Eucalipto, a árvore que reina sobre a floresta nacional

O eucalipto é a espécie que mais área ocupa na floresta portuguesa. E os números confirmam que tem vindo a aumentar continuamente, pelo seu rendimento económico a curto prazo. Se para uns continua a ser vista como um perigo, que está a degradar a floresta portuguesa, há investigadores que defendem o seu aproveitamento no fabrico de produtos de madeira ou com utilidade farmacêutica.

| Incêndios 2015

Riscos de elevado consumo de água, erosão dos solos, aposta numa monocultura florestal com pouco potencial em termos de biodiversidade, incêndios mais difíceis de controlar, muitos têm sido os fatores negativos apontados ao eucalipto, nos últimos anos.

O certo é que segundo os últimos resultados preliminares do Inventário Florestal Nacional, os eucaliptos tiveram um crescimento de 13 por cento entre 1995 e 2010 e são hoje a espécie dominante na floresta portuguesa, com 812 mil hectares plantados.

A floresta portuguesa ocupa 3,2 milhões de hectares, o que corresponde a 35,4 por cento do território nacional, registando entre 2005 e 2010 um decréscimo de 57 mil hectares. Matos e pastagens ocupam 32 por cento e as áreas agrícolas 24 por cento.

A propriedade florestal é maioritariamente privada, com 2,8 milhões de hectares, ou seja, 84,2 por cento da área total detida por pequenos proprietários de cariz familiar, dos quais 6,5 por cento são pertencentes a empresas industriais.

As áreas públicas correspondem a 15,8 por cento do total, dos quais apenas dois por cento (a menor percentagem da Europa) são do domínio privado do Estado.

De acordo com Helena Pereira, coordenadora do Centro de Estudos Florestais (CEF), do Instituto Superior de Agronomia (ISA), apesar de ter havido erros no passado, o eucalipto foi um caso de sucesso e pode ser ainda explorado noutras vertentes.



Portugal utiliza essencialmente o eucalipto para produção de pasta de papel, mas esta investigadora defendeu a aposta em outros aproveitamentos, como o fabrico de produtos de madeira ou outros com utilidade farmacêutica.

A coordenadora do CEF realçou a possibilidade de extrair compostos químicos com potencial bioatividade, por exemplo, antioxidantes ou produtos com utilidades farmacêuticas, e extrair esses compostos não só da madeira mas também da casca.

Uma utilização apontada por esta especialista é a energética, através da produção de biomassa. Um conceito de aproveitamento integral do recurso, neste caso do eucalipto, que se divide em várias espécies, evitando desperdícios.

Este e outros temas estiveram em debate no ISA, num seminário sobre "Eucalipto - Produção e Ambiente", uma iniciativa integrada no ciclo "Da Investigação à Aplicação", com o objetivo de apresentar o trabalho do CEF, conhecer melhor as espécies florestais e encontrar formas de aproveitar as suas características.
Quercus apreensiva
Já para a Quercus o panorama não é tão animador como possa parecer. Domingos Patacho, coordenador do Grupo de Trabalho das Florestas da associação ambientalista, considera preocupante que o eucalipto se tenha tornado na espécie que mais espaço ocupa na floresta nacional.

A Quercus está apreensiva com “a falta de resposta do ICNF, que viabiliza autorizações tácitas de projetos de arborização com eucalipto convertendo pinhais e outros povoamentos com espécies da nossa floresta autóctone, sem respeitar condicionantes como a Reserva Ecológica Nacional”.

Ao fim de dois anos da entrada em vigor do novo regime de arborização, a associação ambientalista alerta para a existência de problemas na implementação, com degradação da floresta nacional.



“O sistema de informação para gestão dos projetos de arborização do ICNF ainda não está operacional, dificultando a pretensão dos proprietários e favorecendo o deferimento tácito, o qual contraria o correto ordenamento florestal. A última nota informativa do ICNF revela que 94% da área das rearborizações autorizadas ou validadas foram plantadas com eucalipto”, diz a Quercus.

“Nas áreas inferiores a 50 hectares eram os municípios que tinham que autorizar as plantações de eucaliptos, mais de 50 hectares eram os serviços do ICNF. A nível local, a Câmara tinha algum poder. Neste momento, os municípios não têm nenhuma posição sobre o que é que se faz no seu concelho em termos de arborização. A paisagem pode mudar porque a administração, em Lisboa, fez uma lei à medida de alguns interesses”, salientou Domingos Patacho ao site da RTP.

