Morreu Maria Eugénia Varela Gomes

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Aos 90 anos, faleceu hoje Maria Eugénia Varela Gomes - figura marcante da resistência antifascista e da solidariedade com os presos políticos no tempo da ditadura.

Maria Eugénia de Bilnstein Sequeira nasceu em Évora, em 1925, de família conservadora, filha de um militar. Teve educação católica, no Colégio do Sagrado Coração de Jesus. Veio a entrar depois para o Instituto de Serviço Social.

Os seus primeiros contactos com um ambiente operário foram, assim, na qualidade de assistente social. As suas primeiras experiências com a luta política estiveram relacionadas com o processo de ostracização do padre Abel Varzim, que começara por ser um partidário da ditadura, eleito para a Assembleia Nacional, e que depois se tornara cada vez mais incómodo, devido ao seu empenhamento no combate à pobreza.

Numa extensa entrevista autobiográfica recolhida pela investigadora da Universidade de Coimbra Maria Manuela Cruzeiro, Maria Eugénia Varela Gomes recorda como tomou o partido do padre, ao saber que Salazar queria afastá-lo do Instituto de Serviço Social e como encabeçou uma delegação que foi pedir ao cardeal Cerejeira que interviesse contra esse saneamento.
Maria Eugénia Varela Gomes - Contra ventos e marés
de Maria Manuela Cruzeiro
Ed. Campo das Letras, 2004

Mas a experiência feita com a intolerância da ditadura rapidamente se estendeu a uma outra experiência, essa com a hipocrisia do cardeal, que recebeu cordialmente a delegação e depois deixou cair o padre sem nada fazer.

Nos anos seguintes, Maria Eugénia prosseguiu o seu processo de radizalização política, envolveu-se em 1958 na campanha eleitoral de Humberto Delgado e, depois, muito directamente nos preparativos da Revolta da Sé, pelo qual foi investigada mas sem chegar a ser detida. Tinha entretanto casado com João Varela Gomes, que viria a ser o pai dos seus dois filhos e duas filhas.

Em 1961, voltou a participar intensamente na campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, em que João Varela Gomes foi o único militar no activo candidato pela oposição, e também o mais popular tribuno da resistência.

Nos últimos dias do ano, o capitão Varela Gomes assumiu o compromisso de comandar o assalto ao quartel de Beja, deixando Maria Eugénia em Lisboa, pendente de contactos telefónicos sobre o desenvolvimento do processo. Varela Gomes acabou, contudo, por ser gravemente ferido na acção revolucionária.

Maria Eugénia partiu depois para Beja, regressou a Lisboa quando a PIDE lhe fez crer que o marido iria ser enviado para a capital, e voltou novamente a Beja quando descobriu o engano. Aí foi detida e trazida para Lisboa, já sob prisão.

No depoimento recolhido por Maria Manuela Cruzeiro, e no depoimento gravado pela RTP (vd. vídeo deste artigo), evoca com emoção os inúmeros gestos solidários do povo de Beja, num momento em que a cidade vivia em autêntico estado de sítio e em que pessoas anónimas, desde motoristas de táxis a enfermeiras ou porteiros faziam questão de apoiá-la.


Em Lisboa ficou presa, sem saber se o marido estava vivo. Este fora operado e recuperava, sem saber que ela estava presa. A PIDE permitiu-lhes trocar uma correspondência, rigorosamente censurada, em que procurou dar a entender ao marido que estava presa.

Nos interrogatórios, foi submetida a prolongada tortura do sono e enfrentou com coragem os seus torturadores. Guardou para si um refrão que se prometeu repetir em todas as circunstâncias, dizendo que não sabia de nada, mas estava solidária com tudo. Os torcionários da PIDE exasperavam-se com a tenacidade daquela mulher franzina, que lhes fazia frente com sucesso.

Por falta de provas e de confissões, foi libertada antes do julgamento, após um ano e meio de prisão sem culpa formada. O julgamento viria a realizar-se em 1964. João Varela Gomes foi condenado a seis anos de prisão. Viria a sair em 1968.

Ainda durante o tempo de prisão do marido, e já depois da sua libertação, tornou-se uma das grandes animadoras da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos). Nessa qualidade, estabeleceu uma estreita colaboração com a Amnistia Internacional.

No 25 de Abril, recusou quaisquer indemnizações que, por direito, lhe cabiam como perseguida política, ou retroactivos que o Hospital de Santa Maria e a BP teriam de pagar-lhe por terem procedido ao seu despedimento por motivos políticos.

No início de 1976, partiu para Angola, a reunir-se ao marido, que aí tinha conseguido asilo político, depois de escapar a um mandado de captura emitido por causa do seu papel destacado na jornada de 25 de Novembro de 1975. Em Luanda permaneceram ambos até à repressão desencadeada em 27 de Maio de 1977 pelo Governo de Agostinho Neto.

Partiram depois para Moçambique, onde permaneceram até ser aprovada na Assembleia da República a lei da amnistia. Sem aguardar a promulgação dessa lei, João Varela Gomes enviou uma carta desafiando as autoridades a instaurarem-lhe um processo pelo 25 de Novembro. Ambos regressaram então a Lisboa, mas não chegou a haver qualquer processo.

Maria Eugénia Varela Gomes perdera recentemente o filho Paulo, falecido em Abril de 2016 -  escritor e intelectual de renome, que entre outra obra relevante fora autor de uma série para a RTP, "O mundo de cá". Perdera em 1998 o segundo filho, João António. Sobrevivem-lhe o marido e as filhas Maria Eugénia e Maria da Luz.

O velório de Maria Eugénia Varela Gomes terá lugar na 2ª feira, a partir das 14h30, na Basílica da Estrela. O funeral partirá às 10h da manhã de 3ª feira, para cremação no Alto de S. João.

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