Mundo
Fillon ou Juppé: o que representa cada um para Portugal e o mundo?
Alain Juppé e François Fillon apresentaram-se na quinta-feira para o último debate antes da segunda volta da eleição primária. Uma ocasião para explicar diferenças, tentar convencer e mobilizar o eleitorado. Os dois candidatos propõem reformas conservadoras para aumentar a competitividade francesa. Para o mundo, apresentam pontos de vista diferentes. Qual deles é melhor para Portugal?
Dois candidatos, três jornalistas, mais de oito milhões de telespectadores. Pela primeira e última vez depois da primeira volta, Alain Juppé e François Fillon trocaram argumentos frente a frente e defenderam os seus projetos. Um deles vencerá no domingo e será o candidato da direita ao Eliseu, tornando-se – segundo as sondagens - no mais provável próximo Presidente francês.
O objetivo era esclarecer e explicar, demonstrar as diferenças e evitar exaltações. Não dividir, apresentar o que os separa, depois de uma semana marcada por maior tensão e troca de argumentos. Afinal, os dois conhecem-se bem. Juppé foi primeiro-ministro e teve Fillon como um dos seus governantes. Fillon foi chefe do Governo e teve Juppé como um dos seus ministros.
Posto isto, lugar às diferenças. Não há sombra de dúvidas. Ambos são conservadores, mas Fillon assume um projeto muito mais radical do que Juppé. Não o esconde, até porque foi com esse mesmo programa que, surpreendentemente, ficou à frente de Alain Juppé na primeira volta e atirou Nicolas Sarkozy para fora da vida política.
“É um facto que o meu projeto é mais radical, talvez mais difícil”, afirma o ex-primeiro-ministro gaulês, agora comparado com Margaret Thatcher. Aos franceses promete uma dose de austeridade para curar os males da competitividade gaulesa. Confrontado por Juppé com a eventual impossibilidade de cumprir o seu projeto, Fillon acusa-o de não querer uma verdadeira mudança.
O debate foi ainda uma oportunidade para os dois candidatos tentarem limpar-se dos traços “caricaturais” de que são alvo. Fillon lamenta ser apresentado como um “conservador da Idade Média”. Por sua vez, Alain Juppé, que apresenta uma visão mais multicultural do país, deplora ser apresentado como “o grande mufti de Bordéus”. O candidato tem sido apelidado por alguns sites como “Ali Juppé”, que o associem ao Islão radical.
Com o seu programa, François Fillon conquistou mais de 40 por cento dos votos. É agora o favorito a conquistar a camisola republicana na corrida ao Eliseu. A responsabilidade do ataque passou para o lado de Juppé que no debate tentou desmontar as promessas mais radicais do adversário. Critica a sua visão tradicional e conservadora da família e a proximidade com Moscovo.
França e a Europa
A influência que o próximo Presidente francês terá para Portugal está muito dependente das posições internacionais apresentadas pelos candidatos. Em pano principal, a visão que apresentam para a União Europeia e a futura relação com a Rússia.
Alain Juppé vê a União como uma organização a necessitar de uma grande reforma. O candidato mais moderado pretende tornar a UE “menos burocrática” e reforçar as capacidades de defesa comum. O autarca de Bordéus defende a criação de uma polícia europeia para as fronteiras, transformando o atual Frontex. Pretende ainda negociar um novo tratado que substitua o Acordo de Schengen.
Juppé pretende ver a saída do Reino Unido da União Europeia esclarecida o mais rapidamente possível e quer que a Europa discuta o futuro. Para assinalar os 60 anos do Tratado de Roma, que se celebram já em 2017, o candidato propõe a realização de um “congresso da consciência europeia” que dê lugar a um novo projeto de União Europeia. Alain Juppé pretende ainda que este projeto seja referendado pelos Estados-membros.
François Fillon foca-se na necessidade de criar um Governo europeu para a Zona Euro, intensificando a cooperação entre este núcleo mais restrito de países. Este Governo económico passa pela cooperação nas Finanças mas também pelos chefes de Estado e de Governo. Fillon quer que seja criada um Secretariado-Geral para a Zona Euro com funcionamento autónomo da Comissão Europeia.
