fugi, não me escondi, não estive à espera dos insucessos dos outros, nem estive a preparar uma espécie de carreirinha política"

Francisco Assis explicou a Vítor Gonçalves porque não concorda com uma coligação à esquerda. O eurodeputado considera que a mera distinção entre partidos de direita e de esquerda no Parlamento não é correta.

“Não há uma esquerda em Portugal. Há várias esquerdas em Portugal”, tendo defendido que há três blocos no Parlamento: o bloco de direita, o bloco de centro-esquerda e um bloco da “esquerda mais extremista”.

E não é entre a direita e o centro-esquerda que está a grande clivagem, defende Assis. O político defende que as grandes divergências existem entre o PS e os partidos à sua esquerda.

“É como se uma associação de ateus agora se lembrasse de convidar o papa para fazer parte dessa associação”, comparou. Assis exemplificou as divergências com as questões europeias e de política externa, nomeadamente em relação à NATO, e também com a reforma da Segurança Social.
“Melhor para o país”
Para Assis, Passos Coelho deve manter-se em São Bento. O eurodeputado insiste que um governo baseado numa associação dos partidos à esquerda não tem viabilidade e que um Governo da coligação “é o melhor para o país e para o PS”.

“Não se pode governar a qualquer preço e de qualquer maneira, porque pagamos um preço grande por isso”, afirmou.
Apesar do projeto que defende, Assis não poupa críticas à coligação. O ex-presidente da Câmara Municipal de Amarante critica a atitude “muito fechada” e de “grande arrogância” da direita nos últimos anos.

“A direita comportou-se muito mal com as oposições”, tendo ainda dito que não vê utilidade em prolongar-se “indefinidamente” as negociações entre PS, PSD e CDS-PP. "A ideia de que os problemas do país estão resolvidos é uma ficção que nos foi vendida pela direita”

“O diálogo com a coligação, nos termos em que está a ser feito, está condenado ao fracasso”, classificando-o mesmo de “inútil”. Para Assis, a solução passa por entendimentos pontuais.

“A direita apresenta o seu programa de Governo. O PS assume-se como partido de oposição responsável e em cada momento terá de negociar com o Governo a viabilização, ou não, dos instrumentos imprescindíveis para a governação do país”. Assis sublinhou ainda que os governos minoritários do PS também não estiveram sujeitos a uma negociação prévia.
“Não fugi, não me escondi”
Apesar das divergências, Francisco Assis elogiou António Costa. O eurodeputado considera mesmo que o secretário-geral é uma das “grandes figuras da vida política portuguesa”, e recusa a ideia de que perder uma eleição significa o fim de uma carreira política. “Desconfio é daqueles que nunca perdem eleições, porque esses normalmente não travam os combates difíceis, ficam só à espera dos combates fáceis”.

Assis disse que não está no seu “horizonte pessoal” avançar com uma candidatura à liderança do PS, e não põe em causa o lugar de António Costa. No entanto, não exclui a possibilidade de se voltar a candidatar à liderança socialista porque, garante, assume as suas responsabilidades.


“Só serei, algum dia de novo, candidato a líder do PS em circunstâncias excecionais e se entender que tenho obrigação, perante a minha consciência política, perante o PS e o país, de me candidatar à liderança do PS. Estamos muito longe de chegar a uma situação dessa natureza”, garantiu.

Assis sublinhou que tem assumido funções com pessoas diferentes e em cargos distintos, e que se manteve sempre na “primeira linha”. “Não fugi, não me escondi, não estive à espera dos insucessos dos outros, nem estive a preparar uma espécie de carreirinha política à espera que os outros falhassem. Este tipo de intervenção política repugna-me”.“Desconfio é daqueles que nunca perdem eleições, porque esses normalmente não travam os combates difíceis

Durante a entrevista, Francisco Assis sublinhou ainda a importância do tratado transatlântico para a Europa.

“É um tratado muito importante para a regulação das relações comerciais internacionais e para a salvaguarda dos interesses europeus”.

O eurodeputado manifestou ainda o seu apoio público à candidatura de Maria de Belém à Presidência da República.
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