A Alemanha declara guerra a Portugal

No dia 9 de março de 1916 a Alemanha declarou guerra a Portugal. A decisão de Berlim sucedeu ao apresamento dos navios alemães que desde o início da guerra estavam parados no Tejo. Foi o ministro alemão, o sr Rosen, quem apresentou a carta ao ministro dos negócios estrangeiros Augusto Soares.

Bernardino Machado em sessão parlamentar
DR
| Portugal na I Grande Guerra

Dia 9 de março de 1916 foi uma quinta-feira, a primeira da quaresma. Um facto notado no Postal - este também ficcionado, com base em factos reais.



Como nos dias anteriores, estava mau tempo e chovia. No Teatro República retomava-se a exibição da peça "A maluquinha de Arroios", "o grande sucesso destes últimos dias" e a "festejada" peça de Júlio Dantas "A ceia dos Cardeais", interrompidas pelo carnaval e por uma récita. 

Politicamente a notícia era a possível formação de um ministério nacional, que agrupasse as forças políticas portuguesas. A 7 de março, A Capital definia as dificuldades de tal empreitada


Lisboa fervilhava de rumores desde o dia 23 de fevereiro, data em que uma flotilha da Marinha de Guerra liderada pelo capitão-de-mar-e-guerra Leote do Rego se tinha apossado dos navios mercantes alemães, sem qualquer ato de violência de parte a parte. Os navios tinham agora bandeira e tripulações portuguesas. 

Os navios alemães tinham sido entregues à comissão administrativa, sendo retirados da alçada militar, que se manteve somente em questões de disciplina e de organização militar. As autoridades estudavam a melhor forma de instituir a vigilância da foz do Tejo e também da do Douro. 

Cinco dias depois do apresamento, dia 28 de fevereiro, falava-se que Berlim tinha enviado a Lisboa uma carta enérgica em que exigia que a bandeira alemã fosse hasteada de novo nos navios e as suas tripulações - alemãs, austro-húngaras e chinesas, que tinham sido alojadas a expensas do governo português - reenviadas para os seus postos. O Governo negava. 

João Chagas, ministro de Portugal em Paris, descrevia no seu diário dia 1 de março, a reação alemã conforme foi informado "pelo Negreiros": "A Alemanha ameaça tirar-nos não sei se as orelhas se a independência", refere. 


Ver março de 1916

Ao mesmo tempo, a comunidade alemã movimentava-se. Muitos alemães, incluindo os mais abastados, levantavam as suas economias e preparavam-se para partir logo que possível, para Espanha, que se mantinha neutral. No Porto, o representante do Império austro-húngaro teria dito aos alemães daquela cidade para se porem a salvo. 

Dizia-se ainda que o sr Rosen tinha mandado indagar da possibilidade de um comboio especial para Madrid, para o levar a ele, aos membros da legação alemã e a outros cidadãos da mesma nacionalidade. Outros rumores afirmavam que o ministro alemão já tinha deixado Lisboa e seguia para Madrid pela Beira Alta. 

O ministro alemão era seguido por jornalistas que lhe espiolhavam cada passo, à espreita de novidades. A imprensa refere dia 9 de menhã que as luzes estiveram acesas até de madrugada na legação alemã na Rua do Século e a Capital especulava que o sr Rosen tinha estado a queimar papéis. 

Também dia 9, na seção últimas notícias, os jornais dão conta de movimentações.
 
O Século admitia o rompimento, baseando-se no êxodo dos alemães e em notícias que circulavam no estrangeiro. 

Passou despercebido contudo o pedido do sr Rosen ao ministro Augusto Soares, para ser recebido em audiência no próprio dia, durante a tarde. O ministro "fixou as 18 horas" e o Sr Rosen cumpriu escrupulosamente o horário. A reunião durou não mais de 20 minutos. 

A novidade surge assim na secção últimas notícias de A Capital, que já faz parangonas com a notícia da convocação do Parlamento, das movimentações políticas que marcaram o dia 9, que o Século também refere mas numa nota mais breve. E dos pormenores da visita - o sr Rosen "vestia de preto, sobrecasaca e chapéu alto", tendo "sido introduzido pelo secretário do ministro, o sr Eugénio Tavares".

Dia 10 amanhece com todo o país avisado que a Alemanha declarou guerra e que o Congresso da República deverá reunir durante a tarde, de emergência. O decreto a convocar o plenário foi assinado na véspera pelo Presidente Bernardino Machado, noticia O Século, numa edição que esgota rapidamente. 

O êxodo dos alemães intensificou-se igualmente nos dois comboios do dia, noticia o mesmo jornal. O sr Rosen, acompanhado da sra Rosen, dos membros da legação e de numerosa bagagem, parte nesse mesmo dia à noite, num comboio especial que tinha fretado dias antes. No mesmo trem vão numerosos membros da comunidade alemã. Muitos, contudo, recusam partir. 

Politicamente, intensificam-se os rumores da formação de um governo de união dos principais partidos republicanos, que virá a ser formado e passará à história como "A União Sagrada". 

Inclui o líder do partido Evolucionista, António José de Almeida, o chefe do partido democrático, Afonso Costa, que permanecerá primeiro-ministro, e Brito Camacho, chefe do partido unionista.


Depressa se junta uma multidão dentro e fora do edifício da Assembleia. Os parlamentares acabam por ter de abrir caminho à cotovelada para entrarem na sala. A sala dos deputados está "repleta de congressistas", muitos deles chamados por telegrama. 

Na galeria do corpo diplomático vêem-se os ministros de Inglaterra, Sir Carnegie, acompanhado de Lady Carnegie, e de França, - ambos muito ovacionados à chegada ao hemiciclo. Presentes igualmente os representantes da Bélgica, da Rússia, da Venezuela, de Cuba, do Uruguai e de Itália. 


Ao centro Bernardino Machado

A sessão parlamentar inicia-se com meia hora de atraso em relação à hora marcada - 16 horas - e em tom de confusão geral, incluindo desacatos entre aqueles que pretendem ter acesso às galerias. Até a seção reservada às senhoras é invadida. Os únicos com espaço para se sentar confortavelmente são o Presidente da República, Bernardino Machado, que assiste de camarote e os deputados e senadores. 

 

Todos os jornais descrevem minuciosamente o que se passa nessa tarde, desde a reação das galerias à carta alemã, entregue no dia anterior pelo sr Rosen ao ministro Augusto Soares - descrita de forma inesquecível n' A Capital - até aos discursos dos líderes e à decisão de recomendar ao Presidente a formação de um ministério nacional, a que todos os partidos aderem. 



No dia seguinte Afonso Costa apresentará a demissão, ficando a cumprir as funções interinamente até ser nomeado um novo chefe de governo. A questão não é fácil e vários nomes convidados declinam a honra. Entre eles Augusto José da Cunha, Brancaamp Freire e Guerra Junqueiro. 

Tal como na altura do apresamento, os jornais estrangeiros aplaudem a entrada de Portugal na guerra. Mas a forma como esta se irá concretizar está ainda por decidir. Portugal limita-se a reforçar a vigilância das barras do Tejo e do Douro com novos vasos de guerra - alguns os antigos "vapores" alemães entregues à força naval e apetrechados rapidamente de artilharia. 


Ilustração Portuguesa

Já antes havia sido proibida a entrada no porto de Lisboa depois do por do sol, obrigando-se todos os navios a apresentarem-se na capitania de Cascais para requererem autorização de entrada.   

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