O candidato mais liberal pretende ainda avançar com maior harmonização orçamental e fiscal entre Estados-membros e regras comuns para a dívida pública.
Rússia e Síria
Depois da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, poderá ser a França a ter um Presidente pró-Putin. François Fillon tem sido criticado pela sua proximidade a Moscovo. Caso chegue ao Eliseu, promete reconstruir a relação do país com a Rússia.
O candidato quer acabar com o embargo imposto a Moscovo na sequência da anexação da Crimeia e quer cooperar com Vladimir Putin no que diz respeito à Síria. Fillon vai mesmo mais longe: propõe uma aliança com Bashar al-Assad e com a Rússia para destruir o autoproclamado Estado Islâmico.
Fillon nega ser pró-Bashar al-Assad, justificando a posição com o facto de a política até agora seguida não ter conseguido acabar com o conflito na Síria.
Por sua vez, Alain Juppé não nega a necessidade de estabelecer um diálogo com Moscovo, mas apresenta-se crítico do país, nomeadamente pelo apoio ao regime de Damasco e pelos bombardeamentos levados a cabo em Alepo.
Identidade francesa
Há vários anos que o tema persiste na política francesa, pressionada pelos avanços da extrema-direita. Na busca pela identidade francesa, Fillon e Juppé apresentam as suas diferenças.
O autarca de Bordéus opta por uma abordagem mais multicultural, acreditando que a “diversidade da França” é um dos seus trunfos. “Não somos todos iguais: temos origens diferentes, cores de pele diferentes (…), temos religiões diferentes, alguns não têm e temos também ideias políticas diferentes”, sublinha o candidato.
Juppé rejeita no entanto uma França que ceda à segregação. O candidato não quer cada grupo a viver separadamente com os seus, as suas leis e hábitos de vida. Juppé pretende “uma unidade reforçada para a nação”.
Por sua vez, François Fillon apresenta um discurso de defesa da história gaulesa. O candidato mais conservador recorda que o país tem “uma história, uma língua e uma cultura”. “Naturalmente que esta cultura e esta língua foram enriquecidas pela população estrangeira, mas continua a ser a base, o fundamento da nossa identidade”, afirmou no debate desta quinta-feira.
Fillon quer que os imigrantes em França se integrem e respeitem a “herança cultural” do país. “Quando vamos a casa de outra pessoa, por cortesia, não tomamos o poder, respeitamos o outro”, justificou.
Política interna e reflexos internacionais
Para além da visão internacional e da imigração, há questões internas e domésticas que poderão acabar por influenciar os ideais noutros países. Os dois apresentam propostas que têm semelhanças com o programa de ajustamento vivido em Portugal, com Fillon a apresentar maior radicalismo nas medidas propostas.
Os dois pretendem aumentar os horários de trabalho, de forma a incrementar a competitividade da economia gaulesa. Para além de dar espaço às empresas para negociar novos acordos laborais, os dois querem que os funcionários públicos trabalhem mais horas.
Alain Juppé quer que as 39 horas de trabalho semanal passem a ser regra mas de “forma progressiva” e com o respetivo aumento salarial. O candidato acusa o adversário de querer que os funcionários públicos trabalhem 39 horas e apenas recebam 37.
Na resposta, Fillon defendeu que não podem ser negociados aumentos da carga laboral no setor privado com os funcionários públicos a trabalhar “35 horas, ou até mesmo 32”. “Os funcionários devem realizar um esforço de trabalho suplementar para ajudar o país a recuperar”, justificou.
Para além do aumento da carga horária, Fillon pretende acabar com 500 mil empregos públicos em cinco anos. Juppé considera que este cenário é impossível, avisando que significaria não contratar durante toda uma Presidência. O autarca de Bordéus compromete-se a acabar com 200 mil empregos públicos.
No setor privado, ambos os candidatos querem dar maior liberdade às empresas para negociar acordos. No entanto, Juppé defende que as 39 horas devem ser a referência para a carga laboral. Fillon apresenta apenas um valor máximo: 48 horas semanais, o máximo permitido pela legislação europeia.
