Maior rede de clínicas de aborto nos EUA acusada de vender órgãos de fetos

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Sede da Planned Parenthood em Houston, Texas
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Um vídeo publicado terça-feira e que rapidamente se tornou viral nas redes sociais, mostra a diretora dos serviços médicos da Federação Planned Parenthood da América a debater, durante um almoço com atores que fingiam ser compradores de uma empresa biológica, a melhor forma de recolher partes dos corpos de fetos abortados.

No vídeo, gravado com uma câmara oculta no dia 25 de julho de 2014, a Dra. Deborah Nucatola, diretora dos serviços médicos da Federação Planned Parenthood da América, discute em detalhe, entre garfadas, como podem ser recolhidas as partes que os seus interlocutores queiram comprar.

  A diretora da Planned Parenthood afirma que "muitas pessoas procuram corações intactos por exemplo, porque estão à procura de nódulos especificos".

"E sempre tantos fígados intactos quantos puderem", acrescenta. Ou "algumas pessoas querem as extremidades de baixo, o que é simples. Quero dizer, essas são fáceis".

Mais à frente, noutro excerto, Nucatola refere-se aos preços geralmente praticados.

"Vou mandar um número ao calhas, eu diria que é algo entre os 30 e os 100 dólares (por espécime) dependendo da clínica e do que é pedido".

Os compradores tentam saber como se procede à recolha e Nucatola refere o uso de ecografias para guiar "e saber onde colocar os forceps".

"O que mais limita a recolha é o calvarium. O calvarium - a cabeça - é basicamente a parte maior. A maior parte do resto pode sair intacta".

"Temos sido muito bons a recolher corações, pulmões, fígados, porque conhecemos essas partes e não se esmagam. Vou basicamente esmagar acima, esmagar abaixo e vou tentar que saia tudo intacto", detalha Nucatola enquanto come folhas de alface.

A Federação, que detém a principal rede de clínicas de aborto nos Estados Unidos, diz que o vídeo é falso.

Mas seis Estados, cujos governadores são republicanos, estão já a investigar as atividades das clínicas locais e o Congresso dos Estados Unidos lançou esta quarta-feira a sua própria investigação às atividades da Planned Parenthood.
Mais vídeos e testemunhas
A gravação foi publicada pelo Centro para o Progresso Médico, uma organização de cidadãos-jornalistas baseados na Califórnia e dedicados a monitorizar e a relatar práticas e avanços médicos sob um ponto de vista ético.

O Centro alega que o vídeo prova que a Federação de clínicas de aborto está envolvida na venda ilegal de fetos abortados.

O líder do Centro, David Daleiden, afirma que o vídeo resultou de dois anos de investigação à venda de tecidos por parte da Planned Parenthood. O Centro garante ter mais vídeos secretos realizados neste período e poder invocar dezenas de testemunhas oculares para provar as acusações.
Planned Parenthood defende-se
A Federação Planned Parenthood, que é oficialmente uma organização sem fins lucrativos e cujas atividades são subsidiadas a nível federal e por donativos, nega veementemente as acusações, afirmando em comunicado que seguiu as regras legais e éticas que autorizam as mulheres a doar tecido fetal para pesquisa científica, sem fins lucrativos para nenhuma das partes.

Reconhece contudo que a mulher no vídeo é a Dra Nucatola.

Num vídeo publicado na sua página a Presidente da Planned Parenthood Cecília Richards defendeu a organização.

"A nossa prioridade é o cuidado carinhoso que fornecemos. No vídeo, um dos membros do nosso staff fala de uma forma que não reflete esse carinho", afirma Richards, embora não nomeando Nucatola.

"Isto é inaceitável e eu peço desculpa pessoalmente pelo tom e declarações desse membro do nosso staff".

A organização afirma ainda que o vídeo foi extremamente editado e gravado por um grupo dedicado a prejudicá-la.