Como a plantação de eucaliptos “ocorre em monocultura, com vastas áreas sem terem terrenos agrícolas, sem terem aceiros, faixas de descontinuidade que permitam conter os incêndios, torna uma situação bastante preocupante, principalmente no verão, quando o risco de incêndio é elevado e, portanto, nessa situação, deveria haver um maior ordenamento que não existe”, disse o responsável da Quercus.
ICNF está a rever planos
Já João Pinho, vice-presidente do ICNF disse ao site da RTP que a nova lei é “muito mais rigorosa em muitos aspetos do que era a lei anterior. Isso foi uma ideia feita, um mito que se criou porque essa lei teve muita discussão pública. O grande caminho, aquilo que deve ser discutido é o ordenamento florestal à escala regional e nós estamos neste momento a rever os planos regionais de ordenamento florestal”.

No entanto, este responsável disse ser “provável que muitas das orientações que neste momento existem nesses planos regionais, que são vinculativas para os proprietários particulares, possam ter uma revisão tendo em consideração aquilo que tem sido o histórico recente de evolução da floresta e dos próprios pedidos de autorização e licenciamento de arborização e os planos de gestão florestal. Portanto, uma floresta com um acompanhamento técnico mais cuidado, mais próximo e ela própria também prioritária depois nos apoios públicos”.


 

“Este novo regime alargou o período de autorização por diferimento tácito, isto é, o anterior regime previa 30 dias para os serviços públicos analisarem e decidirem e se nesses 30 dias não houvesse aprovação, uma decisão definitiva do projeto, o projeto era aprovado tacitamente", disse o responsável do ICNF.

E acrescentou: "Neste momento, esse período alargou-se de 30 para 45 dias. Portanto, há mais margem para a administração pública ter mais tempo para analisar os projetos. Agora, é óbvio que instalou-se na opinião pública a ideia de que este sistema seria mais permissivo do que era o anterior, quando na prática é exatamente ao contrário”.
Mais de 500 processos de contraordenação
João Pinho referiu à RTP que, a partir da entrada em vigor da nova lei, há cerca de dois anos, mais de 500 processos de contraordenação foram decididos.

“Nunca tivemos tantas contraordenações, tantos autos de notícia por projetos mal executados ou executados sem autorização como tínhamos antigamente. Portanto, há uma explosão de situações ilegais que, neste momento, nós conseguimos atuar perante elas porque sabemos que temos um sistema de informação que nos permite saber se aquilo já foi ou não autorizado. Há um salto qualitativo que é da noite para o dia”, salientou o responsável do ICNF.

Distribuição dos processos autorizados e validados, segundo ocupação florestal em área - Período 2013 a 2014

Fonte: ICNF

De acordo com os principais indicadores do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), no período de 2013 a 2014, as áreas totais autorizadas para (re)arborização atingem 24.483 hectares, das quais 44 por cento respeitam a eucalipto, 31 por cento a sobreiro e 12 por cento a pinheiro-manso.


Ambientalistas exigem embargo
Atualmente e segundo a Quercus, “um dos casos mais graves refere-se ao corte de pinhal bravo prematuro na Quinta do Carregal, em Ourém. Esta Quinta foi adquirida pelo Município de Ourém há 14 anos, o qual posteriormente transferiu a propriedade para a empresa MaisOurém. Contudo, outros que também se arrogam proprietários, sem que a titularidade fosse confirmada, iniciaram neste local a mobilização do terreno com escavadora giratória para plantação de 10 hectares de eucalipto, convertendo o pinhal autóctone associado às más práticas florestais”, disse a Associação ambientalista.



“Dado que parte do terreno está em Reserva Agrícola Nacional (RAN) e Reserva Ecológica Nacional (REN) e que as condições do projecto ao ICNF não estão a ser cumpridas (sem parecer obrigatório da CCDR-LVT e do Município), a Quercus solicitou a pronta intervenção dos serviços do ICNF para identificação dos responsáveis, com instauração de processo de contraordenação, sem contudo existir até agora resposta para impedir o avanço desta intervenção ilegal”.

A Quercus diz ainda que “existe uma reincidência, dado que no início do ano o mesmo requerente já tinha efetuado o corte integral da vegetação natural dominada pelo pinhal-bravo e salgueiral, numa área adjacente de cerca de cinco hectares, tendo mobilizado o terreno em REN e RAN e plantado eucaliptos até à margem das linhas de água em domínio hídrico, sem autorização”.

Dada a gravidade da situação, a Quercus exige embargo e reconstituição da situação.
ISA usa modelos
A floresta de produção - e em particular as plantações de eucalyptus globulus - ganharam relevância económica ao longo das últimas décadas.

O aumento da capacidade instalada da indústria da pasta e do papel em Portugal e a crescente procura de madeira para fins energéticos, combinados com uma elevada incidência de incêndios florestais, vieram pôr em causa a sustentabilidade das florestas de eucalipto.

Face à situação atual, o uso de modelos de base fisiológica para fazer projeções da evolução da floresta está a ganhar relevância sobre os modelos tradicionais.

Tais modelos fazem uma descrição mecanicista das interações entre as plantas e o ambiente, avaliando os balanços de energia, água, carbono e nutrientes dentro de um determinado ecossistema.