No debate, François Fillon defendeu ainda que o “modelo social” francês já não funciona e Alain Juppé propôs um aumento progressivo da idade de reforma até aos 65 anos.
Nenhum dos candidatos pretende voltar atrás e acabar com o casamento entre casais do mesmo sexo e interditar a interrupção voluntária da gravidez. No entanto, François Fillon pretende condicionar a adoção por casais homossexuais.
O objetivo era esclarecer e explicar, demonstrar as diferenças e evitar exaltações. Não dividir, apresentar o que os separa, depois de uma semana marcada por maior tensão e troca de argumentos. Afinal, os dois conhecem-se bem. Juppé foi primeiro-ministro e teve Fillon como um dos seus governantes. Fillon foi chefe do Governo e teve Juppé como um dos seus ministros.
Posto isto, lugar às diferenças. Não há sombra de dúvidas. Ambos são conservadores, mas Fillon assume um projeto muito mais radical do que Juppé. Não o esconde, até porque foi com esse mesmo programa que, surpreendentemente, ficou à frente de Alain Juppé na primeira volta e atirou Nicolas Sarkozy para fora da vida política.
“É um facto que o meu projeto é mais radical, talvez mais difícil”, afirma o ex-primeiro-ministro gaulês, agora comparado com Margaret Thatcher. Aos franceses promete uma dose de austeridade para curar os males da competitividade gaulesa. Confrontado por Juppé com a eventual impossibilidade de cumprir o seu projeto, Fillon acusa-o de não querer uma verdadeira mudança.
O debate foi ainda uma oportunidade para os dois candidatos tentarem limpar-se dos traços “caricaturais” de que são alvo. Fillon lamenta ser apresentado como um “conservador da Idade Média”. Por sua vez, Alain Juppé, que apresenta uma visão mais multicultural do país, deplora ser apresentado como “o grande mufti de Bordéus”. O candidato tem sido apelidado por alguns sites como “Ali Juppé”, que o associem ao Islão radical.
Com o seu programa, François Fillon conquistou mais de 40 por cento dos votos. É agora o favorito a conquistar a camisola republicana na corrida ao Eliseu. A responsabilidade do ataque passou para o lado de Juppé que no debate tentou desmontar as promessas mais radicais do adversário. Critica a sua visão tradicional e conservadora da família e a proximidade com Moscovo.
França e a Europa
A influência que o próximo Presidente francês terá para Portugal está muito dependente das posições internacionais apresentadas pelos candidatos. Em pano principal, a visão que apresentam para a União Europeia e a futura relação com a Rússia.
Alain Juppé vê a União como uma organização a necessitar de uma grande reforma. O candidato mais moderado pretende tornar a UE “menos burocrática” e reforçar as capacidades de defesa comum. O autarca de Bordéus defende a criação de uma polícia europeia para as fronteiras, transformando o atual Frontex. Pretende ainda negociar um novo tratado que substitua o Acordo de Schengen.
Juppé pretende ver a saída do Reino Unido da União Europeia esclarecida o mais rapidamente possível e quer que a Europa discuta o futuro. Para assinalar os 60 anos do Tratado de Roma, que se celebram já em 2017, o candidato propõe a realização de um “congresso da consciência europeia” que dê lugar a um novo projeto de União Europeia. Alain Juppé pretende ainda que este projeto seja referendado pelos Estados-membros.
François Fillon foca-se na necessidade de criar um Governo europeu para a Zona Euro, intensificando a cooperação entre este núcleo mais restrito de países. Este Governo económico passa pela cooperação nas Finanças mas também pelos chefes de Estado e de Governo. Fillon quer que seja criada um Secretariado-Geral para a Zona Euro com funcionamento autónomo da Comissão Europeia.
O candidato mais liberal pretende ainda avançar com maior harmonização orçamental e fiscal entre Estados-membros e regras comuns para a dívida pública.
Rússia e Síria
Depois da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, poderá ser a França a ter um Presidente pró-Putin. François Fillon tem sido criticado pela sua proximidade a Moscovo. Caso chegue ao Eliseu, promete reconstruir a relação do país com a Rússia.
