Sete horas e mais de cinco mil balas depois: o relato dos acontecimentos de Saint-Denis

A operação de quarta-feira levou um cenário de guerra a Saint-Denis. As forças especiais francesas lançaram uma ofensiva depois de terem sido informadas que o alegado organizador dos atentados de Paris poderia encontrar-se no local. O responsável do Raid divulgou alguns pormenores sobre uma operação que durou sete horas e na qual as forças da ordem dispararam mais de cinco mil balas.

Christopher Marques - RTP /
Christian Hartmann - Reuters

Madrugada de quarta-feira, é noite cerrada em Saint-Denis. Um testemunho recebido segunda-feira, dia 16 de novembro, conduz as operações até à rue Corbillon. O apartamento fica a cerca de dois quilómetros do Stade de France, um dos palcos dos ataques de 13 de novembro.

As autoridades acreditam que ali se encontram três a cinco pessoas, entre as quais uma mulher. Os elementos do Raid, a polícia de elite francesa, estão conscientes que os suspeitos estão fortemente armados e munidos de cinturões de explosivos.

Em aberto, a possibilidade de Abdelhamid Abaaoud, apontado como cérebro dos atentados de 13 de novembro, estar no interior. Vinte e quatro horas depois, o procurador de Paris confirmou que Abaaoud morreu durante a operação de Saint-Denis.

Regressemos à madrugada de quarta-feira. O assalto tem início às 4h16 locais. São 3h16 em Lisboa. A hora escolhida não é arbitrária: nesta zona da região parisiense, muitos deitam-se tarde, outros levantam-se demasiado cedo. Ninguém foi ainda avisado para que não se corresse o risco de os terroristas serem informados. Os avisos e mensagens aos habitantes serão dados já com a operação a decorrer.
4h16: A primeira explosão

A primeira explosão alerta a vizinhança e dá início aos confrontos. Esta detonação é da responsabilidade das forças de elite francesas que tentam arrombar a porta blindada do 3º andar do número 8 da rue Corbillon em Saint-Denis.

O objetivo era entrar de surpresa, ao fazer explodir a porta blindada que dava acesso ao apartamento. Não foi possível.

“Infelizmente, como acontece algumas vezes não resultou. A porta blindada abre mal. Temos dificuldade a entrar e, por isso, o efeito de surpresa não existe. Muito rapidamente acabamos envolvidos numa violenta troca de tiros. Ripostamos”, confidencia Jean-Michel Fauvergne, líder do Raid em entrevista a Le Figaro.




São cerca de 30 a 45 minutos de uma troca de tiros acesa na noite cerrada de Saint-Denis. Às balas, juntam-se as granadas. Ao longo da operação, as autoridades fazem mais de cinco mil disparos.

O confronto acaba por acalmar, com a troca de tiros a tornar-se mais esporádica, intercalada por períodos mais intensos.

“Por volta das 4h45, três pessoas saíram e entregaram-se. Foram algemados e evacuados para que a Polícia Judiciária os identificasse rapidamente”, conta Fauvergne a Le Parisien.

Estaria a operação concluída? “Antes pelo contrário. Era o princípio”, sublinha.
A cadela do Raid
Estão prometidas ainda longas horas de trabalho em Saint-Denis. Seguem-se as granadas, que provocam vários ferimentos aos militares da polícia de elite. Chegariam ao fim das operações com cinco feridos, nenhum corre perigo de vida.

Depois de uma longa pausa no confronto, as forças de elite enviam Diesel. A cadela das forças especiais deve fazer o reconhecimento do local. O animal acaba por ser abatido pelos terroristas, gerando uma onda de comoção nas redes sociais. É a única vítima mortal do assalto do lado das autoridades policiais.

“Foi abatido. Sem dúvida alguma que salvou a vida dos agentes que se preparavam para entrar”, acredita o líder do Raid.
7h00: A bombista suicida
Prossegue a operação, já passa das 7h00. Com o objetivo de atingir as autoridades, a bombista suicida lança uma prolongada rajada de tiros e faz-se explodir.

A explosão é forte, quebra as janelas e afeta a estrutura do prédio que, no entanto, não colapsa. O corpo da bombista fragmenta-se e há mesmo partes que acabam por chegar à rua.
 
O assalto decorre no número 8 da rue Corbillon, mas é acompanhado por agentes colocados em pontos estratégicos: nos telhados dos edifícios vizinhos, para vigiar janelas, portas e outras entradas.

As autoridades atiram granadas. Os ataques duram já há horas, sem esquecer que uma bombista se fez explodir. O cenário é de guerra e o prédio está fortemente afetado. O chão cede, bem como as condutas de água.

“Continuamos sem avançar. Optámos por uma aproximação lenta, através do envio de pequenos robots que não conseguem avançar devido aos destroços”, conta agora o líder do Raid.
9h00: As últimas horas
Nove horas. As operações tiveram início há quase 300 minutos e prosseguem. Os trabalhos são difíceis, o perigo é constante. “O que o Raid viveu foi uma verdadeira situação de guerra”, acredita Fauvergne.

“Um assalto de uma dificuldade extrema”, aponta o procurador de Paris, sublinhando a “coragem, sangue frio, profissionalismo e espírito de sacrifício” dos agentes.

As autoridades passam a ouvir só uma kalashnikov. Os agentes começam a atirar pequenas granadas para aturdir os suspeitos. Perante a incapacidade de enviar os robots e conseguir visualizar o apartamento, as autoridades descem para o segundo andar.

Aqui, usam os buracos que entretanto se formaram no teto para colocar varas com câmaras na ponta. Só assim conseguem visualizar o que se passa no apartamento sob ataque. No segundo andar, encontram o corpo de um dos suspeitos, que caiu do andar de cima.

Regressam ao terceiro andar, tendo encontrado duas pessoas que se escondiam num monte de roupa. São detidos pelas autoridades.
11h20: o fim das operações

Neste cenário de guerra, a cadela Diesel foi a única vítima mortal do lado das autoridades. Cinco polícias ficaram feridos, mas todos estão bem e regressaram às suas casas já na quarta-feira. Para Christophe Molmy, chefe da Brigada de Intervenção (BRI), o terrorismo evoluiu e é hoje mais perigoso.

“Cometem assassínios em massa, refugiam-se e querem morrer como mártires”. Pelo contrário, os terroristas do passado “talvez não tivessem medo de morrer mas não o desejavam fortemente”, defendeu em entrevista à televisão francesa TF1.

Os trabalhos são dados por concluídos quando são 11h20 em Saint-Denis. Morreram pelo menos dois terroristas, um deles, foi confirmado esta quinta-feira, é Abdelhamid Abbaaoud, apontado como organizador dos atentados.

Entretanto, as operações e as buscas prosseguem. Apesar de Abaaoud ter perecido durante a operação, Salah Abdeslam continua a monte. A ameaça terrorista, essa, persiste e persistirá.
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