O modelo 3PG, apresentado pela investigadora Margarida Tomé, do CEF, é um modelo simples baseado na simulação dos principais processos fisiológicos e que não é muito exigente em termos da caracterização da estação e já foi parametrizado para a simulação do crescimento das plantações de eucalipto em Portugal.

Há trabalhos em curso no ISA que estão a explorar os dados de cinco ensaios de adubação estabelecidos em diferentes regiões de Portugal.



Os atuais cenários das alterações climáticas indicam que a temperatura irá aumentar substancialmente e muitas das áreas, atualmente afetadas pela seca, região Mediterrânica incluída, vão tornar-se mais áridas.

Espera-se também que a precipitação se torne mais variável, havendo eventos extremos mais frequentes e intensos, como sejam as secas severas ou as vagas de calor.
Causas de mortalidade por esclarecer
“Em relação ao eucalipto, vimos que o aumento da temperatura estimula o crescimento sim, mas também aumenta a vulnerabilidade das plantas”, disse ao site da RTP Raquel Lobo do Vale, do CEF.

Dependendo da severidade das alterações climáticas, poderá ocorrer mortalidade. Contudo, as causas da mortalidade das árvores ainda não estão completamente esclarecidas.



“A nossa investigação tem-se focado principalmente nas respostas de árvores à disponibilidade de água. Os nossos resultados destacam a resiliência dos ecossistemas mediterrânicos à variabilidade interanual de precipitação, mas também uma elevada sensibilidade para quantidade e época de precipitação”.

Os resultados preliminares indicam que os efeitos negativos da seca se sobrepõem aos efeitos positivos da temperatura.
Simuladores podem reduzir risco de incêndios

As alterações climáticas apontam para um potencial aumento do número de fogos e da área queimada. De acordo com Ana Sá, investigadora no CEF, pretende-se minimizar os impactos dos grandes incêndios no futuro, gerando informação que permita não só reduzir o risco de incêndio mas também apoiar decisões num contexto operacional de combate.



“Nesta matéria específica das simulações em que nós integramos dados de satélite ainda nada foi feito em Portugal. Em 2014 começou uma colaboração com a proteção civil e, neste sentido, nós tentámos criar um sistema em que a Proteção Civil nos dá num determinado momento, em tempo real, uma ocorrência, e em cerca de 15 minutos nós conseguimos providenciar a qualquer utilizador informação com mapa de probabilidade onde é que o fogo se vai encontrar nas próximas horas, para que eles possam utilizar esta informação em termos de recursos”.



“A informação que está a ser gerada pelos simuladores não está a ser utilizada num contexto operacional, está apenas a ser testada. Em 2015 continuamos esta colaboração com a proteção civil. No entanto, queríamos testar em grandes incêndios”, salienta a investigadora.
A caixa de Pandora
As plantações de eucalipto representam atualmente a maior área de floresta plantada do país, mas as suas produtividade e sustentabilidade têm vindo a ser ameaçadas por um crescente número de espécies invasoras.

Nos últimos anos, a taxa de entrada, em Portugal, de novas espécies de pragas de eucaliptos aproxima-se de uma nova espécie por ano. A nível global, a taxa atual de novas introduções é cinco vezes superior à dos anos 80.

Ao examinar-se os padrões de distribuição temporal e espacial das invasões biológicas associadas aos eucaliptos, verifica-se que a maioria das espécies estabelecidas na Península Ibérica tem provavelmente uma origem secundária, sobretudo da América do Sul e norte de África.

“As medidas de quarentena atuais parecem ser ineficazes para evitar novas entradas, sendo necessário desenvolver estratégias de deteção de pragas invasoras. Por outro lado, são necessárias estratégias de gestão florestal que permitam minimizar os impactes das novas pragas”, salientou Manuela Branco, investigadora do CEF.



“Neste momento, em Portugal, já temos 11 pragas invasoras: duas são insetos que vivem no tronco e se alimentam na madeira, um desfolhador que é talvez o problema principal dos nossos produtores de eucalipto, quatro sugadores que se alimentam das folhas, um ácaro que também é sugador e temos três insetos que causam galhas nas folhas. Destes onze, mais de metade chegaram nos últimos dez anos, quase ao ritmo de um por ano”, disse esta investigadora.
Fonte de riqueza
Ainda assim, desde há muito que a floresta se transformou num negócio. É vista por muitos como uma indústria, que o diga Nuno Coimbra, produtor florestal na Chamusca, que vê a plantação de eucaliptos como uma fonte de riqueza.



Com uma área de 600 hectares e cerca de um milhão de euros de investimento, este produtor florestal disse ao site da RTP que em dez, 12 anos, consegue ter os primeiros resultados.

Além disso, “a parte agrícola tem muitas zonas que estão a ser abandonadas porque o agricultor não tem rendimento e esses terrenos podem ser para plantações de eucalipto, vendo aqui uma cultura de rentabilidade”.

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