A publicidade e os anúncios

Escrevo-te este postal porque acho que vais achar graça a estas pequenas pérolas que fui encontrando enquanto leio nos jornais as notícias sobre a guerra.

| Portugal na I Grande Guerra



Sabes que acaba mesmo por saltar à vista como a tragédia que se abateu sobre a Europa foi utilizada para fazer publicidade a uma série de coisas.


Para os que iam mesmo para a guerra, o exército torna-se potencial cliente, e não faltam anúncios para tal freguesia. Chapéus há muitos, e também cantis, espadas e suspensões de metal branco e de ferro niquelado para todas as armas.


Oferecem-se fardamentos para instrução militar com acabamento esmerado.


Aos expedicionários oferecem-se camas de campanha, bidets e lençóis de borracha, malas de toda a sorte e preços sem competência. O que faria o expedicionário com o bidet não sabemos. Felizmente à venda na casa da Russia, uma aliada.


O mesmo não se pode dizer da loja da Rua da Palma 33, em que apesar de suecas as navalhas, a casa essa anuncia-se como ex-alemã, não vá o freguez aviar-se noutra freguesia.


Ele há águias e milhafres. Mas a águia da companhia de seguros mundial é napoleónica, francesa em todas as penas, igual à que figura no museu do Louvre – só ignorantes ou mal-intencionados a podem confundir com a águia germânica.


Como inimigos também há mais do que um, onde o canhão mata os alemães, o Alcatrão Guyot promete eliminar os micróbios. A receita é tomá-lo a todas as refeições à dose de uma colher de café por copo d’água, e adeus à tosse, bronquite e outras maleitas.


No top dos remédios está o Urodonal que sendo produto francês se bebe quase como champanhe. É Urodonal que os magalas querem e bebem nas trincheiras como aperitivo. Dá cabo do reumatismo, limpa o rim, evita as nevralgias e a ciática. E como a bebida engorda que não a ração da tropa este remédio 30 em 1 também evita a obesidade – só não dá cabo dos alemães. Este produto registado é tão especial que é de “Exigir em cada frasco a etiqueta com a marca registada Homem Atanazado.”


Não há nada como dar golpes abaixo da linha de cintura para ficar atanazado, e isto por duzentos réis: a literatura da época lança As Amantes do Kaiser, uma obra que promete revelações de cenas escandalosas sobre os amores do dito com várias cocotes da alta-roda. O livro mais sensacional e interessante da actualidade, à época.


A paixão do traidor é tema que chega também ao cinema – é no Condes que estreia o film militar… em 4 actos e com dois quilómetros de paixão.


Há 100 anos a técnica da publicidade encapotada já se usava – escondida por baixo do capote de um lindo poema chamava-se afinal a atenção para os gabões de Aveiro, e as capas à alentejana da célebre casa das tesouras, atenção, única casa com “marquise” e, claro está, tesouras.


À venda em todas as terras de Portugal – nesta terra de ciclistas – o pneu Soly, “o único que, por não conhecer obstáculos, é usado pelos exércitos aliados”. É, resumindo, o pneu dos pneus.


Quem não tem pneus vai à pata. O Cliente é a República – e lança anúncio para a compra extraordinária de solípedes para o exército. Para quem não saiba não é bicicleta, nem motociclo, é de equídeos de 4 patas que se trata. Boas notícias para os animais: para além das éguas, quer-se machos castrados e completamente curados da dita intervenção.


Há sempre quem faça negócio com a guerra, já se sabe. Vai longa a correspondência – tenho cá mais anúncios que te posso enviar se quiseres.

Não sei se daqui a 100 anos alguém achará isto tão delicioso quanto eu – mas quase que consigo ver o sorriso que farás no fim deste meu postal.


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