O candidato quer acabar com o embargo imposto a Moscovo na sequência da anexação da Crimeia e quer cooperar com Vladimir Putin no que diz respeito à Síria. Fillon vai mesmo mais longe: propõe uma aliança com Bashar al-Assad e com a Rússia para destruir o autoproclamado Estado Islâmico.
Fillon nega ser pró-Bashar al-Assad, justificando a posição com o facto de a política até agora seguida não ter conseguido acabar com o conflito na Síria.
Por sua vez, Alain Juppé não nega a necessidade de estabelecer um diálogo com Moscovo, mas apresenta-se crítico do país, nomeadamente pelo apoio ao regime de Damasco e pelos bombardeamentos levados a cabo em Alepo.
Identidade francesa
Há vários anos que o tema persiste na política francesa, pressionada pelos avanços da extrema-direita. Na busca pela identidade francesa, Fillon e Juppé apresentam as suas diferenças.
O autarca de Bordéus opta por uma abordagem mais multicultural, acreditando que a “diversidade da França” é um dos seus trunfos. “Não somos todos iguais: temos origens diferentes, cores de pele diferentes (…), temos religiões diferentes, alguns não têm e temos também ideias políticas diferentes”, sublinha o candidato.
Juppé rejeita no entanto uma França que ceda à segregação. O candidato não quer cada grupo a viver separadamente com os seus, as suas leis e hábitos de vida. Juppé pretende “uma unidade reforçada para a nação”.
Por sua vez, François Fillon apresenta um discurso de defesa da história gaulesa. O candidato mais conservador recorda que o país tem “uma história, uma língua e uma cultura”. “Naturalmente que esta cultura e esta língua foram enriquecidas pela população estrangeira, mas continua a ser a base, o fundamento da nossa identidade”, afirmou no debate desta quinta-feira.
Fillon quer que os imigrantes em França se integrem e respeitem a “herança cultural” do país. “Quando vamos a casa de outra pessoa, por cortesia, não tomamos o poder, respeitamos o outro”, justificou.
Política interna e reflexos internacionais
Para além da visão internacional e da imigração, há questões internas e domésticas que poderão acabar por influenciar os ideais noutros países. Os dois apresentam propostas que têm semelhanças com o programa de ajustamento vivido em Portugal, com Fillon a apresentar maior radicalismo nas medidas propostas.
Os dois pretendem aumentar os horários de trabalho, de forma a incrementar a competitividade da economia gaulesa. Para além de dar espaço às empresas para negociar novos acordos laborais, os dois querem que os funcionários públicos trabalhem mais horas.
Alain Juppé quer que as 39 horas de trabalho semanal passem a ser regra mas de “forma progressiva” e com o respetivo aumento salarial. O candidato acusa o adversário de querer que os funcionários públicos trabalhem 39 horas e apenas recebam 37.
Na resposta, Fillon defendeu que não podem ser negociados aumentos da carga laboral no setor privado com os funcionários públicos a trabalhar “35 horas, ou até mesmo 32”. “Os funcionários devem realizar um esforço de trabalho suplementar para ajudar o país a recuperar”, justificou.
Para além do aumento da carga horária, Fillon pretende acabar com 500 mil empregos públicos em cinco anos. Juppé considera que este cenário é impossível, avisando que significaria não contratar durante toda uma Presidência. O autarca de Bordéus compromete-se a acabar com 200 mil empregos públicos.
No setor privado, ambos os candidatos querem dar maior liberdade às empresas para negociar acordos. No entanto, Juppé defende que as 39 horas devem ser a referência para a carga laboral. Fillon apresenta apenas um valor máximo: 48 horas semanais, o máximo permitido pela legislação europeia.
No debate, François Fillon defendeu ainda que o “modelo social” francês já não funciona e Alain Juppé propôs um aumento progressivo da idade de reforma até aos 65 anos.
Nenhum dos candidatos pretende voltar atrás e acabar com o casamento entre casais do mesmo sexo e interditar a interrupção voluntária da gravidez. No entanto, François Fillon pretende condicionar a adoção por casais homossexuais.