"Estas alegações escandalosas são absolutamente falsas, mas isso não interessa aos políticos com uma agenda já antiga para banir a prática do aborto e tirar os subsídios à Planned Parenthood", afirmou num comunicado o porta-voz da Federação, Eric Ferrero.
Centro põe em causa defesa da Federação
O Centro para o Progresso Médico já respondeu a Cecília Richards, em comunicado, perguntando porque é que a Presidente da Federação está a "lançar aos cães" a diretora Nucatola.

E lembra que, num vídeo recente, a mesma Cecília Richards elogiou a Dra Deborah Nucatola, dizendo que "é fantástica".

E repete a acusação: "Planned Parenthood troca partes de bebés por dinheiro e usa práticas bárbaras de abortos tardios para recolher os maiores e melhores órgãos, num flagrante desprezo pela lei."

"Será que Richards desconhecia como Nucatola estava a supervisionar a prática do aborto, ou apenas não se importou até se tornar um assunto público?" questiona.
Republicanos lançam investigações
A onda de indignação provocada pelo vídeo alastrou por todos os Estados Unidos com vários candidatos republicanos à Presidência a exprimirem a sua repulsa.

Em Washinton, o Presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, pediu aos diversos comités do Congresso relacionados com estas questões que investigassem "as terríveis atividades praticadas pela Planned Parenthood."

"Quando uma organização beneficia financeiramente de uma criança não nascida - e com a atitude de indiferença mostrada neste vídeo horroroso - todos temos de agir", afirmou em comunicado Boehner, que é também o representante Republicano do Estado do Ohio.

O Comité para a Energia e Comércio disse que vai investigar que partes de fetos foram realmente vendidas ilegalmente por lucro. Nos Estados do Luisiana, do Texas, da Georgia, do Indiana, do Ohio, e do Wisconsin, os governadores, republicanos, ordenaram igualmente inquéritos.
"Inventam qualquer coisa"
Apoiantes da Planned Parenthood já vieram a público desvalorizar o vídeo. "Não se julga uma organização pelas acções de um dos seus empregados", afirmou o advogado texano Steve Mostyn, numa entrevista telefónica à Reuters. Mostyn calcula que ele e a mulher doaram em 2014 mais de um milhão de dólares à Planned Parenthood.

Citada pelo The Guardian, Vicki Saporta, Presidente da Federação Nacional do Aborto é direta na acusação aos ativistas anti-aborto. "Inventam qualquer coisa, sabem, se não tiverem nada para apoiar a sua posição", alegando que esta é realmente uma campanha anti-aborto que está a misturar deliberadamente a doação de tecidos fetais para investigação de doenças como Parkinson.

De acordo com especialistas, a utilização de tecidos fetais na pesquisa médica generalizou-se nos anos 90, mas manteve-se controversa. Desde então nas investigações os tecidos humanos têm sido substituídos por células originárias de embriões, células estaminais adultas e outras fontes.
Denúncia reabre questão legal
"É legal obter tecido fetal. Mas não é suposto vendê-lo. Pode certamente ser disponibilizado", afirmou Arthur Caplan, diretor de ética médica do Departamento para a Saúde da População do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova Iorque.

Caplan afirma que algumas empresas recolhem tecido fetal e "cobram muito por ele". "Não creio que as pessoas que doam se apercebam disso", acrescentou citado pela Reuters.

De acordo com as leis federais, a venda de tecidos humanos fetais entre Estados é punida com multas de até 500.000 dólares e até 10 anos de prisão. A lei autoriza "pagamentos razoáveis" para cobrir custos de transporte e armazenamento.

A Federação Planned Parenthood explicou já que custos de transferências deste tipo para centros de investigação são reembolsados nalguns casos, o que considera uma prática médica normal.

Nos Estados Unidos vários organismos e empresas usam tecido fetal para investigação médica. Afirmam que é oriundo de nados-mortos ou de abortos espontâneos ou induzidos.

As investigações são variadas, indo desde anticorpos para neutralizar o vírus do VIH até à produção de vacinas e envolvem muitas vezes estabelecimentos universitários.

A maioria das empresas farmacêuticas está para já a manter o silêncio sobre a denúncia e as acusações à Planned Parenthood.

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